A Paris dos trópicos

Imagem: Asafh Kalebe/ Cúpula do Teatro Amazonas
image_pdf

Por SAMUEL KILSZTAJN*

Entre o Fausto importado e a miséria estrutural, Manaus construiu sua modernidade sobre os ciclos de riqueza, exclusão e ruína

Durante o Ciclo da Borracha, na passagem dos séculos XIX para o XX, Manaus foi transformada em a Paris dos Trópicos. Em estilo Art Nouveau, centenas ou mesmo milhares de suntuosos casarões, palacetes e monumentais armazéns foram erguidos da noite para o dia. O Palácio Rio Negro, construído para residência do empresário alemão Waldemar Scholz, já foi sede do Governo do Estado do Amazonas e hoje abriga um centro cultural.

A população da cidade, estimada em 29 mil habitantes em 1872, passou para 76 mil em 1920. Dinheiro chovia na rainforest amazônica. Mesmo assim, a construção de um centro urbano aristocrático em plena floresta tropical pode ser considerada uma façanha, uma empreitada mirabolante, no estilo Fitzcarraldo de Werner Herzog.

O Teatro Amazonas, no centro da Selva das Seringueiras, foi inaugurado no auge dos anos dourados da borracha e é o cartão postal de Manaus, assim como a Torre Eiffel, erguida no mesmo período, é o cartão postal de Paris, a Cidade Luz. Arquitetos, construtores, escultores e pintores europeus participaram da construção do teatro e utilizaram peças de ferro da Inglaterra, mármores de Carrara, lustres de Murano e espelhos da França.

Verde, amarelo, cor de anil – a cúpula do teatro reproduz a bandeira brasileira com 36 mil peças de escamas em cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas, vindas da Alsácia. A parte interna da cúpula, que cobre a sala de espetáculos, contudo, fica aos pés da Torre Eiffel, num ângulo estrambólico, não de pronto reconhecível – você está no centro, debaixo da torre, que se ergue sobre a sua cabeça. Os quatro apoios gigantes da base da torre dividem as pinturas do teto abobadado, com alegorias à música, dança, teatro e à ópera (com homenagem a Carlos Gomes). No pano de boca do palco correm, lado a lado, sem se misturar, as águas escuras do Rio Negro e as barrentas do Solimões. No salão nobre, onde eram realizados os bailes dos barões da borracha, as colunas mimetizam seringueiras em meio à vegetação tropical, com destaque a Ceci e Peri de Il guarany.

Vale lembrar que a riqueza de Manaus era acompanhada da segregação dos seringueiros e dos indígenas e caboclos serviçais das elites e dos imigrantes atraídos pela borracha – considere-se que os operários franceses tampouco residiam na Avenue des Champs-Élysées e também não frequentavam L’Opéra de Paris. O Ciclo Áureo da Borracha, do ponto de vista dos seringueiros, foi descrito em 1930 por Ferreira de Castro em A selva. O autor português viveu como seringueiro na Amazônia, o que confere à obra um caráter memorialista. A selva foi adaptada para o cinema por Márcio Souza, entre outros.

A urbanização e segregação promovidas na Paris dos Trópicos durante o período 1890-1920 foi analisada por Edinea Mascarenhas Dias na pioneira pesquisa A ilusão do fausto. Em bairros distantes, longe da próspera, aristocrática e moderna Manaus, aglomeravam-se os excluídos da Belle Époque – a população pobre, desocupada e mal remunerada de trabalhadores.

Quando Manaus entrou em decadência, pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial, boa parte da elite abandonou a cidade, “foram logo tratando de dar o fora” – este êxodo foi descrito por Thiago de Mello em Manaus, amor e memória. Mas os ribeirinhos continuaram chegando. Foi neste período que se desenvolveu o que ficou conhecido como a Cidade Flutuante, às margens do Rio Negro, próxima ao centro.

Pitoresca e exótica, a Cidade Flutuante, com suas residências, comércio, restaurantes e ruas que lembravam meandros, transformou-se em cartão postal de Manaus, fazendo sombra ao Teatro Amazonas. As elites e autoridades passaram a caracterizá-la como uma excrescência, habitações sem as mínimas condições de conforto e higiene e um grave problema de ordem social. O esgoto das casas era descartado diretamente no rio (que, de qualquer forma, até hoje, continua sendo o destino final de grande parte do esgoto da cidade).

Leno José Barata Souza, a partir da história oral, mergulhou na cultura singular desenvolvida em meio às águas fluviais. À riqueza da memória viva de seus entrevistados, Leno agregou farto material, reunindo relatos de memorialistas, documentos oficiais, imprensa, fotos e mapas da polêmica Cidade Flutuante que, quando foi desativada, em meados dos anos 1960, reunia duas mil residências e 12 mil moradores – seu trabalho extrapola o objeto de estudo, foi muito além, na medida que nos propicia uma profunda compreensão da vida do amazonense.

Em meio às águas, os manauaras sentiam-se em casa, integrados à vida. Tinha seus perigos (“né!”), mas morando sobre as águas, próximos ao centro da cidade, não precisavam passar pela burocracia dos ricos, pagar altos aluguéis e impostos. Em seus flutuantes, que acompanhavam o nível da água do rio, podiam também enfrentar as enchentes sem maiores problemas e, se precisassem, podiam mudar de endereço, levando as suas casas “nas costas” tal qual as diligentes tartarugas.

A maior parte das edificações centenárias de Manaus encontra-se em deplorável abandono. Há um provérbio russo que diz que roupa a gente só conserta enquanto é nova. Se deixar ficar velha, o conserto dará muito trabalho ou será mesmo inviável. Essas depreciadas e empobrecidas testemunhas de um passado glorioso conferem à cidade um forte ar de decadência. Todavia, a decadência de Manaus – assim como o luxo e a modernidade dos tempos áureos – sempre se restringe às camadas privilegiadas da cidade. O grosso da população, marginalizado, nunca teve acesso aos confortos da Belle Époque e continuou exatamente onde estava, pobre e segregado.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, foi projetado e construído o modernista, arrojado e luxuoso Hotel Amazonas, em frente ao Porto de Manaus, com estonteante vista para o Rio Negro, em grande angular. O hotel foi inaugurado em 1951, com gravuras e jardins assinados pelo paisagista Burle Marx. Um ícone da arquitetura e da história de Manaus, representando o progresso urbano da época, recebeu ilustres hóspedes, Robert Kennedy, Getúlio Vargas e o aclamado Rei Roberto Carlos, entre outros. Leiloado após doze anos, o edifício foi ampliado nos anos 1970, em ritmo de Zona Franca. Levado novamente a leilão em 1996, deteriorado, foi transformado no atual comercial e residencial Condomínio Ajuricaba, onde, em uma de suas varandas, foram escritos, além deste, os artigos Ma-ná-os e O mundo sagrado da Amazônia.

Destinos semelhantes tiveram os dois hotéis de luxo que hospedaram, entre outras autoridades e celebridades, o Príncipe Charles, Lady Diana, Rei Carl Gustaf da Suécia, Rei Juan Carlos de Espanha, Jimmy Carter, Bill Clinton, Bill Gates, Elton John, García Márquez, Pelé e os presidentes Geisel, Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer. O Tropical Hotel de Manaus foi inaugurado em 1976 e fechado em 2019, por falta de pagamento da conta de energia elétrica; e o Ariaú Amazon Towers, inaugurado em 1986, foi levado à falência em 2015, depenado pela vizinhança empobrecida e convertido em ruínas. Os projetos urbanos desta Paris parecem estar sempre fadados à opulência, pobreza, segregação e decadência.

Durango Duarte, em 2009, publicou Manaus entre o passado e o presente. Quem assina o prefácio do livro é o irreverente e saudoso manauara Márcio Souza – “… a cidade praticamente ficou na mão de gestores que a odiavam e tudo fizeram para deixar a marca de sua perversidade administrativa. A série de informações e a junção de fotografias do passado, em justaposição às imagens do presente, indicam de forma inquestionável que a maioria dessas administrações não deixou legados, deixou feridas que cicatrizaram de forma horrível. E a cidade moderna, urbanizada, de ruas largas e avenidas monumentais, propostas por Eduardo Ribeiro, acabou melancolicamente numa enorme favela de vielas tortas, com esgoto a céu aberto, igarapés poluídos e o patrimônio arquitetônico abastardado…” Surpreendentemente, Márcio conclui o prefácio com uma mensagem otimista – “… nossa querida cidade tem raízes culturais profundas que nem as mais abrutalhadas opções conseguiram destruir… No fim, é a cidade de Manaus que surge vitoriosa.”

Em 2012, Durango Duarte publicou 343 – Manaus com vistas aéreas de “uma metrópole incrustada na selva, que possui verdadeiras ilhas de riqueza cercadas de miséria”. Ao rés do chão, a beleza impactante dos cachos de pupunha expostos nas calçadas, ricos em suas cores, do verde escuro ao vinho, passando pelo amarelo, laranja e vermelho, nos remete à selva e contrasta com a aridez e o lixo urbano acumulado nas ruas.

Qual futuro está reservado para esta cidade maltratada e desumanizada, que abriga um povo alegre e feliz, sempre solidário, com um sorriso nos lábios, boas palavras e brincalhão?

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos. [https://amzn.to/4pdWVen]

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Cuba, a Espanha do século XXI
21 Feb 2026 Por GABRIEL COHN: A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente
2
Triste Alemanha
20 Feb 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Na Alemanha de hoje, o silêncio virou virtude — e a crítica, crime
3
Bad Bunny
21 Feb 2026 Por NICOLÁS GONÇALVES: Quando a diversidade cabe no palco, mas não ameaça a estrutura, a celebração vira forma de controle
4
Economia política da avaliação acadêmica
19 Feb 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: Sob a aparência de métricas neutras, o sistema premia a conformidade e transforma o conhecimento em capital simbólico, gerando intelectuais performáticos
5
Arte da aula
17 Feb 2026 Por JOÃO ADOLFO HANSEN: Artigo publicado em homenagem ao professor e crítico literário recém-falecido.
6
Escolas cívico-militar
21 Feb 2026 Por LAURO MATTEI: Cinco anos após sua expansão, o modelo cívico militar mostra-se um fracasso pedagógico e um risco social, marcado por autoritarismo, abusos e violação de direitos
7
A herança das luzes
18 Feb 2026 Por GABRIELA MALESUIK ARAGÃO BARROS: Considerações sobre o livro de Antoine Lilti
8
Contra o marxismo objetivista
20 Feb 2026 Por VALERIO ARCARY: Entre a necessidade histórica e a vontade política, o marxismo só se realiza quando recusa tanto o fatalismo econômico quanto o voluntarismo cego
9
Manifesto contra o PLP 152/2025
21 Feb 2026 Por VÁRIOS AUTORES: Sob o discurso da modernização, o PLP 152/2025 institucionaliza a precarização, nega o vínculo empregatício e legitima a subordinação algorítmica como novo padrão de exploração do trabalho
10
O beijo da morte
19 Feb 2026 Por JEAN MARC VON DER WEID: Entre corporativismo, silêncio e vazamentos, o caso Master expõe a crise moral do STF e seus efeitos corrosivos sobre a política brasileira
11
O STF e o caso Banco Master
20 Feb 2026 Por WAGNER MIQUÉIAS DAMASCENO: O escândalo Banco Master expõe o STF como casta que negocia sentenças enquanto prega ética, revelando a promiscuidade entre judiciário, política e mercado
12
Da pejotização à plataformização do trabalho
21 Feb 2026 Por VALMOR SCHIOCHET: O PLP 152/2025, ao criar a figura do "trabalhador plataformizado" sem subordinação, repete o erro histórico da pejotização: sob o manto da formalização, aprofunda a precarização e consolida a captura algorítmica do trabalho
13
O Supremo e seu valor de face
22 Feb 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Assim como uma moeda que perde o valor de face, o STF vê sua autoridade simbólica se dissociar da confiança pública que o sustentava
14
A lógica da frente ampla
22 Feb 2026 Por FERNANDO HORTA: O governo Lula 3 não fracassa apesar da Frente Ampla, mas precisamente por causa da racionalidade que a tornou possível
15
Mestre Ciça e Rosa Magalhães
22 Feb 2026 Por LICIO CAETANO DO REGO MONTEIRO: Do Estácio à Sapucaí, o encontro entre Ciça e Rosa mostra que a escola de samba educa o corpo, a imaginação e a memória coletiva
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES