A voz de Hind Rajab

Frame de “A voz de Hind Rajab”, filme dirigido por Kaouther Ben Hania/ Divulgação
image_pdf

Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre o filme dirigido por Kaouther Ben Hania, em exibição nos cinemas

“Todas as guerras futuras, todos os acidentes futuros serão guerras ao vivo e acidentes ao vivo” (Paul Virilio).

1.

A voz de Hind Rajab é um filme que comprime o tempo de modo a provocar um efeito de suspensão vital no espectador. Seria o que os críticos chamam de “tempo real”, produções onde a duração da história coincide com o tempo de exibição, gerando alta tensão e imersão. No mundo do entretenimento, não faltam alguns (poucos) exemplos.

No filme da diretora tunisiana, Kaouther Ben Hania, atenção e imersão acontecem diante de um fato absurdamente real, a história de Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos que foi morta em Gaza, janeiro de 2024 – uma história contada através de sua voz, pedindo socorro à ONG humanitária “Palestine Red Crescent Society”.

Em 29 de janeiro de 2024, Hind viajava de carro com seis membros da família Hamadeh, após o exército israelense ordenar a evacuação de Tel al-Hawa, bairro na parte sul da cidade palestina de Gaza. O carro foi alvejado por um tanque, e Hind foi a única sobrevivente. Presa nos destroços, espremida contra os corpos de seus parentes, espera em vão por um resgate.

Seus contatos via celular, com sinal intermitente, duraram algumas horas. Do outro lado da linha estava o escritório da “Red Crescent”, localizado em Ramallah, na Cisjordânia. Os diálogos acabaram entrando ao vivo no Instagram, e foram acompanhados globalmente.

Kaouther Ben Hania conta como tomou conhecimento da tragédia de Hind: “Eu estava em uma escala no aeroporto de Los Angeles, quando ouvi a gravação de áudio de Hind Rajab implorando por ajuda. A essa altura, sua voz já havia se espalhado pela internet. Entrei em contato com a Red Crescent e pedi para ouvir o áudio completo. Tinha cerca de 70 minutos de duração e era angustiante. Depois de ouvi-lo, soube, sem sombra de dúvida, que precisava largar tudo. Eu precisava fazer este filme. Conversei longamente com a mãe de Hind, com as pessoas reais que estavam do outro lado da linha, aquelas que tentaram ajudá-la”.

Cada palavra emitida por Hind tem um peso de realidade que vai além de qualquer convenção simbólica que a linguagem reserva aos membros dessa comunidade que é o cinema. O ar parece ser sugado da imagem na medida em que são ouvidas as palavras de Hind – sempre com tela preta e o sinal de sua voz na frequência oscilante das ondas hertzianas.

2.

A tela preta funciona como pontuação para o filme, rodado em formato ultra-widescreen, alternando com imagens dos atendentes em situações diversas de objetividade profissional à beira do abismo – eles foram treinados para situações limite como essa, mas são ultrapassados. O formato permite aos trabalhadores humanitários ocuparem o quadro simultaneamente, entabulando uma reação coordenada por protocolos – confortar a vítima, providenciar uma ambulância, coordenar rota segura de saída para evitar de ser alvejada pelos israelenses.

A voz de Hind Rajab evolui entre a voz de Hind, significante bruto do real, e a reconstrução física do que se passou no escritório da “Red Crescent”. Em sua produção anterior, As quatro filhas de Olfa, Kaouther Ben Hania trabalhou uma narrativa em três níveis de organização – documentário, ficção e metaficção.

No filme sobre Hind, sua intuição foi diferente: o real, em princípio impossível de ser representado, corporifica-se no áudio e ocupa o centro de tudo – restando à esfera simbólica, onde atores e atrizes representam o drama de ouvir uma criança na iminência de uma morte violenta, construir a história onde se processam as identificações captadas pela audiência.

Os principais personagens – Rana (Saja Kilani), Omar (Motaz Malhees), Mahdi (Amer Hlehel) e Nisreen (Clara Khoury) – executam suas tarefas no tempo real posto em cena pela diretora. Omar, que interrompe uma brincadeira com o colega para atender a primeira chamada de Hind, galvaniza um estado crescente de desconforto emocional, que o leva a conflitos com seus superiores na organização.

Mahdi, responsável pelas articulações que viabilizem ambulância e resgate, sabe o que acontece se uma rota segura não é estabelecida, e se desespera. Rana, a supervisora, se esforça para criar um tom familiar e reconfortante com Hind, mas sucumbe diante do embrutecimento progressivo dos fatos. E Nisrine, treinada para dar suporte psicológico ao grupo, mostra-se incapaz, enfim, de conter a deriva da situação.

À época, o drama de Hind integrou o ciclo efêmero de notícias provenientes de Gaza. A voz de Hind Rajab recupera o tempo da tragédia e restitui a verdade da informação.

*João Lanari Bo  é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo) [https://amzn.to/45rHa9F]

Referência

A voz de Hind Rajab.

EUA, França, Tunísia, 2025, 89 minutos.

Direção e Roteiro: Kouther Ben Hania.

Elenco: Saja Kilani, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES