A razão sequestrada

Imagem: Eddy Silva

Por ANISIO PIRES*

Milhares de pessoas vêm se posicionando a respeito do conflito na Ucrânia como se fossem habitantes de outro planeta

O conflito na Ucrânia é grave. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro alertou no dia 9 de março de 2022 que “há um perigo real de uma guerra nuclear mundial. Já a primeira fase da guerra arrancou com as sanções econômicas”.

No entanto, milhares de pessoas vêm se posicionando a respeito como se fossem habitantes de outro planeta. Opinam sem maiores preocupações com suas consequências. É como se os comportamentos suicidas denunciados pela crítica ecológica tivessem se instalado no pensamento. Inclusive aquela consciência que tinham sobre como os meios de comunicação induziam a comportamentos autodestrutivos, de repente, desapareceu.

O fantasma do perigo russo acabou com o bom senso das pessoas. O fato de adotarem uma posição que coincide com a defendida pela mesma mídia que apoia as piores injustiças e atrocidades no mundo, não é capaz de levá-las a duvidar. Debocharam das absurdas “convicções” de Deltan Dallagnol para acusar o Lula, mas julgam que as suas são verdadeiras porque são democratas, humanistas, socialistas, de esquerda e, inclusive, revolucionárias. Há uma espécie de bloqueio cognitivo que as palavras não conseguem destravar.

A chamada “segmentação das audiências” está garantida. Aqueles que são a favor de uma ou outra posição reforçam entre si suas opiniões como se fossem torcidas de futebol e quem tenta debater se depara com um muro de antipatia e indisposição. No melhor dos casos, há uma repetição dogmática de argumentos. Embora sejam pessoas confiantes na capacidade da ciência para chegar à verdade, parecem participar inconscientemente dos debates procurando reforços para uma certa estabilidade emocional. Por isso, deixamos de polemizar nas redes. Este é um registro para o futuro próximo que alguns poderão valorar quando o frenético e irracional turbilhão se acalmar e se recupere, como esperamos, algo do bom senso.

Nesse contexto, “moderados” e “radicais” passam a coincidir em ideias, as mesmas que tempos atrás os mantinham divididos. Ambos com suas nuances, retomam saudosamente seu passado “comunista” junto com os debates dogmáticos e sectários que provocavam. Interpretam esta situação nova usando aqueles conceitos que na época já não funcionavam. Os moderados dão força a seu discurso, retomando velhos-novos maniqueísmos para terminar repetindo com Volodymyr Zelenski que a “Rússia está no caminho do mal”. Incorporam o espírito de filmes como Operação Red Sparrow de 2018 que, casualmente, voltou a circular nestes dias, revelando claramente como Hollywood vem trabalhando junto a OTAN para combater a Rússia.

Não fosse pelos atores contemporâneos, pareceria um produto do auge da Guerra Fria. Está “bem feito”, para induzir no público o ódio contra os russos do presente, atribuindo-lhes a mesma “fama” da era estalinista. Cenas de tortura terríveis como as desenvolvidas inconfessavelmente pelos EUA em Guantánamo, são apresentadas como práticas corriqueiras da Rússia de hoje. A consequência desse “revival” é um nível vergonhoso de negação da realidade, acompanhado de um evidente retrocesso intelectual, uma degradação da razão.

Pessoas instruídas defendem textos que supostamente possuem “argumentações sólidas” para logo encontrarmos neles mentiras descaradas sobre o terrível golpe de Estado de 2014 na Ucrânia. Humanistas afirmando que o golpe foi “uma revolução democrática que depôs um presidente depois de três meses de ocupação pacífica”, quando é público e notório que 42 pessoas foram queimadas vivas no dia 2 de maio de 2014 em Odessa, após terem sido cercadas na Casa dos Sindicatos por uma turba ensandecida de neonazistas. É revoltante. Como disse Fernando Horta numa fala sobre a perda dos critérios de verdade, trata-se da “lógica zero” ou da mais pura esquizofrenia. Um negacionismo inquietante: onde acaba a alienação e onde começa uma sui generis má fé?

Enquanto moderados mentem se mimetizando com a retórica da direita e sua mídia, radicais inventam teorias novas para provar que eles são diferentes dos EUA e da OTAN. Alguns saudosos do comunismo na versão trotskista, ao invés de refletirem porque não ocorreu aquela “revolução política” que tanto defenderam para substituir a burocracia stalinista, aparecem neste conflito do século XXI inventando um novo “imperialismo russo” que deve ser igualmente combatido porque responde aos interesses da “oligarquia russa”.

Mesmo com sua trajetória crítica e heterodoxa, o Secretariado Unificado da IV Internacional declarou “Não à invasão da Ucrânia por Putin!” e “Apoio à resistência ucraniana!”. Revolucionários apoiando à resistência neonazista? As surpresas já não surpreendem. A OTAN vinha aproximando suas armas da Rússia desde 2001 sem que esta reagisse e, no entanto, analistas mais ousados se atrevem a inventar uma “renovada beligerância russa”. A partir daí surgem sisudas análises “reveladoras” de como Putin e o governo russo se comportam da mesma forma que os EUA e inclusive pior, pois nos informam que um antigo assessor de Gorbachov teria previsto anos atrás que as políticas ocidentais contra Rússia trariam “um governo autoritário em Moscou que faria reviver a velha tradição imperial russa”. Em poucas palavras, Putin não estaria reagindo para preservar a soberania do seu país, ele é o resultado da agressividade imperialista.

Detalhe histórico. Pouco antes de ser assassinado, Trotsky tinha saído em defesa da URSS, apesar de seu governo burocrático e autoritário. No pior momento dos processos de Moscou, sendo perseguido, vendo assistentes e familiares assassinados, não duvidou um segundo em afirmar que caso a URSS fosse atacada pelo imperialismo, os trabalhadores do mundo tinham o dever de defendê-la. O fato de ter sido o Exército Vermelho, que ele criou, o principal responsável pela derrota do nazismo, confirma que ele tinha razão. Cometeu muitos erros, mas naquela situação complexa e difícil da humanidade soube de que lado da história devia ficar. 80 anos depois, os que dizem reivindicar seu legado inventam teses absurdas para justificar sua cumplicidade com a agressão que vem enfrentando a Rússia. Negar que a situação na Ucrânia decorre disso é muita cegueira ideológica. Nessa “lógica”, Putin revela-se pior do que Stalin.

Curiosamente esses críticos esquecem ou banalizam o objetivo explícito anunciado por Putin: proteger a população de Dombás, desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia. Enquanto os movimentos extremistas ganham força no mundo, a Rússia propõe na ONU uma resolução condenando a glorificação do nazismo. Os EUA e a Ucrânia votaram contra. Que tal?

A Ucrânia vem se negando a cumprir os acordos de Minks por ordens dos EUA enquanto a Rússia vem denunciando há anos, sem ser escutada, a escalada de agressões em Dombás (14 mil mortos, 30 mil feridos). Em certo modo se parece com as reiteradas denúncias das mulheres pelos feminicídios no mundo. Aquela revolta e impotência adicional quando se sabe que a mulher assassinada vinha denunciando o perigo que corria, mas era ignorada por esse poder masculino que só acredita nas denúncias quando já é tarde.

Vladimir Putin deu um basta na espera antes que a escalada de Kiev assassinasse mais pessoas e que suas fronteiras se vissem ameaçadas por uma Ucrânia com armas nucleares. Putin não teve outra alternativa. Os que não queiram entender, são pacifistas teóricos do teclado. Gostaríamos de vê-los repetir sua “condenação indignada” à operação militar especial russa, estando frente a frente com os familiares das vítimas desses oito anos de guerra continuada.

Existe um pensador reivindicado por moderados e radicais, Walter Benjamin. Moderado do ponto de vista militante, mas muito subversivo no plano das ideias, lançou uma ideia com a qual todos se identificam, talvez a mais potente de todas porque nasceu sendo do futuro. Nos anos 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, Benjamin tinha percebido a capacidade de autodestruição alcançada pela humanidade, hoje infinitamente aumentada pela via de uma guerra nuclear. Por isso, Benjamin pensava na revolução como uma necessidade para evitar que a humanidade caminhasse rumo ao precipício: “Marx disse que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Talvez as coisas se apresentem de outra maneira. Pode ser que as revoluções sejam o ato pelo qual a humanidade que viaja nesse trem puxa o freio de emergência”.  Caso a Rússia fosse derrotada (o que não ocorrerá), quem neste mundo realmente existente está em condições de aplicar os freios de emergência aos EUA e OTAN?

Enquanto “marxistas”, “democratas” e críticos de todas as tendências evitam essa pergunta real, debatendo esterilmente se Putin é ou não de esquerda ou se a Rússia é isto ou aquilo, a realidade teimosa e rebelde insiste em mostrar a verdade. As tropas de Kiev estão usando as famílias ucranianas como escudos humanos. Foi descoberta uma ordem secreta emitida no dia 22 de janeiro de 2022 pelo comandante da Guarda Nacional da Ucrânia que confirma que estava se preparando uma ofensiva militar de grande escala em Dombás a ocorrer em março deste ano.

Se fosse pouco, foram descobertos, perto da fronteira com a Rússia, laboratórios que vinham desenvolvendo componentes de armas biológicas com apoio dos EUA. Washington, do alto de sua grande credibilidade nega as acusações; entretanto, a subsecretaria Vitoria Nuland admitiu a existência desses laboratórios, afirmando que trabalham para “evitar que qualquer desses materiais de investigação caia nas mãos das forças russas”. Apesar dessa confissão, tentaram esquivar a gravidade do assunto, dizendo que esses laboratórios só trabalham em assuntos pacíficos. Ao contrário a Rússia comprovou que uma das linhas de investigação trabalhava na “possibilidade de transmissão de infecções particularmente perigosas através de aves migratórias”. Outra, “na criação de bioagentes capazes de afetar de maneira seletiva a diversos grupos étnicos”.

Esse conflito chegará a seu fim, esperamos que em breve, e ao seu tempo o mundo terá um panorama real de tudo o que está acontecendo e das verdadeiras razões que geraram essa guerra.  A razão e a paz vencerão. Pelo fim do conflito na Ucrânia! Por um mundo multipolar verdadeiramente em Paz!

*Anisio Pires é profesor de sociología na Universidad Bolivariana de Venezuela (UBV).