Por DANI RUDÁ*
Sustentar o vínculo sem promessas impossíveis é recusar-se a converter a miséria em brutalidade cotidiana. Uma ética de resistência que não muda o mundo, mas impede que se torne inteiramente inabitável
A guerra social – precarização, violência horizontal e o sujeito político
Quando o cuidado é exercido em um sistema que se sustenta pela precarização, o vínculo deixa de ser apenas um problema ético e passa a ser também um problema político. É nesse ponto que a discussão sobre serviço, instituição e vínculo precisa ser reinscrita na economia política do cuidado: como a escassez, a sobrecarga e a instabilidade não são falhas, mas modos de governo.
O neoliberalismo não precisa apenas de trabalhadores mal pagos; precisa de trabalhadores irreflexivos. Precisa reduzir o tempo de pensar, de elaborar, de discutir, de supervisionar e de estudar. A retirada sistemática de espaços de reunião, formação continuada e supervisão não é falha de gestão: é estratégia de governo. O agente que pensa é perigoso porque nomeia a violência; o agente que apenas executa reproduz. Cortar o tempo de pensamento é cortar o fluxo de oxigênio crítico do serviço.
Nesse contexto, a racionalidade gerencialista não deve ser subestimada. Protocolos incoerentes, metas impossíveis, fluxos mal desenhados e decisões que se anulam mutuamente produzem mais do que ineficiência: produzem desorientação subjetiva. O agente de cuidado passa a gastar sua energia tentando sobreviver ao caos organizacional, restando pouco espaço psíquico para sustentar o vínculo, manejar a transferência ou reconhecer seus próprios limites. A precarização, assim, não apenas dificulta o cuidado; ela reconfigura o trabalhador, empurrando-o para posições defensivas.
É nesse terreno que a violência estrutural encontra sua forma mais eficaz de circulação: a violência horizontal. O sistema funciona perfeitamente quando o usuário agride o agente pela falta de recursos e o agente agride o usuário pela “falta de colaboração”, “falta de educação” ou “falta de adesão”.
Nesse momento, o agente, sem perceber, torna-se o porta-voz do estigma social: ele passa a exigir do usuário uma “moralidade do esforço” e uma “postura produtiva” que a própria estrutura nega, olhando para a vítima com as lentes do opressor. A raiva circula lateralmente, enquanto a estrutura que produz a falta permanece invisível e ilesa. O Estado neoliberal se preserva quando consegue terceirizar sua violência para o encontro entre aqueles que sofrem seus efeitos.
Essa lógica se materializa, inclusive, na própria estrutura de carreira – ou na ausência dela. Há uma regra implícita no serviço público: a ascensão profissional coincide com a saída da ponta. Quando o agente de cuidado busca qualificação, estuda, elabora sua prática ou adquire novas graduações, o sistema não absorve esse saber para qualificar o atendimento; ele empurra o trabalhador para a gestão, para a técnica de gabinete ou para fora do serviço.
Na ponta, o saber crítico não é remunerado nem reconhecido; a permanência é lida como estagnação. A mensagem institucional é clara: o estudo serve para sair do cuidado, nunca para aprofundá-lo. O que resta para a linha de frente são formações estritamente técnicas e instrumentais, desenhadas para otimizar a execução, jamais para sustentar o pensamento.
A precarização intensifica esse circuito ao produzir isolamento. Equipes fragmentadas, contratos instáveis, alta rotatividade e ausência de espaços coletivos impedem a elaboração compartilhada do sofrimento. O agente de cuidado passa a viver sua exaustão como falha individual, e não como efeito estrutural. Sem coletivo, o desgaste se psicologiza; a violência se personaliza; o conflito se moraliza. O que deveria ser reconhecido como violência política se transforma em problema de atitude, perfil ou vocação.
Essa fragmentação ganha contornos ainda mais perversos quando observamos a hierarquia vertical colonizada que estrutura os serviços. As discrepâncias abissais de salário, carga horária e reconhecimento social entre a ponta (frequentemente de nível médio), a equipe técnica (de nível superior) e a gestão produzem um fosso intransponível. Instala-se uma ‘guerra de estamentos’: a técnica desdenha da prática e a ponta desconfia da técnica.
Quando o agente de base atua sem vínculo com a equipe técnica, e está sem vínculo com a coordenação, a potência da intervenção se dissipa em disputas internas. O trabalho se torna encastelado, e o usuário recebe apenas uma fração do cuidado que o serviço teria potencial para entregar se houvesse circulação de saberes e não apenas exercício de micro-poderes.
Nesse cenário, o vínculo – tal como definido – torna-se especialmente ameaçador para o sistema. Um vínculo que sustenta a presença sem tutela, que recusa promessas impossíveis e que mantém o sofrimento como complexidade humana, e não como dado estatístico, interrompe o fluxo automático da violência. Ele impede que o agente devolva ao usuário aquilo que recebeu da estrutura. Ele desacelera o processo de conversão do sofrimento em número, meta ou indicador.
É por isso que a precarização atua diretamente contra o vínculo. Ao sobrecarregar o agente, reduzir o tempo disponível e exigir respostas rápidas, ela força a transformação do cuidado em procedimento. O sofrimento precisa ser rapidamente categorizado, encaminhado, encerrado. Não há tempo para sustentar o intervalo, a ambivalência ou o silêncio. O conflito humano precisa virar dado. Pensar na ponta, nesse contexto, não é luxo; é ato de resistência.
A lógica produtivista entra em choque frontal com o cuidado entendido como acontecimento. Um cuidado que acontece no presente, que não garante continuidade e que não se traduz imediatamente em resultado mensurável é visto como improdutivo. Por isso, o sistema pressiona o agente a produzir provas de eficácia: relatórios, números, fluxos, metas cumpridas. O que não aparece no papel é tratado como inexistente. O cuidado real – relacional, situado, efêmero – torna-se invisível.
Essa invisibilização tem efeitos psíquicos profundos. O agente de cuidado passa a experimentar uma cisão entre o que faz e o que conta. Aquilo que sustenta seu desejo – o ato de cuidado no presente – não é reconhecido institucionalmente. Em contrapartida, aquilo que é exigido institucionalmente não corresponde ao trabalho vivo que realiza. Essa dissonância contínua é uma das principais fontes de adoecimento na ponta: o trabalhador é forçado a trair, todos os dias, a ética do cuidado para sobreviver administrativamente.
A precarização também reativa as armadilhas psíquicas já conhecidas. Sem tempo e sem suporte, o agente é empurrado de volta ao salvador, na tentativa desesperada de dar sentido ao caos, ou ao cínico, como única blindagem possível contra a dor. A ética do acontecimento, que exige presença e elaboração, torna-se quase impossível de sustentar individualmente. O sistema, assim, não precisa atacar diretamente o cuidado ético; basta tornar inviáveis as condições de sua existência.
Por isso, pensar a precarização apenas como problema de gestão é insuficiente. Ela precisa ser reconhecida como violência estrutural organizada, que atua simultaneamente sobre o usuário e sobre o agente de cuidado. Ao desmontar o tempo de pensar, o sistema impede que ambos reconheçam a origem comum de seu sofrimento. A luta na ponta, então, deixa de ser apenas por melhores condições de trabalho e passa a ser uma luta pelo direito à significação: o direito de nomear a violência, de sustentar a complexidade do cuidado e de recusar a redução do cuidado à mercadoria.
Esse reconhecimento prepara o terreno para o último deslocamento do texto. Se a precarização é tecnologia política e se o vínculo pode funcionar como interrupção do circuito da violência, então o agente de cuidado não pode mais ser pensado apenas como executor técnico ou sujeito vocacionado. Ele emerge, inevitavelmente, como sujeito político situado, cuja ação cotidiana carrega efeitos que ultrapassam o atendimento individual. É esse deslocamento – do trabalhador precarizado ao sujeito político do cuidado.
O agente de cuidado como sujeito político
Falar do agente de cuidado como sujeito político não é acrescentar uma camada ideológica ao trabalho do cuidado, nem deslocá-lo artificialmente para o campo do ativismo. É reconhecer uma condição estrutural já posta. O agente de cuidado atua no ponto exato em que o Estado neoliberal – enquanto operador do capital – encontra os efeitos concretos da desigualdade que produz. Ele ocupa a linha de frente da administração da miséria.
Não porque escolheu esse lugar estrategicamente, movido por vocação ou heroísmo, mas porque é ali que o sistema posiciona aqueles encarregados de amortecer seus efeitos mais violentos. O agente é colocado na fenda exata onde a política pública falha, servindo de anteparo para que a violência da escassez não suba para os gabinetes, mas se dissipe no atendimento. O cuidado, nesse contexto, não é neutro: ele é campo de disputa.
Há, ainda, uma funcionalidade cínica na baixa remuneração e na seleção de classe desse trabalhador. O agente da ponta é, frequentemente, alguém que compartilha a gramática da sobrevivência com o usuário. Essa proximidade de renda, linguagem e território não é acidental; ela é estratégica. O sistema precisa de alguém que não transmita o distanciamento gélido da burocracia, mas que gere identificação imediata.
Essa “empatia estrutural” – nascida do fato de que o trabalhador habita a mesma precariedade que o usuário – torna o acesso mais permeável. O Estado economiza no salário e lucra na familiaridade, utilizando a própria vivência de escassez do trabalhador como ferramenta de conexão com o público atendido.
A política do cuidado não se dá no nível do discurso abstrato, mas na micropolítica cotidiana do vínculo. Nesse terreno, o afeto não é um ‘sentimento privado’ do agente, mas uma bússola política. Não se trata de não sentir – o que seria impossível e desumano –, mas de interrogar o que se sente: se sinto raiva, onde a estrutura falhou? Se sinto desejo de salvar, onde a tutela está me tentando? Se sinto exaustão, onde o coletivo desapareceu?
Esse afeto é político, fundamentalmente, porque é endereçado à falta. O agente entrega, na contradição de representar o Estado, aquilo que foi retirado da estrutura de vida do outro, ocupando provisoriamente o vazio de rede e suporte que a família ou a comunidade não puderam sustentar. É exatamente por isso que a relação agente-usuário possui uma marca que a difere radicalmente da amizade: ela é circunscrita ao serviço. Quando o usuário se desvincula, a relação se encerra. Esse fim não é frieza; é a prova de que o afeto ali sustentado não era pessoal, mas uma função pública de restituição.
O Estado neoliberal funciona melhor quando o agente de cuidado não se reconhece como sujeito político. Quando ele se percebe apenas como executor técnico, torna-se facilmente governável por protocolos, metas e indicadores. Quando se percebe como herói moral, torna-se facilmente explorável pela ética do sacrifício. Em ambos os casos, sua ação é capturada. O sujeito político do cuidado emerge justamente na recusa dessas duas identificações. Ele não se apresenta como salvador, nem se esconde na neutralidade. Ele sustenta uma posição mais dura: a de testemunha da falta.
Ser testemunha da falta significa recusar ocupar o lugar de falso Estado. Significa não prometer aquilo que não existe, não encarnar soluções que não foram produzidas politicamente e não transformar a própria presença em compensação simbólica da violência estrutural.
O agente que assume essa posição aceita frustrar o usuário – não por negligência, mas por honestidade ética. Ele sabe que o usuário quer objeto, quer recurso, quer solução imediata, e sabe que essa demanda é legítima. Mas ele também sabe que mentir sobre o que pode oferecer é reproduzir a violência em outra chave. Testemunhar a falta é sustentar o vínculo sem ilusão.
Essa posição produz efeitos políticos profundos. Ao não se colocar como solução, o agente devolve a pergunta ao lugar correto: à estrutura que produz a falta. Ao não devolver a violência ao usuário, ele interrompe o circuito de transferência de culpa que sustenta o sistema. Ao não se retirar cinicamente, ele preserva a humanidade do encontro. Esse triplo gesto – recusar a onipotência, recusar o cinismo e sustentar a presença – define o agente de cuidado como fusível político. Ele não elimina a sobrecarga do sistema, mas impede que ela exploda diretamente sobre o usuário.
O fusível, no entanto, paga um preço. Ser alvo da raiva sem devolvê-la, sustentar o ódio sem odiar de volta, permanecer onde não há promessa de reconhecimento exige uma maturidade psíquica e política enorme. É por isso que este texto insiste: essa posição não pode ser individualizada. Transformar essa ética em virtude pessoal é produzir uma nova forma de violência. O agente de cuidado não é sujeito político isoladamente; ele só o é enquanto parte de um coletivo que pensa, elabora e se protege.
Sem coletivo, a ética do vínculo se torna ideal cruel. O agente é convocado a suportar o insuportável em nome de princípios abstratos, enquanto as condições concretas de trabalho permanecem intactas. A precarização se apropria dessa exigência e a converte em exploração. Por isso, a redução de danos proposta por este texto não se dirige apenas ao usuário; ela se dirige também ao agente de cuidado. Reduzir danos para o agente significa garantir tempo de supervisão, espaços de elaboração coletiva, formação contínua e linguagem compartilhada. Significa reconhecer que ninguém sustenta a posição de testemunha da falta sozinho.
Por fim, é preciso radicalizar essa lógica: a vinculação que se exige do agente na ponta é a mesma que ele precisa receber do serviço. O cuidado no serviço público deve operar como uma cadeia de sustentação, onde um elo suporta o outro, impedindo que a fragmentação destrua o trabalho. As disputas artificiais entre educador e técnico, ou entre técnico e coordenação, compõem a tática do poder para dividir horizontalmente a força de trabalho e enfraquecer a resistência. Se o cuidado não subir pela estrutura, a violência descerá.
Portanto, o corpo técnico e a coordenação precisam assumir o mesmo compromisso ético de não-abandono com a ponta que a ponta assume com o usuário. Só consegue sustentar o outro quem se sente sustentado.
Essa posição política ganha densidade material irrefutável quando se desmonta a última ficção que sustenta a hierarquia do cuidado: a separação rígida entre quem cuida e quem é cuidado. Todo agente de cuidado precarizado é, em última instância, também um usuário. O educador social que acolhe a vulnerabilidade na assistência é o mesmo que aguarda na fila do SUS; o técnico que gerencia conflitos no território é o mesmo que depende de um transporte público saturado; o trabalhador que escuta o sofrimento psíquico alheio é o mesmo que tem seu acesso à saúde mental negado ou restringido.
A fronteira entre agente e usuário é porosa, circunstancial e definida apenas pelo crachá ou pelo turno de trabalho. Reconhecer essa reversibilidade é decisivo: quando o agente compreende que a violência institucional que ele reproduz hoje é a mesma que ele sofrerá amanhã em outro guichê do Estado, a fantasia de superioridade moral desmorona. Resta a consciência de que a luta pela dignidade do serviço não é caridade para com o “outro”, mas autodefesa de uma classe que compartilha a mesma precariedade.
É nesse ponto que o agente de cuidado emerge plenamente como sujeito político de classe. Não porque lidera uma revolução, mas porque recusa massacrar o companheiro de trincheira. O texto não propõe vencer a guerra social a partir da ponta; isso seria outra fantasia onipotente. Ele propõe algo mais modesto e, justamente por isso, mais radical: não se tornar instrumento da violência contra aqueles que sofrem os mesmos efeitos estruturais. Essa é uma ética de sobrevivência em contexto de guerra assimétrica, onde o capital administra a miséria e terceiriza sua contenção.
A instituição tenta neutralizar essa posição de diversas formas: retirando tempo de pensar, fragmentando equipes, individualizando o sofrimento, moralizando o cuidado e transformando o serviço em fluxo produtivo. O agente de cuidado, ao insistir no vínculo como campo de tensão e não como dado, resiste a essa neutralização. Ele não produz o tipo de resultado que o sistema valoriza, mas produz algo que o sistema teme: significação compartilhada. Pensar juntos, nomear juntos, reconhecer juntos a violência estrutural é o primeiro passo para que a raiva deixe de circular horizontalmente e encontre seu endereço político.
Este texto, portanto, não é uma fuga para o divã, nem uma psicologização do conflito social. Ele é uma tentativa de preservar a humanidade do encontro em um cenário que trabalha ativamente para destruí-la. Ele afirma que o vínculo, quando sustentado com honestidade e sem tutela, não resolve a miséria, mas impede que ela se transforme em brutalidade cotidiana entre aqueles que a sofrem. Ele afirma que o cuidado, longe de ser gesto privado ou virtude moral, é trabalho político situado, atravessado por classe, poder e história.
Ao final, o agente de cuidado aparece não como herói, nem como vítima passiva, mas como sujeito que ocupa uma posição incômoda, frágil e necessária. Ele sustenta a presença onde o sistema produz ausência, sustenta o limite onde o sistema exige promessa e sustenta o vínculo onde o sistema exige dado. Não há garantia de sucesso nessa posição. Há, no entanto, uma aposta ética: a de que não reproduzir a violência já é uma forma de resistência – mínima, insuficiente, mas real.
Diante desse percurso, a política do vínculo não é programa, nem método, nem solução. É uma prática de cuidado que aceita a falta, recusa a mentira e protege o encontro do esmagamento neoliberal. Em tempos de administração da miséria, sustentar o vínculo é sustentar a possibilidade de ainda haver alguém diante de alguém – e isso, embora não mude o mundo, impede que ele se torne inteiramente inabitável.
*Dani Rudá é educador social lúdico no SUAS.
Para ler a primeira parte dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/a-politica-do-vinculo/
Para ler a segunda parte dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/a-politica-do-vinculo-parte-2/





















