A sociedade da história morta

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Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO*

A disciplina de história foi inserida numa área genérica chamada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por fim, desapareceu no ralo curricular

Em um futuro não muito longínquo, numa localidade mais próxima do que se imagina, perdido num tempo-espaço distópico, vivia um grupo de pessoas, premido entre o diminuto espaço de experiência e a quase ausência de horizonte de expectativas, numa espécie de presente contínuo, como eles mesmos costumavam dizer. Seres estranhos, esquisitos, excêntricos, diziam alguns.

Pessoas de meia idade e anciãos, que outrora tiveram alguma relevância social e eram até admirados (eu mesmo, agora ancião, autor desse relato, nos meus tenros 14 anos, fiquei fascinado com um deles, jovem de 25 anos que esbanjava vigor intelectual). Eram bem formados, graduados, uns com mestrado e até doutorado. Esgueiravam-se pelas sombras e becos, encontravam-se em locais ermos, praças desertas, salas abandonadas, bibliotecas soturnas, antigos armazéns, marquises decrépitas, sebos poucos frequentados, catacumbas e pés-sujos onde serviam cachaça, cerveja gelada e iguarias, como jiló com fígado.

Tinham o hábito de ler livros (físicos!) e organizá-los em bibliotecas caseiras, mesmo sendo volumes antigos e amarelados, edições raras ou repetidas, folhas rotas pelo manuseio ou intactas. Juntavam documentos e antigos artigos de jornais, lidos e fichados. Também tinham especial predileção por fotografias e objetos de valor simbólico.

Os homens nem sempre faziam a barba e não eram muito preocupados com o vestuário, roupas démodé nem sempre ajustadas ao corpo. Entre as mulheres, algumas tinham o estranho hábito de enrolar os cabelos desgrenhados com os dedos enquanto conversavam e, por vezes, ostentavam certa deselegância discreta, trajes milimetricamente descombinados.

Os livros, eventualmente, compunham o vestuário, como um adereço, assim como sacolas de pano cru, souvenires de antigos congressos da área. Eram figuras que não ofereciam o menor perigo físico, não tinham porte atlético, não andavam armadas e nunca agiam em bando. Muitos eram ex-fumantes de tabaco e alguns ostentavam a fama de terem fumado maconha socialmente. Outros bebiam sem moderação.

Ocorre que esses sujeitos, embora tenham tido seus dias de glória, passaram a ser caçados como animais. E por isso evitavam o convívio social, raramente eram vistos em lugares públicos. Restaurantes, teatros e cinemas, nunca mais. Era possível encontrá-los em manifestações políticas, mas sempre disfarçados e circulando pelas beiradas da movimentação.

Identificavam-se uns aos outros e se cumprimentavam com um leve e quase imperceptível menear de cabeça e arquear de sobrancelha. Consta que num desses eventos de protesto, numa grande avenida central, uma jovem tecnocrata que saía do escritório com seu tailleur de magazine e saltos agulha, esbarrou numa dessas figuras fantasmagóricas, cujos livros caíram no chão, entre eles Costumes em comum (E. P. Thompson) e Coroas de glória, lágrimas de sangue (Emília Viotti da Costa).

A jovem desligou-se do celular, observou a cena e achou estranho que alguém estivesse numa passeata carregando livros, leu os títulos, lembrou-se da lenda urbana que se formara sobre esses seres, meio confusa o identificou e se pôs a gritar: historiador!! historiador! tem um professor de história aqui! corre! professor de história! história!

O professor de história, não mais incógnito, rapidamente juntou seus livros e, antes que uma multidão se formasse, fugiu pelas ruelas da região. Alguns ainda tentaram persegui-lo, mas ele escapuliu nas sombras, entre atônito e humilhado.

Esse estado de coisas teria começado, asseveram alguns, nos anos 2020, após uma série de mudanças curriculares na educação básica, principalmente no ensino médio, que passou a ser chamado de “novo”, o que levou à desqualificação do ensino de história, de seus professores e desse tipo de conhecimento (sim, já houve uma disciplina com esse nome, desde o século XIX!). Como se não bastasse, essa disciplina escolar foi inserida numa área genérica chamada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por fim, desapareceu no ralo curricular.

Essas mudanças atendiam aos interesses do grande capital e os próprios cursos de graduação foram alterados para atender tais demandas. Também nesse período os novos professores que se formavam, egressos dos cursos de Ciências Humanas, seguiam um currículo com supostos “conceitos mínimos” elaborado por um grupo de antigos historiadores trânsfugas.

A tão sonhada e festejada regulamentação da profissão de historiador perdeu o sentido, pois os cursos de História foram extintos e ninguém ousaria se identificar publicamente como tal. O fato é que historiadores e professores de história se tornaram avis rara. Até a lendária ANPUH foi obrigada a trocar de nome para ANCHU e a ABEH adotou o nome ABECHU.

Alguns desses sujeitos ainda tentam resistir quixotescamente (por dentro, jamais!) e investem contra moinhos de vento, defendem a disciplina escolar em lives relâmpago sem audiência, redigem manifestos que são cancelados antes mesmo de serem lidos e organizam cursos clandestinos para meia dúzia de gatos pingados nostálgicos.

Quando pegos, após denúncias anônimas, são levados presos e torturados com cursos de reciclagem (sic) sobre BNCC, Novo Ensino Médio e BNC-FP, são obrigados a assistir palestras com subcelebridades convertidas à área de Ciências Humanas e a decorar códigos alfanuméricos, habilidades e competências. Poucos resistem e, uma vez libertos, são vistos vagando em shopping centers sorrindo à toa e dizendo frases desconexas, como “vou estar fazendo”, “somos todos pela educação”, “agradeço a todos, a todas e a todes”, “conhecendo e sopesando”, “vou estar encaminhando”…

Passadas algumas décadas de sua extinção formal, historiadores e professores de História tornaram-se um mito no país. Uns duvidam que tenham existido e antigos luminares do campo não rendem mais likes; seus livros deixaram de ser editados e não se fala mais em tempo histórico; uns afirmam que “eles” nunca morrem e até a tão propalada “consciência histórica” tornou-se apenas e tão somente “consciência”.

Reza a lenda que os remanescentes de historiadores e professores de história, constituíram uma confraria secreta, uma sociedade da história morta: Poiesis.

*Antonio Simplicio de Almeida Neto é professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Autor, entre outros livros, de Representações utópicas no ensino de história  (Ed. Unifesp). [https://amzn.to/4bYIdly]


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