Alerta vermelho em Zaporizhzhia?

Imagem: Wendelin Jacober
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Por LINDA PENTZ GUNTER*

Criar uma zona sem fogo em torno de Zaporizhzhia não seria suficiente. É preciso acabar com o uso da energia nuclear

Em meio a acusações dos lados russo e ucraniano de que a usina nuclear de Zaporizhzhia, no sudeste da Ucrânia, pode ser logo detonada ou poderia ser deliberadamente atacada durante a atual guerra no país, uma verdade absoluta permanece: as usinas nucleares são inerentemente perigosas.

Se as ameaças retóricas são reais ou não, ainda é assunto para debate. O que é incontestavelmente real é o perigo que uma central nuclear representa. Afinal, é por isso que os dois lados estão fazendo essas ameaças para assustar: porque o resultado seria largamente mortal. Se Zaporizhzhia fosse um parque eólico, nem sequer ele seria mencionado.

Cada reator nuclear contém um somatório radioativo letal no núcleo e nos reservatórios de combustível nos quais ele foi carregado, sendo então densamente embalado para que dure ao longo do tempo. Os barris, que também abrigam resíduos nucleares descarregados das piscinas de combustível, são também uma fonte de perigo.

Zaporizhzhia é a maior usina nuclear da Europa, com pelo menos 2.204 toneladas de resíduos altamente radioativos dentro dos reatores e dos reservatórios de combustível irradiado. Dependendo da gravidade do que acontece, todo esse combustível radioativo pode ser inflamado.

Em meio à confusão e à falta de confiabilidade de quaisquer dos pronunciamentos proferidos através da “névoa da guerra”, restam várias perguntas sem resposta que continuam levando ao aumento de boatos e das especulações:

A central nuclear de Zaporizhzhia foi, de fato, preparada para que seja detonada? Certos interesses seriam servidos pela explosão desse complexo? Por que há um êxodo de funcionários de fábricas russas e ucranianas? A sabotagem da barragem de Kakhovka, a jusante, que resultou em inundações catastróficas, levará a uma perda igualmente catastrófica do abastecimento de água de resfriamento disponível para os reatores e piscinas de combustível?

Será que os geradores a diesel de reserva, frequentemente usados para alimentar o resfriamento essencial cada vez que a usina perde a conexão com a rede elétrica, aguentarão as próximas crises? O seu combustível também deve ser reabastecido, mas isso seria potencialmente possível em condições de guerra?

Nenhuma dessas ameaças ganharia as manchetes se Zaporizhzhia fosse o lugar de um parque eólico ou de uma matriz solar em grande escala. Isso talvez explique a pressa agora em minimizar a gravidade da situação, com alegações na imprensa de que um grande ataque à usina “não seria tão ruim quanto Chornobyl” e que as liberações radioativas seriam mínimas e mal ultrapassariam as linhas próximas.

Trata-se de um ocultamento irresponsável dos perigos reais. A avaliação comedida do Dr. Edwin Lyman, teórico da Union of Concerned Scientists, confirma que um ataque a Zaporizhzhia pode realmente ser catastrófico.

O moderador de grafite usado em Chornobyl inegavelmente piorou o resultado daquela explosão, assim como as suas consequências. O grafite alimentou o fogo e a fumaça subiu muito o que espalhou mais, depois, a precipitação radioativa; esta viajou muito pela antiga União Soviética e por toda a Europa.

O papel desempenhado pelo moderador do grafite no aumento da gravidade do desastre de Chornobyl levou a uma suposição de que grandes incêndios e explosões em Zaporizhzhia resultariam em consequências menos graves, dado que os reatores não são do mesmo projeto. Todos os seis em Zaporizhzhia são VVERs russos, semelhantes ao Reator de Água Pressurizada, usados nos Estados Unidos. O de Chornobyl era o RBMK, considerado mais velho.

No entanto, embora Zaporizhzhia possa ser um design menos primitivo, não é inofensivo. Absurdamente, esses reatores dos anos 1980 são descritos na imprensa como “mais modernos”.

Se o combustível de urânio nos reatores de Zaporizhzhia ou as piscinas de armazenamento de combustível irradiado superaquecerem e inflamarem, ele poderia então aquecer o revestimento de zircônio ao seu redor, que se inflamaria e queimaria ferozmente como uma chama em temperaturas muito quentes para possa ser extinguida com água.

A reação química resultante também geraria um ambiente explosivo. O calor da liberação e quaisquer detonações subsequentes poderiam romper estruturas de concreto para, em seguida, lançar gás radioativo e precipitação no meio ambiente alterando o clima ao redor.

A precipitação radioativa pode contaminar terras agrícolas cruciais na Ucrânia e potencialmente também na Rússia, caso os ventos predominantes viajem para o leste no momento do desastre. Como aprendemos com as consequências de Chornobyl, este é um dano duradouro que entra na cadeia alimentar e nos corpos humanos e permanece prejudicial no meio ambiente indefinidamente, como exemplificado pela Zona de Exclusão de Chornobyl de 1.000 milhas quadradas.

Quem consome esse alimento também pode ser afetado de forma fundamental. Enquanto a Europa permite 600 becquerels por quilograma (Bq/kg) de césio radioativo em alimentos, os suprimentos de alimentos contaminados da Ucrânia têm níveis mais altos. E, após um desastre nuclear, poderiam ser exportados para países com padrões ainda mais baixos, incluindo os EUA, onde o limite é de no máximo 1200 Bq/kg. Mas será que aqueles que consomem esses alimentos serão contabilizados entre as vítimas do desastre nuclear, se isto ocorrer? Provavelmente não.

Os números reais dos prejudicados pelo desastre de Chornobyl nunca serão conhecidos devido à omissão institucional, à deturpação dos números e à ausência de registros nos países da antiga União Soviética. Portanto, sugerir que um grande desastre nuclear em Zaporizhzhia seria “não tão ruim quanto Chornobyl” é muito insensato e especulativo já que não olha para detalhes importantes.

As especificidades que se deve notar são do tipo: saber se o desastre envolve explosões de hidrogênio, como aconteceu em Fukushima; indagar se os incêndios resultantes de um bombardeio ou ataque de mísseis poderiam dispersar ainda mais a radioatividade. Também dependeria de saber se todos os seis reatores sofreram falhas catastróficas, se todas as piscinas de combustível foram drenadas, se pegaram fogo e se os barris de armazenamento foram rompidos.

O resultado dependeria ainda de que maneira o vento estava soprando no momento do estouro e, ademais, quando e onde subsequentemente choveu radioatividade. Ora, todos esses fatores formam influentes e importantes por ocasião da precipitação radioativa de Chornobyl.

Se o estouro de Zaporizhzhia vier a prejudicar a Europa, cada lado do conflito quase certamente responsabilizará o outro. Mas, em última análise, a responsabilidade que todos devem compartilhar é passar a rejeitar o uso contínuo de uma tecnologia que tem o potencial de causar consequências tão desastrosas para a humanidade.

A energia nuclear é a forma mais perigosa de ferver água. É desnecessário e caro; ademais, é um obstáculo para o desenvolvimento das energias renováveis. Está intrinsecamente ligada ao desejo – e ao desenvolvimento – de armas nucleares, cujo uso poderia ser o outro resultado letal desta guerra.

Zaporizhzhia é notícia quase todos os dias. A propaganda pode ser deliberadamente alarmista, mas a base para o alarme é muito real, em caso contrário, ela não estaria nas manchetes. É hora de ver o sentido de tudo isso. Criar uma zona sem fogo em torno de Zaporizhzhia não seria suficiente. É preciso acabar com o uso da energia nuclear.

*Linda Pentz Gunter é especialista em energia nuclear; editora e curadora de Beyond Nuclear International.org.

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente no portal Counterpunch.


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