As razões do ranço

Imagem: Felix Mittermeier

Por JOSÉ COSTA JÚNIOR*

Ressentimento e negatividade nas redes sociais e nas ruas

Uma peça do vestuário começou a chamar a atenção nas ruas das cidades brasileiras nos últimos anos: muitas pessoas passaram a utilizar blusas e camisetas com o termo “ranço” estampado com destaque. Uma pesquisa rápida mostra a variedade do modelo, com desenhos, disposições e apresentações diferentes. Trata-se de um termo curioso. Originalmente, “ranço” possui uma concepção de repulsa a alguma substância, seja por seu cheiro peculiar ou por gosto estranho.

Um dos exemplares disponíveis da peça nos traz uma definição de dicionário do termo: “Ranço (s. m.): 1. Sentimento de repulsão sobre algo ou alguém; 2. Um repúdio, um abuso, algo que você não quer ver nem pintado de ouro; 3. Quando você pega ranço, até o andar da pessoa te irrita. 4. Como ela mastiga. 5. Como bate palma; 6. O sorriso; 7. Tudo.” A definição envolve alguma ironia, e amplia a definição do termo para as relações humanas, evidenciando uma mistura de antipatia e reações específicas no contato com determinadas pessoas. No entanto, a mensagem relativamente incomum da peça estimula reflexões e faz pensar nos humores e sentimentos da vida social contemporânea.

A presença da peça e suas variações nas ruas brasileiras, inclusive nas publicações nas redes sociais – as “praças digitais” –, mostra que o termo entrou para o vocabulário e que muitas pessoas fazem questão de exibi-lo. No entanto, chama a atenção também o fato de que um termo que carregue uma acepção de negatividade passe a circular com relativa constância. No caso específico do nosso país, a presença e a exibição do “ranço” podem soar ainda mais estranhas, dadas as qualificações de nossa cultura e identidade ligadas à alegria e à uma certa “cordialidade”, que nos tornaria amistosos e receptivos.

Mesmo que tais características sejam contestadas como representações de senso comum do que somos e de como vivemos, é relevante notar como nos últimos tempos as tensões sociais, políticas e econômicas mudaram os humores sociais do país. Essa mudança pode ser observada na violência dos debates públicos, disseminados pela potência das interações sociais digitais, que abre espaços para a exposição e exibição de opiniões e situações. Essa “sentimentalização” da esfera pública e social provavelmente está conectada com a presença do “ranço” na vida brasileira.

Duas publicações recentes sobre o tempo em que vivemos podem ajudar a compreender o papel desses sentimentos e emoções na vida social e política, principalmente no caso da atmosfera de negatividade envolvida nos contextos sociais atuais. Na primeira delas, num livro intitulado The age of anger: a history of the present (2017), o ensaísta indiano Pankaj Mishra defende que vivemos em “tempos de raiva”, nos quais a insatisfação e o ressentimento constante passaram a dominar os espaços e debates públicos. Conforme sua análise, tais emoções adversativas se devem em muito à ausência de estabilidades e respostas num mundo onde a globalização ampliou os processos de modernização e deslocamentos em termos sociais, políticos e econômicos. Junto à isso, os laços familiares, a organização política e o trabalho também mudaram, gerando ansiedades e frustrações. Como nem todos tiveram ou têm acesso aos benefícios das modernizações e suas promessas emancipatórias, surgem ressentimentos e reações cada vez mais violentas.

Nesse contexto, a suposição dos democratas liberais, de que o fim dos conflitos do século XX dariam lugar a uma era de prosperidade econômica acompanhada de harmonia e tolerância globais estava baseada num erro de compreensão acerca do que as pessoas efetivamente vivem. Tais avaliações não consideravam a situação de parte da população mundial que ficou fora do processo de globalização e dos avanços materiais. Um exemplo é a situação de muitos e muitas jovens que experimentam a inadequação e o desconforto em relação a um mundo em intensas mudanças, desprovidos de expectativas em relação ao que fazer da própria vida.

Num modo de vida cujos principais objetivos não são possíveis para todos, muitas pessoas “ficarão para trás”. A política e as instituições têm dificuldade para lidar com tais tensões e os discursos populistas e extremistas encontrarão terreno fértil nesse cenário de descontentamento. Nas palavras de Mishra: “Um rancor existencial frente ao ser dos outros, causado por uma mescla intensa de inveja e sentimentos de humilhação e impotência, esse ressentimento, à medida que recua e se aprofunda, envenena a sociedade civil e mina a liberdade política, a atualmente está gestando uma mudança global ligada ao autoritarismo e formas tóxicas de chauvinismo.”

Nesse cenário, na “história do presente” citada por Mishra, o ódio e a violência podem se misturar à política, principalmente a partir da ascensão de demagogos que aplacam as frustrações com discursos reativos, porém, pouco comprometidos com a estabilidade social e a democracia, contando com ferramentas tecnológicas especialmente desenvolvidas para captar e promover emoções intensar. As tensões sociais, políticas e econômicas da atualidade estão assim diretamente ligados às promessas e esperanças baseadas em tais expectativas que não entregaram o combinado – ao menos para a maioria de nós, que agora manifestamos abertamente o “ranço” em relação a tudo e a todos.

Uma segunda reflexão que contribui para entender as tensões de nossa era foi publicada pelo sociólogo francês François Dubet em 2019 e traz no título uma informativa descrição: O tempo das paixões tristes. Inspirado pela análise de Baruch Spinoza (1632-1677) sobre a dinâmica dos afetos, Dubet defende que o regime de desigualdades múltiplas e a individualização nas sociedades contemporâneas produziu tensões e ressentimentos, juntamente com o pouco reconhecimento da importância da participação para enfrentar os desafios sociais existentes. Nesse contexto de “cada um por si”, num sistema socioeconômico de alta competição e com poucos espaços de aproximação e atribuição de cidadania, onde o outro é sempre um concorrente em potencial, as “paixões tristes” vigoram – inclusive o “ranço”.

Não é que no passado as tensões sociais fossem inexistentes ou que as redes de proteção social garantissem total estabilidade; porém, é inegável que as inseguranças e dificuldades da vida contemporânea impactam cada vez mais, e a crescente individualização torna difícil a criação e manutenção de laços que poderiam diminuir o impacto da sensação de insegurança e impotência.

As interações sociais digitais contribuem para a disseminação dessas “paixões tristes” como a raiva, o ressentimento e a indignação. A mobilização constante das emoções – existem evidências de que conteúdos que envolvem indignação e emoções morais intensas se disseminam com mais velocidade e intensidade do que outros conteúdos nas redes sociais – juntamente com a comparação constante entre os desiguais modos de vida entre as pessoas amplia ainda mais essas tensões e dificuldades.

Desse modo, as condições são desafiadoras para a democracia e para o diálogo, de modo que as pessoas estão tomadas por sentimentos adversativos e sem respostas para as suas aflições. Tais sensibilidades podem se aproximar perigosamente do ressentimento e do ódio, além do sempre presente fantasma do autoritarismo como resposta para os desafios sociais. Nas palavras de Dubet: “Cóleras e acusações antes consideradas indignas têm agora direito de cidadania. Elas invadem a internet. Numa grande quantidade de países, encontraram uma expressão política com os nacionalismos e os populismos autoritários.”

As reflexões de Mishra e Dubet são contribuições relevantes para a compreensão do “espírito do nosso tempo”. Além de diagnósticos reveladores dos nossos desafios como sociedade, também evidenciam os riscos sociais e políticos da mobilização constante das inseguranças, indignações e insatisfações – inclusive do “ranço”, que agora povoa nossas mentes e nossas ruas. Tais reflexões nos ajudam a entender por que vemos tanto ressentimento e negatividade nas redes sociais, sentimentos e emoções que transbordam para o campo político e social configurando sociedades fraturadas e ressentidas. E, partindo dessa compreensão, construir meios e possibilidades para lidarmos melhor com as dificuldades e insatisfações desse tempo de “paixões tristes”.

*José Costa Júnior é professor de filosofia e ciências sociais no IFMG –Campus Ponte Nova.

 

Referências


DUBET, François. O tempo das paixões tristes. Tradução de Mauro Pinheiro. Belo Horizonte. Vestígio Editora, 2020.

MISHRA, Pankaj. The age of anger: a history of the present. Nova York: Farrar, Straus, and Giroux, 2017.