Além do humano

image_pdf

Por EUGÊNIO BUCCI*

A cada dia, o humano perde relevância. O humano, depreciadamente humano, deixa de ser protagonista no seu próprio destino

Agora, os pequenos sinais estão em toda parte. Artifícios inteligentes tomam decisões no lugar das pessoas de carne e osso. No trânsito, quem resolve se você vai virar à esquerda ou à direita é um algoritmo, que lhe dá ordens pela tela eletrônica. Por um sistema parecido, o taxista fica sabendo qual será o passageiro, e em que endereço deve apanhá-lo. Ninguém escapa.

Todo mundo é um pouco motorista de Uber: todo mundo, às vezes mais, às vezes menos, segue a batuta de softwares que dirigem a rotina das populações conectadas. O batimento cardíaco dos anônimos, o tráfego aéreo, as ebulições das bolsas de valores, a sensação de que gostam ou não gostam da gente: tudo passa pelos dígitos. O que antes gostávamos de chamar de “livre arbítrio” se reduziu, enfim, ao arbítrio das máquinas.

Sinais, muitos sinais. O eleitorado se apoia em filminhos da internet para escolher em quem votar. Muita mentira passa por aí, já sabemos. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral anuncia que sua maior preocupação é conter as chamadas deepfakes, aquelas cenas perfeitas, irretocavelmente verossímeis, em que um candidato, na frente das câmeras, diz, com todas as sílabas escandidas, uma frase que jamais pronunciou – tudo obra da cibernética. Esse tipo de truque maligno grassou nas eleições da vizinha Argentina, e já se anteveem complicações do lado de cá da fronteira.

Na imprensa de todos os continentes, as redações decretam normas de conduta para regular o uso de ferramentas de Inteligência Artificial por seus profissionais. As chances de sucesso são exíguas. A Inteligência Artificial soterra a atividade jornalística sem deixar a ninguém um tempinho que seja para respirar. Cada vez mais ela nos regula, sem ser regulada por nós.

Agora, esses pequenos sinais que estão em toda parte nos mostram que foi posto um limite virtual – apenas virtual, por enquanto – para a aventura humana sobre a Terra. A cada dia, o humano perde relevância. O humano, depreciadamente humano, deixa de ser protagonista no seu próprio destino. Pobre humano. O único evento no qual ainda exerce um papel de relevo é o aquecimento global, na sua tragédia final, o Antropoceno. Fora isso, sobrou-lhe um bico de coadjuvante.

No meio dos sinais de toda parte, ganha novo impulso o termo “transhumanismo”, assim mesmo, sem hífen nem nada. A palavra, em inglês, se tornou conhecida em meados do século XX, mas agora assume um posto mais chamativo. Ela conta com entusiastas empedernidos – aqueles que veem na tecnologia um atalho para aperfeiçoar nossos corpos e espíritos, numa “reforma da natureza” que, enfim, dará certo. O substantivo “transhumanismo” aparece em qualquer reunião de especialistas em internet, mundo digital, machine learning e transmigração das almas em nuvens de metais pesados.

Trata-se de uma “ideologia”, dizem. Eu diria que estamos falando de uma fantasia totalizante, cujo corolário é muito simples: o ánthropos, primeiramente refeito em ciborgue, com marcapasso, chip de memória, fêmur de titânio trabecular e aparelho auditivo, será sucedido por seres programados na base da engenharia genética. Aí, a mutação cromossômica será tão trivial quanto um cafezinho na padaria. Muita gente gosta do cenário.

Há quinze anos, precisamente em 2008, num dos ciclos de conferência organizados por Adauto Novaes, fiz uma palestra tocando nesse assunto (“Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas”).

Na época, os pequenos sinais ainda não estavam em toda parte, e minha fala soou ainda mais catastrofista do que este artigo. Há quinze anos, eu disse: “A nova revolução tecnológica será o câncer domesticado”. Hoje é irrefutável: a evolução biológica se tornará administrável e, em prazos exíguos, as novas gerações de ricos terão atributos físicos e cognitivos superiores aos das outras classes sociais. A diferença de classe se converterá não em “diferencial competitivo”, mas em diferencial evolutivo. Isso, claro, se tudo correr bem, e se ainda houver resquício do que teremos sido nos corpos que existirão depois de nós.

A imortalidade, por óbvio, faz parte do horizonte próximo. Ray Kurzweil, ex-engenheiro do Google que ganhou notoriedade por suas previsões vistosas, declarou em março que a imortalidade será alcançada dentro de oito anos, graças a pesquisas que combinam robótica, genética e nanotecnologia. E para quê? Desde sempre, o que distingue o humano dos deuses é o trunfo inigualável da mortalidade. No instante em que superá-la, a espécie, ou o que restar dela, terá deixado para trás nada menos que a sua condição humana.

A notícia, portanto, embora nos seduza como a aparição súbita do mistério inacessível, é horrorosa. A notícia é péssima. Imagine só quem serão as personagens que, com RG de 120 anos de idade, passearão por aí em corpinhos de dezoito. Essas votarão para sempre e financiarão religiosamente as deepfakes que agora o TSE gostaria de inibir. Sim, a seleção natural é inclemente, mas a seleção artificial será perversa.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
6
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
14
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES