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O humanismo contra o fascismo

Imagem: Elyeser Szturm
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Por Tarso Genro*

O fascismo só será derrotado se nos unirmos para derrotar a pandemia, pois ela é a crise explicitada na sua materialidade mais cruel e expressa, nos seus reflexos mais concretos do cotidiano das massas populares e das próprias classes médias, o recorte de classes verdadeiro: quem paga aquilo que aqui no Brasil só foi possível recriar com o conúbio cruel das nossas classes dominantes com o fascismo miliciano.

Os fatos uruguaios que relato neste artigo de memória política, têm a ver com outra época histórica da América Latina e do mundo. Eles podem ser úteis para uma geração inteira de jovens intelectuais e militantes deste tempos difíceis que estamos – suponho – atravessando. A época a que me refiro é a da Guerra fria ascendente, do comunismo histórico (aquele que ocorreu, “de fato”) x capitalismo imperialista. Hoje a contradição fundamental da política global é outra: entre as formas democráticas de controle do capital (se é que existem) e a força normativa – política e militar – da era do “rentismo” liberal.

Os fatos a que me refiro são de três anos antes da derrota dos EUA no Vietnam e de antes do término do mandato do General De Gaulle, que comandara politicamente e dirigira a derrota da insurreição estudantil de maio de 68; fatos, portanto, de quinze meses antes do assassinato do Presidente Allende, por Pinochet e seus delinquentes fardados.

São fatos de uma época em que o Brasil estava nas mãos do Governo Médici, cuja única reunião da sua Comissão de “direitos humanos” – presidida pelo então Ministro da Justiça Alfredo Buzaid – chegaria à conclusão que não ocorriam estas violações de Direitos no Brasil. A própria interpretação da Lei de Anistia, que alcançou os torturadores para salvá-los da cadeia, comprova que esta versão fantasiosa não iria prosperar na nossa história recente, como não prosperou na avaliação do Estado novo getulista ou dos Processos de Moscou.

São tempos que já foram de lutas e esperanças, que já fogem da memória – amarga ou utópica – dos que estiveram por lá de alguma forma. Lembrei que Pinochet era um delinquente, porque um verdadeiro General (ou Coronel, ou Capitão) – na vitória – sabe que, ao consolidá-la, deve falar não somente para os vitoriosos que comandou, mas também para os derrotados e para a História.

Os delinquentes não precisam fazer isso: não têm senso histórico, vivem exclusivamente do presente, ao contrário dos comandantes verdadeiros, que registram – no seu cerne áspero – as suas glórias universais ou a sua barbárie, fundados na ética que os guiou, no período que lhes foi dado dirigir homens e ideias.

Pinochet era um delinquente fardado porque roubou e matou. Lembro que De Gaulle jamais o foi porque, quando o seu Ministro de Polícia sugeriu a prisão de Sartre – que distribuía o ilegal “Le Cause de Peuple” nas esquinas de Saint-Germain – disse ao seu afoito subordinado: “Mas não se prende Danton!”

O vitorioso De Gaulle sabia que um estadista, principalmente sendo o Comandante de uma grande vitória, não poderia ignorar o futuro integrado da nação, para a qual ele comprometera o seu juramento e que esta não olharia com piedade quem tratasse a filosofia com os olhos inquisitoriais da Idade Média. Como faz o nosso demente Governo brasileiro.

Os fatos a que refiro neste artigo estão relatados no discurso do Senador Zelmar Michelini, em 31 de jullho de 72, proferido no Parlamento uruguaio. Ele anunciou da Tribuna, em plena guerrilha – que terminaria com a derrota total do MLN (Tupamaros) – a negociação de uma “trégua”. Ela estava, naquele momento em andamento, entre uma parte da Junta de Comandantes – que então detinha o poder de fato no país – e a direção Tupamara, que então chefiava a luta clandestina contra o regime. Ousadia em ambas as latitudes.

Do lado dos Tupamaros o negociador mais importante foi Eleutério Huidobro, que estava preso e sofrera toda a espécie de tortura nas mãos dos militares e que, mais tarde, seria o Ministro da Defesa de Mujica. Huidobro aceita – depois de discutir com seus companheiros de cárcere – ser “solto” “sob palavra de honra”, para contatar a Direção Tupamara na clandestinidade, com o objetivo de iniciar as conversações com uma “ala militar” do regime, que propunha a rendição da guerrilha – já em recuo – através de um acordo de paz sem humilhações. Ambos os lados tem pessoas que se arriscam por um ideal conjunturalmente comum.

Não havia nenhuma identidade ideológica e política entre as forças em negociação – o Exército representado principalmente pelos Coronéis Trabal e Gregório Alvarez – mas ambas localizaram um “sentido comum” para o diálogo: acabar com as formas de luta que estavam, de um lado, deteriorando o Estado e, de outro, desvirtuando as funções das Forças Armadas, ao gerar uma sangrenta ruptura na sociedade uruguaia, da qual seria muito difícil recuperar-se, como foi confirmado depois.

A analogia política que faço com o presente texto não é a partir da luta armada, mas a partir da guerra contra a Pandemia, que só será vencida em condições razoáveis, se as forças políticas democráticas de todas as origens, se unirem para deslocar do poder o insano que nos governa, pois sua perseverança na brutalidade poderá ser responsável por milhares de mortes em nosso país.

E incrível é que os nossos líderes do campo democrático não falam e não agem unidos contra o desastre da pandemia, que é muito maior do que qualquer crise, porque a engolfa e a alarga, geometricamente, a cada precioso dia que encurta o nosso futuro. São irresponsáveis ou não entendem o que está ocorrendo? Estão preocupados com o seu futuro imediato ou só com as eleições de 2022?

Os custos sociais e políticos da luta armada (pensavam aqueles militares adeptos do “peruanismo” nacionalista do General Alvarado) seriam – e foram – dilacerantes para um país que nos anos 50 e 60, era reconhecido como a “Suiça da América do Sul”. E que, sem acordo, seguiria o “script” das mais cruéis ditaduras latino-americanas, bancadas pela CIA e os governos dos EUA, no âmbito da Guerra Fria. Os custos da eleição de Bolsonaro, apoiada pela maior parte da grande mídia e pela quase totalidade da nossa burguesia (financiada pelo erário público ao longo da sua historia), estão brutalmente ficando evidentes: não temos mais saída, estamos entre a vida digna, lutando pela sobrevivência de todos, ou a possível morte miserável, cuidando do nosso próprio quintal. .

Entre 30 de junho e 23 de julho o Uruguai passa por uma “trégua” entre os Tupamaros e o Exército Nacional, mas ao contrário da vocação de paz que as conversações perseguiam, o país mergulha na barbárie, por 12 anos ininterruptos. Venceria a extrema-direita no Exército: o Coronel Gregório Alvarez adere ao seu catecismo e o Coronel Trabal, em 1974, é assassinado em Paris, para onde fora deslocado pelo Governo para morrer, onde os seus seus mandantes permanecessem incógnitos.

Na primeira reunião de conversação entre Huidobro e os Coronéis, um dirigente Tupamaro (Manera) afirma que a tortura era o método de interrogatório preferencial dos militares, ao que o Coronel Christi responde, sem pestanejar: “son hechos normales, de tiempos anormales”. A mesma filosofia que certeiramente guiou a mão assassina de Trabal, em Paris.

Naquele período, as forças políticas mais importantes dividiam-se entre aquelas que eram pró-imperialistas “ianques”, de um lado, e uma miríade – do outro lado – de forças comunistas, socialistas, nacionalistas de esquerda, democráticos e não democráticos, no que tange às suas ligações com a defesa do Estado de Direito formal. Era uma época que também surgiram Governos oriundos de golpes de Estado ou contragolpes de caráter nacionalista, anti-imperialista, “pela” linhagem da esquerda, que influenciaram grupos de oficiais latino-americanos, cansados de serem guardiões dos interesses imperiais.

O General Torres na Bolívia, General Alvarado no Peru, o Coronel Omar Torrijos no Panamá, são exemplos clássicos destas novas lideranças, que também inspiraram quadros militares – democráticos e nacionalistas – dentro de exércitos que cumpririam ou cumpriam funções ditatoriais, nos seus respectivos países. Os Generais Schneider no Chile e Euler Bentes no nosso país, são exemplos desta linhagem surpreendente, que se recusava a ser servil ao Império, posição tão disputada no pós-Guerra, na América Latina.

O fascismo só será derrotado se nos unirmos para derrotar a pandemia, pois ela é a crise explicitada na sua materialidade mais cruel e expressa, nos seus reflexos mais concretos do cotidiano das massas populares e das próprias classes médias, o recorte de classes verdadeiro: quem paga aquilo que aqui no Brasil só foi possível recriar com o conúbio cruel das nossas classes dominantes com o fascismo miliciano. Este, apoiado por Trump e seus bandidos letais. Vamos revogá-los!

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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