Além do princípio do prazer

Alberto da Veiga Guignard, Festa em Família , s.d.

Por LUIZ EDUARDO PRADO DE OLIVEIRA & GILSON IANNINI*

Prefácio da recém-lançada edição crítica da obra de Sigmund Freud.

o-o-o-o! Da! (Ernst Wolfgang Halberstadt)

Fort! Da! (Sigmund Freud)

Quando o visitante adentra a antiga casa de Freud, na rua Berggasse, número 19, no nono distrito de Viena, hoje Museu Sigmund Freud, na sala de espera, à direita, onde os visitantes deixam seus pertences, verá um cabide e, nele, bengala e chapéu. A sala hoje em dia encontra-se protegida por uma parede de vidro. O chapéu é o último vestígio do fort-da na vida póstuma de Sigmund Freud. Pelo menos é o que sugere a falecida psicanalista e historiadora que chama nossa atenção para as peças indumentárias do ilustre homem e sua situação protegida, sublinhando que nem sempre foi assim (Marinelli, 2009). Outrora, chapéu e bengala ficavam ao alcance do público, que podia guardar seus próprios chapéus e bengalas juntos aos do antigo ocupante do apartamento.

Foi assim pelo menos até o dia 31 de julho de 1977, quando o chapéu desapareceu. Quando o guardião do museu percebeu, horrorizado, seu desaparecimento, avisou imediatamente à direção do estabelecimento, e esta, às autoridades, porém nada mais podia ser feito. Um visitante, um homem – o desenrolar dos fatos mostrará ter sido um norte-americano – havia surripiado o chapéu. Àquela altura, só restava acionar o seguro, que, prontamente, em dezembro do mesmo ano, ressarciu 12 mil schillings austríacos ao museu, valor bem superior ao preço de um chapéu similar no mercado local, mas justificado por se tratar de item pertencente a seu antigo dono. No momento em que adquiriu valor por sua ausência, o chapéu deixou de ser objeto cotidiano banal e tornou-se ícone, significante em cadeia de outros significantes, peça de museu.

Longe, muito longe, continuava a levar sua vida de chapéu, ornando e esquentando indelicada cabeça que cometera o crime, com ela deambulando por Nova York, como hoje o sabemos, onde o visitante, incauto ladrão, para seu solitário e discretíssimo gozo próprio, às vezes o usava, ousava usá-lo. Até que um dia ligou as inquietantes sensações que lhe surgiam no corpo à excessiva intimidade física que compartilhava com o falecido proprietário do agora célebre chapéu. Aconselhado pelo analista a quem se confiou, preparou esmerado pacote, ao qual acrescentaria ainda carta de explicações, pedido de desculpas etc.

Confiando no correio de seu país, enviou tudo ao museu de Viena, que nesse meio-tempo não deixara de realizar sua função própria, alardeando a perda que sofrera. O chapéu desaparecido voltava assim a seu ponto de origem, dessa vez, porém, passando a ser devidamente protegido. A rigor, o episódio não constitui exatamente um roubo, talvez um indelicado empréstimo, um comodato não autorizado, unilateral, que fez desaparecer e reaparecer o chapéu. Isso o reaproxima de outros objetos que conheceram percursos similares, como a célebre carta cujo destino é narrado por Edgar Alan Poe, comentado e reescrito por Jorge Luis Borges, antes de ser retomado por Jacques Lacan (cf. Oliveira, 2019).

Nesses 100 anos desde sua publicação, em 1920, o trajeto de Além do princípio de prazer guarda insólitas afinidades com a história do chapéu. Texto mais controverso no conjunto não menos controverso da obra de Sigmund Freud, o APP – como carinhosamente nos referiremos a ele nesta edição – foi, desde o início, um objeto que apareceu, que desapareceu, mesmo estando diante dos olhos de seus leitores, que reapareceu, que foi lançado longe ou agarrado com força. Esses movimentos todos foram, quase sempre, acompanhados de gritos ou de sussurros, fossem eles de regozijo, de rejeição, de surpresa.

Especulativo demais, excessivamente biologizante, contaminado pelas experiências de luto de seu autor, inútil para a prática clínica: tudo isso foi dito e redito sobre o APP ou sobre sua inovação teórica maior, o novo dualismo entre Eros e pulsão de morte. Ao longo desses 100 anos, o texto foi visto como o turning point da teoria psicanalítica, mas também como o “início do fim da psicanálise” (cf. May, 2013, p. 208), na medida em que a sexualidade, ao ser subsumida sob o signo unificador de Eros, perderia sua força daimoníaca, desde então realocada sob a égide da pulsão de morte.

Com efeito, desde sua formulação canônica, a pulsão de morte foi sobejamente rejeitada por toda uma geração de psicanalistas, inclusive alguns dos integrantes do círculo mais próximo de Freud, antes de ser entusiasmadamente incorporada por psicanalistas como Melanie Klein, depois novamente rejeitada – por motivos opostos – por Erich Fromm ou Herbert Marcuse, afastada por Heinz Hartmann, reformulada e alçada a modelo da própria pulsão por Jacques Lacan, desqualificada por Donald Winnicott, antes de ser ressexualizada por Jean Laplanche ou ainda absorvida criticamente na filosofia de autores tão diversos como Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Slavoj Žižek ou Judith Butler, entre outros.[i]

A sinuosidade desse trajeto já justificaria a comparação com o vaivém, com esse fort-da, do chapéu roubado de Freud. Mas isso não é tudo.

Fort!

“A angústia enquanto tal deve ser examinada do ponto de vista da vida pulsional. Não há pulsões isoladas. A pulsão sexual sempre aparece acompanhada de outras duas pulsões: a de vida e a de morte. A pulsão de vida e a pulsão sexual são frequentemente identificadas uma à outra (gozar a vida)” (Checchia, 2015, loc. 3431). O leitor contemporâneo não teria dificuldade em afirmar que essa passagem certamente é posterior a 1920, pois conhece a certidão de nascimento da pulsão de morte. De que texto seria? Inibição, sintoma e angústia, de 1926? O mal-estar na cultura, de 1930? O Compêndio de psicanálise, de 1939? Talvez ele descubra, surpreso, que o que acabou de ler seja a minuta registrada por Otto Rank da reunião ocorrida na Berggasse 19, na noite de 24 de abril de 1907, nas famosas reuniões das quartas-feiras.

Naquela noite, o Dr. Wilhelm Stekel apresentaria a conferência “Psicologia e patologia da neurose de angústia”. Conforme anota o competente secretário, Stekel “parte do sonho de uma paciente em que a sexualidade e a morte se fundem de modo claro; nele aparece um homem que é Eros e Tânatos em uma só pessoa. Temos de aceitar a tese de que toda angústia é angústia em relação à morte” (Checchia, 2015, loc. 3400). Ao concluir, Stekel afirma que “a neurose de angústia é o jogo entre a pulsão de vida e a pulsão de morte [Todestrieb]” (loc. 3434). Na calorosa discussão que se segue, Paul Federn pondera: “a pulsão de morte não é algo originário; ela é, antes, uma fuga à angústia: o desejo de morte [Todeswunsch] é uma consequência da angústia relacionada à morte [Todesangst]” (loc. 3434).

Por sua vez, Hitschmann confessa que a intervenção havia bagunçado tudo que sabia e acrescenta que a pulsão de morte era incompreensível para ele, sendo seguido por outros. Wittels acrescenta que “a ideia de que a pulsão de morte acompanha o amor é tão velha quanto o mundo” (loc. 3477). Distinguindo angústia normal e angústia neurótica, Freud, anota Rank, “invalida a afirmação de que toda angústia está relacionada à morte [Todesangst]” (loc. 3512). Ao fim e ao cabo, Stekel recua, admite contradição e a atribui à “escolha infeliz da palavra”, embora mantenha que “o conceito não é tão injustificado” (loc. 3460).

É bastante provável que essa seja a primeira ocorrência explícita do termo “pulsão de morte” na história da psicanálise. Pelo menos, é a primeira ocorrência textual registrada de que temos notícia. Mas ela não terá sido a única. Antes de receber sua elaboração teórica padrão em Além do princípio de prazer, a pulsão de morte, ou seus cognatos próximos, fizeram movimentos de ir e vir, significativamente mais frequentes do que a história oficial da psicanálise viria a consagrar.

“Pulsões de agressão”, “impulso para a morte”, “instinto de morte” eram termos frequentemente debatidos, propostos principalmente por Alfred Adler, August Stärcke ou Sabina Spielrein. De maneira geral, respondiam a necessidades teóricas colocadas por fenômenos ligados à angústia, à agressividade, ao sentimento de culpa etc. Mas essas discussões não se restringiam às famosas reuniões da “Sociedade Psicológica das quartas-feiras”. Basta lembrar o que Lou Andreas-Salomé registra em seu Diário, na noite de 10 para 11 de setembro de 1913. Sob o título “Com Ferenczi”, ela escreve três vezes a palavra “Todestendenz” (tendência para a morte): “No fundo, nossas concepções são tão opostas que chegam quase a se juntar. Tudo que Ferenczi chama dentro de suas concepções ‘tendência para a morte’ pode também ser chamado de ‘tendência para a vida’, sem que nada mude, fora do ponto de vista pessoal” (Andreas-Salomé, 1970, p. 402-404).[ii]

Não raro, Freud e sua pequena comunidade psicanalítica buscava explicar tais “anomalias” no interior do “paradigma” metapsicológico até então prevalecente, enfatizando a prevalência de etiologias sexuais para conflitos psíquicos, conservando, portanto, a primazia do princípio de prazer-desprazer no funcionamento psíquico. Tudo parecia funcionar segundo a dinâmica “normal” de comunidades científicas: debate de casos clínicos, objeções e respostas, disputas, acomodações, consensos, jogos de força, mestria etc. Ao mesmo tempo, Freud e Ferenczi compartilhavam a fantasia comum apelidada por eles de “projeto Lamarck”, que consistia numa tentativa de conquista psicanalítica da biologia.

Concretamente, Freud encomenda a Ferenczi resenhas de trabalhos científicos de ponta da época, que, aliás, constituem algumas das principais referências mobilizadas no famoso capítulo VI do APP. Mas nada disso tira o caráter inovador da concepção apresentada por Freud em 1920, de resto bastante distinta da maioria daquelas propostas por seus precursores. Nada disso diminui a originalidade da pulsão de morte freudiana, apenas esvazia a narrativa heroica que a envolve.

O conceito freudiano de pulsão de morte é introduzido, em 1920, no capítulo VI do APP. Desde o início, sua recepção foi, no mínimo, controversa. Não demorou muito. Em biografia lançada em 1924, Fritz Wittels inaugurou a polêmica: enlutado pela morte prematura de sua filha Sophie e ainda assombrado pelos horrores da guerra, Sigmund Freud, ao formular o conceito de pulsão de morte, teria se deixado contaminar pelas agruras que sofrera.

O próprio Freud escreve a Wittels contestando sua interpretação e sugerindo correções: “Sem dúvida, se eu mesmo estivesse analisando outra pessoa sob tais circunstâncias, deveria ter presumido a existência de uma conexão entre a morte de minha filha e a linha de pensamento de Além do princípio de prazer. Mas a inferência de tal sequência teria sido equivocada. O livro foi escrito em 1919, quando minha filha ainda gozava de excelente saúde. Ela morreu em janeiro de 1920. Em setembro de 1919 eu havia enviado o manuscrito desse breve livro para que fosse lido por amigos em Berlim. Ele estava concluído, salvo a discussão quanto à mortalidade ou imortalidade dos protozoários. O que parece verdadeiro nem sempre é a verdade (Freud, [1924] 1961, p. 287).

As alegações de Freud são verdadeiras, mas apenas parcialmente. Afinal, nem sempre é a morte que desencadeia um luto. Ou a separação de suas filhas, Mathilde e Sophia, não o acompanhou durante a redação de O motivo da escolha dos cofrinhos ([1913] 2015), determinando “sua condição subjetiva”?[iii] Além disso, que manuscrito é esse que teria sido lido por amigos em Berlim? Que amigos seriam esses? O que o manuscrito inacabado efetivamente continha antes da morte de Sophie e o que teria sido acrescentado posteriormente? Em que medida as elaborações posteriores a janeiro de 1920 poderiam ser atribuídas ao luto ou invalidadas por isso? Todas essas questões permaneceram em aberto durante décadas, produzindo todo tipo de especulação a respeito. Mas o manuscrito tinha desaparecido: o-o-o-o! Pelo menos era o que parecia.

Da!

Pesquisando os arquivos da Biblioteca do Congresso em Washington D.C., Ilse Grubrich-Simitis descobriu não apenas uma, mas duas versões do manuscrito de Além do princípio de prazer. A história dessa descoberta foi relatada pela autora em 1993, no seu célebre De volta aos textos de Freud (1993; ed. bras. 1995). O catálogo da biblioteca, hoje acessível on-line, define os dois itens com precisão: “holograph manuscript” e “holograph and typewritten manuscript, bound”.[iv]

O primeiro continha seis capítulos, distribuídos em 34 folhas duplas, com todas as características formais de um texto acabado de Freud, com direito a “tipografia festiva” nos títulos e fermata ao final; o segundo, encadernado em papel couché marrom, continha a transcrição datilografada do primeiro texto, acrescida de “inúmeras correções escritas à mão, em bilhetes e folhas adicionais” (Grubrich-Simitis, 1993, p. 190), já com sete capítulos.

O capítulo adicional foi escrito à mão e inserido na versão datilografada, intercalado entre os capítulos 5 e 6 da primeira versão. Os acréscimos da segunda versão são substanciais, fazendo o ensaio quase dobrar de extensão.[v] Ao que tudo indica, o processo de elaboração do texto foi feito em pelo menos duas etapas, prologando-se desde março de 1919 até julho ou agosto de 1920 (May, 2015). A versão manuscrita foi redigida em poucas semanas, entre março e abril de 1919; as reelaborações do material, por sua vez, parecem ter se estendido por cerca de um ano, de forma descontínua, de julho de 1919 até julho de 1920. Comparando as duas primeiras versões, podemos tirar algumas conclusões.

A primeira versão manuscrita já continha a principal descrição do jogo do fort-da,[vi] mas não continha nem a pulsão de morte nem Eros. Além disso, Ulrike May ressalta outras duas importantes características do primeiro manuscrito. Primeiramente, Freud está sozinho, por conta própria (May, 2015, p. 223). Não há recursos maiores à filosofia nem à biologia. Apenas alguns nomes são mencionados.[vii] Não há menções a Platão, Schopenhauer, Fechner, Weismann, Lipschütz ou Fließ (May, 2015, p. 223), todas acrescentadas a posteriori.

Mas o mais importante é o seguinte. O fundamento metapsicológico do que viria a se tornar o turning point da teoria pulsional é apresentado como tal desde a primeira versão, i.e., o princípio de prazerdesprazer não é mais suficiente para explicar a regulação do aparelho psíquico, é preciso ir além. Em outras palavras, Freud abandona, desde a primeira versão manuscrita, uma das premissas aceitas até então pela metapsicologia, a de que o funcionamento do aparelho psíquico é presidido pelo princípio de prazer-desprazer (May, 2015, p. 223).

O problema colocado pela clínica da repetição de eventos desprazerosos implica que a compulsão à repetição “nos parece mais originária, mais elementar e mais pulsional do que o princípio de prazer por ela deixado de lado”. O que está em jogo, portanto, não é apenas a reformulação do novo dualismo pulsional, mas também a reformulação do próprio conceito de pulsão. No manuscrito da primeira versão, ainda não temos a “pulsão de morte”, mas já temos seu caráter regressivo.

Conforme resume May (2015, p. 233): “na primeira versão do APP, Freud ainda não usa o termo “pulsão de morte”, mas introduz uma nova definição de pulsão, sendo sua característica definicional central a necessidade de retornar a um estado anterior, e já fala longamente de pulsões cujo objetivo é conduzir o organismo até sua morte. Nesse sentido, considero sua resposta a Wittels acurada: que ele já tinha as ideias mais importantes do APP enquanto sua filha ainda estava “saudável e vicejante”. Por outro lado, Eros não está presente na primeira versão, nem como palavra nem como ideia”.

O chapéu voltou a seu lugar original. Problema resolvido?

Nada disso. O que fazer, por exemplo, com o caráter demoníaco e egoísta da satisfação sexual, uma das características mais importantes da pulsão sexual no interior do primeiro dualismo pulsional, e que parece diluir-se com a postulação de Eros? O que fazer com a rasura (ou seria melhor escrevermos “rasura”?) da tese radical, presente apenas no rascunho da primeira versão, segundo a qual a pulsão, enquanto tal, tenderia à morte? O que fazer com os passos iniciais da teoria pulsional? Meramente substituí-los pela nova versão? Como se pudéssemos apagar os rastros, como se, ao ser devolvido a seu lugar de origem, o chapéu nunca tivesse sido roubado?

Quando Freud retorna à pulsão de morte, em reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 20 de março de 1930, diz: “Meu livro vem da constatação de que a nossa teoria das pulsões é insuficiente. Disseram que eu tentava impor a pulsão de morte aos analistas. Mas sou apenas como um velho camponês que planta árvores frutíferas, ou como alguém que tem de sair de casa e deixar um brinquedo para que as crianças brinquem enquanto estiver fora. Escrevi o livro com intenções puramente analíticas, baseado na minha existência como escritor analítico, numa meditação sombria e preocupado em desenvolver até o fim o conceito de culpa. O abandono da agressividade cria sentimento de culpa. Agora cabe-lhes brincar [to play] com essa ideia. Mas, para mim, esse é o avanço mais importante da análise”.[viii]

Faremos do APP uma peça de museu, separada por parede de vidro e exposta a nosso olhar de turistas, a quem cabe a contemplação, quem sabe a veneração? É esse o propósito de uma edição crítica, destinada apenas a leitores altamente especializados?

“Não, uma edição filologicamente sofisticada de Além – e uma série de outros escritos de Freud, como A interpretação dos sonhos e os Três ensaios – não é apenas assunto para especialistas em seus textos, mas afeta o centro mesmo de nossa recepção de Freud. Isso faz com que Freud se destaque como um pensador que estava em constante diálogo com outros, que, dependendo do caso, deixava o público participar de seu processo de pensamento ou mesmo apagava os rastros desse processo, que experimentava com ideias e lutava continuamente por seus conceitos, que seguiam seu desenvolvimento com saltos surpreendentes, reviravoltas, quebras e autocontradições e, principalmente, que eram fundamentalmente desenvolvidos em estreita relação com a prática clínica. Não deveríamos ter a devida consideração por esse “conquistador”, como Freud certa vez denominou sua mais destacada característica como pesquisador, e impedir que ele se tornasse um ícone, autor de uma obra canonizada?” (Schröter, 2013, p. 798).

Ornaremos e aqueceremos nossas cabeças de psicanalistas bem pensantes com suas intricadas articulações? Restituiremos seu verdadeiro sentido ou o abandonaremos a uma leitura ingênua e desinformada? Ou deixaremos que continue seu sinuoso percurso, seu próprio fort-da?

*Luiz Eduardo Prado de Oliveira, psicanalista, é professor de psicologia na Universidade Paris-7 – Denis Diderot. Autor, entre outros livros, de L’invention de la psychanalyse: Freud, Rank, Ferenczi (Campagne Prem).

*Gilson Iannini é professor do Departamento de Psicologia da UFMG. Autor de Estilo e verdade em Jacques Lacan (Autêntica).

Referência


Sigmund Freud. Além do princípio do prazer. Edição: Gilson Iannini. Tradução: Maria Rita Salzano Moraes. Revisão da tradução: Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte, Autêntica, 2020, 510 págs.

Obras citadas


ANDREAS-SALOME, L. Correspondance avec Sigmund Freud 1912-1936. Journal d’une année 1912-1913. Paris: Gallimard, 1970.

BENVENISTE, D. The Interwoven Lives of Sigmund, Anna and W. Ernest Freud. Three Generations of Psychoanalysts. The American Institute for Psychoanalysis: IPBooks, 2015.

CHECCHIA, M.; TORRES, R.; HOFFMANN, W. (Org.). Os primeiros psicanalistas: atas da Sociedade Psicanalítica de Viena 1906-1908. Trad. Marcella Marino Medeiros Silva. São Paulo: Scriptorium, 2015. v. 1. Edição do Kindle.

FREUD, S. (1913) O motivo da escolha dos cofrinhos. In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. p. 167-182. (Obras Incompletas de Sigmund Freud).

FREUD, S. (1924) Extracts from a Letter to Wittels. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 19. London: The Hogarth Press and the Institute of Psychoanalysis, 1961. p. 286-288.

GRUBRICH-SIMITIS, I. Zurück zu Freuds Texten. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1993. [Edição brasileira: De volta aos textos de Freud. Trad. Inês Lohbauer. Rio de Janeiro: Imago, 1995.]

MARINELLI, L. Fort, Da. The Cap in the Museum. Psychoanalysis and History, v. 11, n. 1, p. 116-120, 2009.

MAY, U. Freud’s “Beyond the pleasure principle”: The End of Psychoanalysis or Its New Beginning? International Forum of Psychoanalysis, v. 22, n. 4, p. 208-216, 2013. DOI: 10.1080/0803706X.2012.74368.

MAY, U. The Third Step in Drive Theory: On the Genesis of Beyond the Pleasure Principle. Psychoanalysis and History, v. 17, n. 2, p. 205-272, 2015. DOI: 10.3366/pah.2015.0170.

NUNBERG, H.; FEDERN, E. Minutes of the Vienna Psychoanalytic Society. New York: International Universities Press, 1962.

OLIVEIRA, L. E. P. La lettre volée, moments de l’histoire de la psychanalyse: Poe, Borges, Lacan, Derrida, Johnson, Irwin, etc. Erès, Figures de la Psychanalyse, n. 38, p. 239-252, 2019.

SCHRÖTER, M. Jenseits des Kanons Eine Erwiderung auf Ilse Grubrich-Simitis’ Kritik an der Neu-Ausgabe von „Jenseits des Lustprinzips“. Psyche: Zeitschrift für Psychoanalyse und ihre Anwedungen, v. 67, p. 794-798, 2013.

Notas


[i] Maneira sutil de desqualificar a relevância psicanalítica do APP é valorizar exclusivamente seu interesse filosófico, diluindo sua pertinência como contribuição à “filosofia continental”, como faz Todd Dufresne em sua edição. O que em nada tira o mérito da edição, traduzida competentemente por Gregory Richter, e que traz ainda, como apêndices, extratos de textos de autores como Schopenhauer, Nietzsche, Fromm, Lacan, Deleuze, Derrida, Laplanche, Butler ou Žižek, entre outros. Dufresne dedica sua parte do trabalho a Mikkel Borch-Jacobsen: pelo menos, não se trata de erro de boa-fé, que seria mais difícil de perdoar (Beyond the Pleasure Principle. Ed. and intro. T. Dufresne. Trans. G. Richter. Peterborough: Broadview Books, 2011).

[ii] Para mais detalhes sobre todas essas discussões, consultar os verbetes correspondentes, neste volume. A discussão sobre a passagem do Diário de Lou Andreas-Salomé encontra-se no verbete sobre Ferenczi.

[iii] Conforme carta a Ferenczi, datada de 9 de julho de 1913.

[iv] Sigmund Freud Papers: Oversize, 1859-1985; Writings; 1920; “Jenseits des Lustprinzips” [g]; Holograph manuscript [Manuscript/Mixed Material]. Disponível na Library of Congress: <bit.ly/3mL6OkJ> e <bit.ly/2ROiqFr>.

[v] May (2015, p. 207) calcula com precisão: a primeira versão contém cerca de 740 mil caracteres, ao passo que a segunda contém perto de 120 mil.

[vi] O jogo do fort-da é descrito no APP em quatro versões distintas, conforme notou Daniel Benveniste (2015), sendo duas delas em notas de rodapé acrescentadas posteriormente. Cf. o verbete elaborado por Prado de Oliveira (neste volume, p. 247-255).

[vii] Nomeadamente: os autores da obra coletiva Psicanálise e as neuroses de Guerra (Ferenczi, Abraham, Simmel e Jones); além de Pfeifer, Jung e Breuer (MAY, 2015, p. 223, n. 38).

[viii] Redigidas entre 1906 e 1915 por Otto Rank, as Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena foram entregues por Freud a Paul Federn quando deixavam Viena. Após uma tentativa de publicação na Índia, em 1947, elas foram publicadas nos Estados Unidos e em inglês entre 1962 e 1975. Só então foram publicadas simultaneamente na Alemanha e na França. Note-se que nunca foram publicadas na Áustria. Os editores, Herman Nunberg e Ernst Federn, exigiram que, na edição alemã, figurasse a menção de a publicação original ter se dado nos Estados Unidos e em inglês. Por trás de todas essas decisões, há escolhas políticas de inúmeros tipos. De maneira geral, se a psicanálise nasceu em alemão, ela cresceu, amadureceu e espraiou-se pelo mundo em inglês. Os primeiros psicanalistas sabiam disso e insistiam nisso, Freud inclusive. A presente ata aqui mencionada foi redigida em inglês por Richard Sterba, que anotava suas observações quando da reunião de 20 de março de 1930 da Sociedade Psicanalítica de Viena.