Um novo casamento político

Imagem: Lio Voo
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Por DAVID SACKS*

No debate sobre a Ucrânia a direita neoconservadora e progressismo “woke” estão de mãos dadas

Elon Musk outra vez entrou em apuros no Twitter. No início do mês, Musk propôs um acordo de paz para acabar com a guerra na Ucrânia, pelo qual foi denunciado como um fantoche pró-Putin pela multidão que se formou no Twitter para patrulhar o discurso sobre qualquer coisa relacionada à Ucrânia.

O próprio presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusou Elon Musk de apoiar a Rússia, mesmo que a empresa de Musk, a SpaceX, tenha posto o sistema de satélites Starlink à disposição do esforço de guerra ucraniano, a um custo de 80 milhões de dólares, que os ucranianos não precisam pagar. (Antes que me acusem de conflito de interesse, explicito: Elon Musk é meu amigo e eu sou investidor da SpaceX). O embaixador ucraniano na Alemanha, Andrj Melnyk, foi menos sutil, dizendo a Elon Musk para “ir se ferrar”, enquanto David Frum twittou sem evidências de que “fontes russas” usaram Elon Musk para fazer inflar um “balão de ensaio” de uma proposta de paz, porque têm medo de perder a Criméia. Uma enormidade de contas certificadas (não bot) no Twitter seguiram seu exemplo, mandando que Elon Musk ficasse no seu quadrado.

O que importa nesta história não é que Elon Musk tenha levado um puxão de orelhas, mas sim que um certo pensamento coletivo no Twitter está usando as mesmas táticas de cancelamento intolerantes que são usadas para encerrar os debates sobre questões políticas domésticas norte-americanas, agora com a finalidade de moldar a política do país com relação à Ucrânia. Isso é feito demonizando a dissidência, difamando oponentes e vaticinando como ideologicamente inaceitável qualquer alternativa de paz ou mesmo de desescalada.

A multidão online decidiu que qualquer apoio a um acordo negociado – até mesmo propostas que o próprio Volodymyr Zelensky parecia apoiar no início da guerra – equivale a ficar do lado da Rússia, denunciando vozes de compromisso e contenção como apologistas de Vladimir Putin. Isso as remove do discurso aceitável e estreita a janela de Overton apenas para aqueles que defendem a derrota total da Rússia e o fim do regime de Putin – mesmo que isso signifique o risco da Terceira Guerra Mundial.

Já vimos isso antes: “multidões despertas” (woke mobs)[1] no Twitter rotineiramente demonizam e difamam seus oponentes políticos, impugnam os motivos de qualquer um que questione seus objetivos ou táticas e reprimem a dissidência mesmo em suas próprias fileiras, declarando encerrado o debate sobre certos tópicos.

O que torna a versão “eu estou com a Ucrânia” da multidão do Twitter única é que ela reúne duas forças que costumavam ser inimigas juradas uma da outra: o progressismo woke e a direita neoconservadora. Acontece que eles compartilham muitos dos mesmos traços ideológicos e de personalidade repugnantes, e têm uma abordagem semelhante, no que respeita a engajamento político, de “cortar e queimar”. É um novo casamento político.

Há pouco mais de uma década, o ex-presidente Barack Obama derrotou Hillary Clinton nas primárias democratas para se tornar presidente, eleito, em larga medida, por sua oposição à Guerra do Iraque. Na época, os liberais progressistas desprezavam os falcões neoconservadores por promoverem as desastrosas guerras eternas do governo Bush-Cheney no Oriente Médio. Além disso, esses progressistas apoiaram Barack Obama em sua política em relação à Ucrânia quando ele se recusou a escalar com a Rússia na questão da Criméia, indicando que os Estados Unidos não têm interesses vitais de segurança na Ucrânia, ainda que a Rússia o tenha. Como resultado, a Rússia inevitavelmente poderia de manter um “domínio crescente” na região, como dizia Barack Obama. “Esse caso é um exemplo de onde temos que ser muito claros sobre quais são nossos principais interesses e pelo que estamos dispostos a ir à guerra”.

No entanto, desde que os neoconservadores abandonaram em massa o Partido Republicano, por causa de Donald Trump, e repudiaram todas as suas visões conservadoras de política doméstica para se tornarem comentaristas da rede de televisão MSNBC, os progressistas descobriram um novo amor pela política externa intervencionista, desde que sirva à “democracia” e se oponha à “autocracia” – um termo cada vez mais maleável que tanto os “despertos” quanto os neocons agora usam para definir não apenas Vladimir Putin, mas também líderes eleitos democraticamente, mas que não lhe agradem, como Viktor Orban, na Hungria, Giorgia Meloni, na Itália e Donald Trump, nos Estados Unidos.

Apesar de votar em Barack Obama porque ele prometeu romper com a política externa neoconservadora, os progressistas agora se juntaram aos neoconservadores para se opor à política externa comedida de Obama na Ucrânia.

Essa mudança é desconcertante, mas em um nível puramente tático faz certo sentido. Os neocons inventaram o jogo do cancelamento antes mesmo de existir um fórum no Twitter para jogá-lo. Os neocons arrogantemente sempre descartaram o ponto de vista do outro lado sob a acusação de argumento de má fé, que não vale a pena ser considerado, e rotulam qualquer um que ouse questionar sua causa como herege ou traidor.

David Frum consagrou o padrão neoconservador para essa tática quando classificou o pequeno número de especialistas da direita que se opuseram à Guerra do Iraque como “conservadores antipatrióticos” logo no início desse desastre estratégico. Seguimos rapidamente para hoje e nos deparamos com a situação de que qualquer um que sugira que a expansão da OTAN poderia ter sido um fator contribuinte para a atual crise na Ucrânia, ou que as sanções impostas à Rússia não estão funcionando e dispararam um tiro pela culatra em uma Europa prestes a estremecer, ou mesmo que os Estados Unidos devam priorizar a precaução de uma guerra mundial contra uma Rússia com armas nucleares… quem o fizer será denunciado como fantoche de Vladimir Putin.

Deformar o debate dessa maneira permite que o pensamento delirante e contraditório não seja contestado. Assim, temos o argumento de que Vladimir Putin é um louco que matará indiscriminadamente para alcançar seus objetivos. Mas, por outro lado, ele também estaria, de algum modo, definitivamente blefando sobre o uso de armas nucleares. E ele só está usando esse blefe porque está perdendo a guerra. Ainda assim, se não for detido na Ucrânia, ele conquistará o resto da Europa. O regime de Vladimir Putin deve cair porque ele matou ou prendeu todos os reformadores liberais e se uniu a uma extrema direita radical, mas, não se sabe como, ele será substituído por um reformador liberal quando seu regime entrar em colapso.

Não faz sentido. Um debate real exporia os ilusionismos desse tipo de pensamento. Mas não podemos ter um.

Enquanto essa aliança entre progressistas despertos e neoconservadores estiver autorizada a definir os termos do debate, continuaremos diante de uma catraca de mão única em direção a uma escalada maior e mais perigosa desse conflito.

Não haverá solução pacífica para esse conflito se os Estados Unidos não tenham ao menos uma mão na negociação, e deveríamos estar liderando o esforço. Em vez disso, estamos adiando os ucranianos e suas demandas maximalistas, aumentando as sanções à Rússia, enquanto Vladimir Putin engrossa seu discurso contra o Ocidente. “Alguém” explodiu o oleoduto Nord Stream para o caso de outra nação importante, como a Alemanha, pensar em entrar na mesa de negociações. E agora estamos jogando um “jogo da galinha” nuclear com um líder russo que, se seu discurso de “Guerra contra o Ocidente” de 30 de setembro passado servir como indicação, já fixou definitivamente o rumo, para não sair mais dele.

Uma guerra regional se transformou na Primeira Guerra Mundial porque todas as partes fizeram exigências maximalistas e presumiram que os outros estavam blefando. Isso pode acontecer novamente, especialmente se a mídia, a mídia social e a elite da política externa unirem forças e usarem táticas de cancelamento woke para impedir o debate de qualquer alternativa. Neste momento, estamos presos em um caminho de escalada, e o destino à frente é a Woke War III.

*David Sacks é doutor em direito pela Universidade de Chicago, ex-executivo da PayPal. Coautor, com Peter Thiel, de The Diversity Myth: Multiculturalism and Political Intolerance on Campus (The Independent Institute).

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente na revista Newsweek.

Nota do tradutor


[1] a ideia de “despertar”, aplicada à política nos Estados Unidos, muitas vezes com a entonação de uma perspectiva milenarista – como no slogan “Grande Despertar” –, retroage aos anos 60 do século XX, ao movimento pelos direitos civis e a uma inspiração discursiva de fundo religioso evangélico (sobretudo das igrejas batistas das comunidades negras), que lhe imprimiram uma carga semântica de “iluminação”, “consciência” e “indignação”. Com o tempo, no entanto, adquiriu também uma conotação de sectarismo, excepcionalismo e divisionismo, e em tempos mais recentes acabou adotada pelo movimento Black Lives Matter, quando se tornou, definitivamente, o selo mais radical dos discursos identitaristas, conformando o que alguns já chegam a chamar de “despertarismo”. O novo movimento dos “despertos”, no entanto, se convenciona mais usualmente chamar de “movimento woke”. Ele tende a sublinhar os aspectos religiosos-ritualísticos de uma “conversão”, aliada a um ideal de “expiação” (histórica), sempre traduzidos em termos de comportamento individual muito fortemente prescritivo e de uma notável intolerância para com qualquer tipo de “dissidência”. A “cultura do cancelamento”, tornou-se, assim, sua correlata direta em termos de atitude social.

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