A montanha da luta de classes

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Por ANDRÉ BOF*

Os limites da esquerda no Brasil

Durante a maior parte de minha ainda breve vida política consciente vivi numa época rara. Na verdade, foi durante sua duração que me formei politicamente, psicologicamente e, é claro, moralmente. Essa época, ainda que relativamente frequente nos países centrais de nosso planeta capitalista, nunca foi muito familiar nas terras de onde escrevo.

Quando Marx escreve sobre os “ciclos industriais”, desenrolando-se em fases de prosperidade seguidas de crises de superprodução causando miséria, já previstos a uma duração, variável, é claro, de cerca de dez anos, ele tratava da única nação em que as relações capitalistas de produção haviam dominado todas as esferas da produção material de forma plena: A Inglaterra.

No Brasil, ao longo dos últimos, talvez, dois séculos de sua história imperial, republicana e ditatorial, vivenciou algumas destas oscilações cíclicas, com apenas uma diferença fundamental: em poucas, nas fases de prosperidade material (vulgo, acumulação acelerada de capital), houve a linha política de permitir a concessão de uma parte maior do “bolo”, em forma de concessões, por menores que fossem, como forma de apaziguar preventivamente a fúria dos explorados.

Aqui, a marca feita a fogo pelo Capitalismo periférico se demonstra na superexploração desenfreada dos trabalhadores, numa guerra civil maquiada imposta aos pobres pelo Estado dos patrões e pelo estrutural pagamento de salários muito abaixo do valor da força de trabalho (eis aí um salário médio de 1500 reais, enquanto um mínimo para a sobrevivência, calculado pelo DIEESE, deveria ser de 5000 reais).

Minha formação se deu numa dessas épocas em que, apesar de não alterar estas características fundamentais do capitalismo brasileiro, fizeram-se pequenas concessões, consideradas, pela realidade miserável e secular de espoliação, como enormes contribuições à vida e esperança dos pobres e trabalhadores.

Os anos do PT no poder trouxeram, na esteira do enorme impulso sustentado pelo consumo de commodities chinês (essas coisas como soja, minérios e carne, o carro chefe do papel brasileiro nas cadeias de produção mundial), medidas cujo objetivo eram, além de sustentar o partido no poder, cumprir um papel apaziguador, conduzir as esperanças, angústias e desejos “através dos trilhos e margens da democracia” – burguesa, é claro.

As pessoas desejam. Isto é um fato. E àqueles que mais falta, o desejo vem sob as mais variadas formas e intensidades. A classe dominante de nossos tempos, os patrões, sabem disso. Efetivamente, a realização de sua razão de viver, acumular mais capital, depende da capacidade de explorar, criar e conduzir estes desejos. Só existe lucro onde há desejo e compra.

O passo de todos os endinheirados, em todos os momentos em que a classe oprimida desperta e entende os séculos de sua exploração e sua força potencial ao se unir, foi buscar conduzir esperanças pelos trilhos, domesticados e controlados, do seu regime político, suas instituições, suas leis e seus prazos que nunca chegam.

Em troca das bolsas família, do acesso à universidade, de algum incremento no salário-mínimo (sempre muito abaixo do minimamente digno), o PT conseguiu imobilizar movimentos e conduzir expectativas para o Estado: tudo dependia de saber esperar o “talento político” de tal ou qual parlamentar trazer “melhorias a conta gotas”.

É exaustiva a discussão sobre o quanto essas concessões eram e poderiam ser efêmeras e provisórias. De 2015 para cá, foram todas varridas do mapa. A história da luta de classes demonstra que todas as melhorias minimamente sérias e duradouras só podem vir como subproduto de uma luta revolucionária, ou seja, uma mudança na correlação de forças entre os peões e os patrões.

Os níveis da jornada de trabalho, salários, condições habitacionais, direitos sociais, todos foram conquistados por uma luta contra a exploração do trabalho, ou seja, questionando as relações capitalistas de produção. Evidentemente, em cada um destes combates, que fazem parte de uma guerra civil permanente entre trabalhadores e exploradores, pressupõem-se certo grau de consciência e organização de classe pelos oprimidos.

Ainda que este tema não tenha sido sanado entre as organizações que se consideram “revolucionárias”, é evidente que um profundo retrocesso nestes dois pressupostos se impôs, desde esta absorção da luta pela conciliação do PT, dando um mergulho com o impeachment de Dilma e a instauração de um governo tutelado pelos militares, com Bolsonaro como testa de ferro.

Em meio a este cenário desolador, cá me encontro, diante de uma confusão generalizada e a domesticação pelas leis e propriedade burguesas, não apenas por parte da consciência média do trabalhador comum, mas dos grupos da esquerda socialista. Afundados no atoleiro das eleições, seguem conduzindo as inúmeras e graves demandas dos explorados, no máximo, para um projeto de lei, uma petição parlamentar ou uma greve engessada por uma prática sindicalista acovardada frente aos tribunais.

Inusitado que frente ao chamado de sua razão de ser, com a proliferação descontrolada da fome, do desemprego, da miséria moral, do obscurantismo, nossos socialistas não compareçam ao encontro da história. Sem contribuir com nenhum exemplo em termos de propaganda, de ação direta, de lutas de resistência e defensivas capazes de ensinar e conduzir a organização novas gerações de peões, contra todos estes ataques e a piora abismal da vida, nossos socialistas se converteram no profissional mais tragicômico do espetáculo burguês: o de ouvidoria da exploração capitalista.

Não há nenhuma referência séria nas ideias ou figuras socialistas e revolucionárias pelos trabalhadores. Tornam-se, assim, mais retroalimentados em suas seitas, com vocabulários próprios e esterilidade comum, tudo flutuando em meio ao mar de pequenas disputas de pequenos poderes e pequenos privilégios de pequenas figuras.

Perdida em ações orientadas por interesses de marketing digital, patinando na lacração de classe média e, fundamentalmente, orientada como plataforma de sustentação de carreiras de alpinistas sociais, exploradores egoístas de nichos sociais e parlamentares e sindicalistas acomodados, nossa esquerda socialista se liberaliza à velocidade da luz nesta crise. Torna-se a oposição esperada… e inofensiva.

Seu próximo passo é imiscuir-se nos negócios da democracia liberal e, vendendo a mentira adocicada do passado idealizado, tornar-se fiadora da mais nova fórmula de salvação da nação brasileira, essa máquina de matar preto e sugar peão:

A redentora candidatura de Lula e…. Alckmin!

Por razões de dignidade, recuso-me a listar o inventário de maldades desse senhor, o massacrador do Pinheirinho. Sua função óbvia é a de tutelar os gerentes petistas e Lula para que “andem na linha” e abandonem qualquer mínima intenção de voltar a fazer concessões ou retroceder em ataques, como a reforma trabalhista.

Basta enunciar essa como a realidade mais provável a retornar ao poder para esclarecer a visão do tamanho de nossa crise. A frente há uma montanha, com cada escarpa preenchida de alienação, atraso, carestia de vida, fragmentação, divisão e precarização inéditos das relações de trabalho, jornadas longas e intensas, filas de osso, porções territoriais tomadas pelo crime e igrejas associados ao Estado, necessidades de retomada de sindicatos e criação de outros, em suma, uma montanha a se escalar para abrir os olhos e levantar as mãos dos peões.

Entretanto, nossos socialistas amarelados – e mesmo algumas variáveis mais avermelhadas – parecem resignar-se a um papel oscilante, ora como ouvidor, ora como candidato a “gestor humano” de um capitalismo que, por nada, por lucro, certamente levou milhões de trabalhadores brasileiros à morte numa epidemia.

Essa realidade só é possível graças a uma doença crônica da qual sofre nossa esquerda, outrora socialista, cada vez mais liberal: sua composição e infecção pelos interesses e fome arrivista das camadas privilegiadas da classe média e da pequena burguesia, sem nenhum interesse ou capacidade séria de romper com a vida no capitalismo.

Tive dificuldade de perceber os limites dessa esquerda. Nos tempos de minha formação, os ritmos eram lentos. Sob a proteção das boas condições de vida e relativa paz social dos governos petistas, era possível até ao mais pelego de hoje sustentar um discurso vermelho e radical. Não se fazia, como hoje, balanço de nada ou autocrítica de qualquer coisa. Todas as direções se atribuíam o papel de guardiões das chaves do socialismo.

Hoje, enfeitiçados pelo perfume do prestígio social, figuras como essas, jogam num baú seu passado, já tímido, de críticas e sustentam o desvio da justa indignação popular, das trilhas revolucionárias para as trilhas da “cidadania”, assistencialismo e abafamento da consciência de classe.

Que lástima escalar essa montanha quase descalço! Mas que dádiva poder viver tempos em que as palavras são testadas a ponto de fazer rapidamente cair as máscaras dos pretensos “amigos” do povo.

*André Bof é trabalhador desempregado, ex-metroviário e bacharel em ciências sociais pela USP.

 

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