Bergman, um pouco de tudo

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro “Lanterna Mágica”, autobiografia de Ingmar Bergman.

Lanterna Mágica – uma autobiografia, concentra-se na infância e juventude de Ingmar Bergman (1918-2007), nas difíceis relações com seu pai e irmãos, nos seus sete casamentos, nos seis anos de exílio voluntário apos surgirem acusações de que ele sonegava impostos e em sua longa dedicação ao cinema e ao teatro, evocando seus mestres e influências – Ibsen, Tchékhov, Strindberg, Sjöberg e Molander –, a filmagem de Morangos Silvestres (1957) e o trabalho com o fotógrafo Sven Nykvist e o relacionamento com Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Liv Ullman, Max Von Sidow, Harriet Andersson, Ingrid Bergman, Laurence Olivier e Lena Olin, apenas para citar os mais conhecidos.

Sem observar qualquer ordem cronológica, Bergman fala da tentativa fracassada, quando tinha apenas 4 anos, de matar sua irmã mais nova no berço; relata vários episódios de uma infância infeliz, sob as ordens de seu pai, um pastor protestante que aplicava severos castigos corporais nele e em Dag, seu irmão – o ódio ao pai só seria amenizado na maturidade; confessa que a frieza e a indiferença que lhe demonstrava a mãe o deixavam desesperado e, numa bela passagem, relata que, quando pequenos, seu irmão ganhou de uma tia rica, por ocasião do Natal, um pequeno cinematógrafo. Ingmar, morto de inveja, abriu o maior berreiro, mas não adiantou, seu irmão levou a melhor. Entretanto, no meio da noite, o futuro cineasta acabou ficando com o cinematógrafo, em troca de soldadinhos de chumbo.

Nessa autobiografia confessa que fracassou como marido e como pai, tornando sua vida e a de suas mulheres um verdadeiro inferno. Alem disso, não esconde o desprezo pela maioria de seus filhos (que são oito), sendo a recíproca verdadeira. O próprio Bergman afirmou, certa vez, que “todo casamento, cedo ou tarde, naufraga”. Nesse sentido, seu casamento com Ingrid Von Rosen, que trabalhava como secretária e administradora do cineasta em todos os projetos e realizações, ocorrido nos anos 1970, durou cerca de duas décadas e meia.

Lanterna Mágica dedica várias páginas à luta de Bergman contra a acusação, por parte do governo sueco, de ser sonegador de impostos, que posteriormente se revelou infundada. Ele foi detido por dois policiais e levado para interrogatório, sendo obrigado a interromper os ensaios da peça Dança Macabra, de Strindberg, que se realizava em Estocolmo (janeiro-1976). Humilhado e injustamente acusado, Bergman sofreu um colapso nervoso, ficando várias semanas internado numa clínica. Inconformado, publicou em 22 de abril de 1976, na imprensa sueca e mundial, uma carta dirigida às autoridades fiscais do país e deixou a Suécia, passando um longo período no exílio, principalmente na Alemanha Ocidental. Retornou apenas em 1983, aceitando as desculpas formais do governo.

De forma bem-humorada escreveu que “todo homem de teatro é supersticioso (…) Nos últimos anos tenho tido a sensação de que August Strindberg está contra mim. Eu estava ensaiando ‘A Dança da Morte’ e a polícia veio me prender. Estávamos montando ‘A Senhorita Júlia’ e a protagonista enlouqueceu. Planejei encenar a mesma peça em Estocolmo e a senhorita Júlia engravidou… Tanta adversidade em cadeia e não pode ser apenas obra do acaso…”. E levando o humor a um alto patamar esclarece que só após ter marcado um encontro imaginário com o famoso escritor e dramaturgo sueco, tantas vezes por ele revivido no palco, é que as coisas ficaram mais claras.

Bergman detalha, ainda, sua trajetória profissional no teatro e no cinema, tendo estreado como diretor no Teatro Municipal de Helsingborg (1944). Nessa época estava lá, há já alguns anos, empregado como revisor de roteiros da Svensk Filmindustri, realizando o primeiro filme (Crise), em 1945. Posteriormente, dirigiu os Teatros Municipais de Gotebörg e Malmö e o Teatro Nacional de Estocolmo. Igualmente interessante é acompanhar a decisão de Bergman de desistir de fazer cinema e dedicar-se exclusivamente ao teatro. A decisão ocorreu à medida que prosseguia a rodagem de Fanny e Alexander, devendo-se, em essência, à idade: com 70 anos, “o esforço físico exigido a quem faz cinema se tornou, para mim, cada vez mais incompatível com as minhas forças”, ou seja, não dispondo de condições físicas para executar um trabalho com a perfeição que sempre se impôs, prefere retirar-se com discrição. “Pegarei meu chapéu e sairei enquanto ainda posso estender o braço para o cabide onde o deixei, saindo por meus próprios pés. O poder criativo da velhice não é de modo algum uma coisa garantida. É algo periódico, condicionado a muitos fatores, mais ou menos como a sexualidade que nos abandona pouco a pouco”.

E arremata, com um toque de mestre, a razão pela qual, àquela altura da vida, o teatro lhe acenava de forma mais calorosa: “Quando estudo detalhadamente meus filmes e encenações mais recentes, encontro, aqui e ali, uma sede de perfeição implicante que lhes tira muita vida. No teatro esse perigo não é tão grande porque ali posso vigiar as minhas fraquezas e, na pior das hipóteses, os atores podem me corrigir. Com um filme tudo é irreversível. Fazem-se cada dia três minutos de filme, e essas curtas sequências têm de ter vida, respirar, ser já uma parte do todo que irão formar”.

E em outubro de 1988 eu escrevia, terminando a resenha, que Bergman, por tudo o que já fizera no e pelo cinema, bem que tinha todo o direito de se dedicar apenas ao teatro, para nosso azar. Assim, Lanterna Mágica constitui importante documento para a compreensão dos filmes do cineasta sueco e, principalmente, no sentido de se perceber, através de sua trajetória, como vida e obra estão organicamente ligadas – em geral com muita angústia, desencontros existenciais e afetivos e numa busca constante de felicidade.

*Afrânio Catani é professor aposentado na USP e professor visitante na UFF. Autor, entre outros livros, de Quatro Ensaios sobre o Cinema Brasileiro (Panorama, 2004).

Referência


Ingmar Bergman. Lanterna Mágica: uma autobiografia. São Paulo, Cosac & Naify, 2013.

O presente artigo reproduz, com alterações, resenha publicada no extinto “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde em 08.10.1988.

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
João Carlos Loebens Rafael R. Ioris Luiz Roberto Alves Everaldo de Oliveira Andrade Benicio Viero Schmidt Leda Maria Paulani Bruno Machado Fernão Pessoa Ramos Bento Prado Jr. Armando Boito José Micaelson Lacerda Morais Paulo Fernandes Silveira Leonardo Sacramento Leonardo Avritzer Dennis Oliveira Marilia Pacheco Fiorillo Paulo Nogueira Batista Jr Flávio R. Kothe Otaviano Helene Celso Frederico Jorge Branco José Machado Moita Neto Daniel Costa João Sette Whitaker Ferreira Alexandre de Lima Castro Tranjan Thomas Piketty Eugênio Trivinho Eugênio Bucci Salem Nasser Bernardo Ricupero Vladimir Safatle Vanderlei Tenório José Geraldo Couto Berenice Bento Heraldo Campos Gilberto Lopes Bruno Fabricio Alcebino da Silva Michael Roberts Tarso Genro Eduardo Borges Osvaldo Coggiola Manuel Domingos Neto Marilena Chauí Flávio Aguiar Ronald Rocha Érico Andrade Plínio de Arruda Sampaio Jr. Julian Rodrigues Rodrigo de Faria Paulo Capel Narvai Andrés del Río Eleonora Albano Marcos Silva Igor Felippe Santos Francisco Fernandes Ladeira Tadeu Valadares Marcelo Guimarães Lima Anselm Jappe Jean Marc Von Der Weid Alexandre Aragão de Albuquerque Marjorie C. Marona André Singer Elias Jabbour Marcus Ianoni Antonino Infranca Valerio Arcary João Lanari Bo João Adolfo Hansen Luis Felipe Miguel Chico Whitaker Airton Paschoa Eliziário Andrade Lincoln Secco Ricardo Antunes Paulo Sérgio Pinheiro Caio Bugiato Afrânio Catani Antônio Sales Rios Neto Luiz Eduardo Soares Valerio Arcary Rubens Pinto Lyra Claudio Katz Francisco Pereira de Farias João Feres Júnior Remy José Fontana João Paulo Ayub Fonseca Carlos Tautz Gilberto Maringoni Marcelo Módolo Ricardo Musse Celso Favaretto Renato Dagnino Juarez Guimarães Tales Ab'Sáber Ronaldo Tadeu de Souza Anderson Alves Esteves Henri Acselrad Carla Teixeira Fernando Nogueira da Costa Daniel Afonso da Silva Lorenzo Vitral José Costa Júnior Matheus Silveira de Souza Francisco de Oliveira Barros Júnior Luiz Marques Jorge Luiz Souto Maior Luiz Renato Martins Dênis de Moraes Ladislau Dowbor Antonio Martins Henry Burnett Mariarosaria Fabris José Luís Fiori Slavoj Žižek Lucas Fiaschetti Estevez Atilio A. Boron Luiz Werneck Vianna Sergio Amadeu da Silveira Liszt Vieira Ricardo Fabbrini Marcos Aurélio da Silva Denilson Cordeiro Vinício Carrilho Martinez Priscila Figueiredo Michel Goulart da Silva Samuel Kilsztajn Maria Rita Kehl Ronald León Núñez Gabriel Cohn Walnice Nogueira Galvão Manchetômetro Luciano Nascimento José Dirceu Michael Löwy Boaventura de Sousa Santos Alysson Leandro Mascaro Ricardo Abramovay José Raimundo Trindade Chico Alencar João Carlos Salles Kátia Gerab Baggio Fábio Konder Comparato Milton Pinheiro Luís Fernando Vitagliano Daniel Brazil André Márcio Neves Soares Jean Pierre Chauvin Mário Maestri Paulo Martins Andrew Korybko Ari Marcelo Solon Alexandre de Freitas Barbosa Sandra Bitencourt Annateresa Fabris Luiz Bernardo Pericás Luiz Carlos Bresser-Pereira Yuri Martins-Fontes Leonardo Boff Gerson Almeida Eleutério F. S. Prado

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada