A extrema direita no deserto das planilhas

Imagem: Skyler Ewing
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Por THIAGO TURIBIO*

“O mal não é natural, é a desigualdade que o promove e banaliza. O tempo da emancipação virá, mas antes é preciso trabalhar, negociar, conciliar, conceder”

1.

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Era 17 de abril de 2016. Com a abjeta homenagem ao torturador, Jair Messias Bolsonaro somava seu voto à coalizão conservadora que derrubaria a então presidente eleita. Ao lado do apartamento onde moro, na favela do Menino de Deus, estouraram alguns fogos. No mais, silêncio. Foi acachapante.

Desde então acumulamos derrotas. O obscurantismo da homenagem era só o começo: aprovação do teto de gastos e da reforma trabalhista pelo governo Temer, prisão ilegal de Lula e vitória do mesmo Bolsonaro em 2018. Em 2022, algum respiro. Solto, Lula comandou uma campanha popular e foi reeleito para o terceiro mandato. No entanto, já nos primeiros dias, teve que enfrentar um levante golpista contra o governo que ainda tomava forma. Apesar da retomada da cadeira presidencial, nas ruas, a língua que se fala é da direita e da extrema direita: empreendedorismo, militarização, teologia da prosperidade e da guerra. Situação que impõe uma questão a todos nós do “campo progressista”: como tudo isso foi possível?

Vários se apresentaram à tarefa. Respostas foram dadas, algumas convincentes, outras nem tanto: retórica do ódio, mundo do avesso das redes algorítmicas, ressentimento, ódio aos pobres e ao seu tímido processo de ascensão social. Em todas há um grão de verdade. Mas, como Vladimir Safatle, penso que sempre quando a extrema direita renasce é sinal de que a esquerda faltou ao encontro[i].

No quadro da desintegração social em que vivemos, a visão de mundo da esquerda soa como bom-mocismo dos que são materialmente protegidos e não sabem nada sobre o mundo real. A extrema direita, portanto, seria realista. Nós, românticos, tolos. Alguns acham graça, outros se enervam diante das nossas propostas.

A extrema direita, por sua vez, afirma um discurso sobrevivencialista. Os que engrossarem a casca e petrificarem o coração, sobrevivem. Ao menos, têm chance. A esquerda hegemônica, cada vez mais institucionalizada, aponta para o inferno e promete a redenção no céu da integração social. O mal não é natural, é a desigualdade que o promove e banaliza. O tempo da emancipação virá, mas antes é preciso trabalhar, negociar, conciliar, conceder.

Ela diz do futuro e passa a fazer cálculos para equilibrar as contas. Na prática, quer ser a fiadora final de um capitalismo sem solução. Já a extrema direita aponta para o inferno e diz: esse é o nosso lar. Aqui vamos viver. Não esperem nada de ninguém e nem concedam nada a ninguém. Peguem suas armas, não as deixem cair. Seria fatal.

O discurso na pandemia, por exemplo, era o da sobrevivência. Quem tergiversar, querer se esconder, vai ser capturado dentro de casa. Era hora da coragem. Ir para a rua, enfrentar o vírus, trabalhar. Do contrário, viria a fome. Não tem pra onde correr. A não ser que você seja privilegiado. Aí o discurso da extrema direita nomeia seus inimigos: os que podem se esconder do vírus são os que mesmo sem trabalhar não vão morrer de fome. Nosso ódio a eles.

Nós odiamos abstrações — o capital, o colapso climático, a especulação financeira. Eles odeiam pessoas cujos rostos conhecem muito bem.

Como nos lembra Walter Benjamin, a social-democracia de sua época abandonou a ideia da classe trabalhadora como “escravizada, vingadora e libertadora”, para recrutá-la como salvadora das gerações futuras. Foi quando ela desaprendeu o ódio e a disponibilidade para o sacrifício, cuja fonte principal era a solidariedade com os mortos do passado. Aqueles que não terão descanso enquanto o inimigo vencer. Fazer contas e mais contas em nome do “realismo fiscal” é também perder a solidariedade com os mortos do presente, falar uma língua inócua e rifar o ódio de classe inteiro ao outro lado.

2.

Nas ruínas do fordismo, que aqui não passou de horizonte formativo da vindoura sociedade salarial, se encontra o núcleo de verdade do sobrevivencialismo de extrema direita. Para quem trabalha 12 horas por dia sem qualquer garantia de que haverá amanhã, o mundo social é mesmo uma luta de vida ou morte. Os mortos e estropiados estão pelas calçadas, como a lembrar que há sempre um buraco mais fundo para se cair.

Afinal, numa coisa a extrema direita tem razão. Conhecer a realidade não implica o poder de mudá-la. Nós, “progressistas”, sabemos de tudo. Produzimos ciência, análise de conjuntura, contamos com extenso apoio de evidências sobre o funcionamento do mundo social. Mas ao final o mundo é mesmo esse daí. É preciso sobreviver agora, não depois. Ao fim de tantas promessas que ficaram a meio caminho, de tanta conquista espanada, parte expressiva da população se impacientou. A extrema direita promete que quanto mais identificado com a ordem, mais chances de sobreviver você terá. Ela não quer mudar nada. Não acredita que isso seja possível. Que ninguém a atrapalhe. Nesse sentido, ela abomina todas as mediações e faz o elogio bruto da dominação direta (mercado, patriarcalismo etc.) tida por natural.

Theodor Adorno uma vez disse que enquanto houver sofrimento desnecessário haverá dialética. Não que haverá progresso, mas sim negatividade. História. Não se sabe de antemão em nome do que ela falará, mas certamente a voz ressoará da escuta e organização da revolta. Essa língua a esquerda desaprendeu. É preciso recuperá-la.

Taí, claro, mais uma daquelas palavras de ordem que, como Roberto Schwarz diria, é fácil de lançar e difícil de cumprir. Taxar grandes fortunas, isentar do imposto de renda as classes trabalhadoras e, sobretudo, abolir a escala 6×1 — pautas mais ou menos encampadas pelo governo — até poderiam contribuir para a retomada de uma dicção de classe. Mas só se não fossem acenos eleitorais no momento do desespero, e sim vias de reencontro com a tradição dos oprimidos. Será que há espaço na planilha?

*Thiago Turibio é professor do Departamento de História do Colégio Pedro II.

Referências

ADORNO, Theodor W. Dialética negativa. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

SCHWARZ, Roberto. Pressupostos, salvo engano, da “Dialética da Malandragem”. In: SCHWARZ, Roberto. Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Nota


[i] Além dos textos da tradição crítica brasileira, este ensaio não seria possível sem as muitas horas de lives assistidas desde o início da pandemia, sobretudo as de Silvia Viana, Paulo Arantes e Vladimir Safatle.

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