Almas bárbaras

Carlos Zilio, O MOMENTO DO FERIMENTO, 1970, caneta hidrográfica sobre papel, 47x32,5

Por MARCIO SALGADO*

O assassinato de Moïse mostra que o sistema político que produziu a barbárie faz de conta que ela é fruto do acaso

As imagens do assassinato de Moïse, imigrante congolês espancado até a morte na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro falam por si, e não se trata de um fato raro o qual somos chamados a testemunhar, pois tragédias como esta são recorrentes em todo o país.

O nosso testemunho deveria contribuir para mudanças de rumo, porém, como disse o filósofo grego Heráclito de Éfeso (540 – 470 a.C.): “Para homens que têm almas bárbaras, olhos e ouvidos são más testemunhas”.

É verdade que de nada vale ter olhos e ouvidos perfeitos se não se quer enxergar e ouvir a realidade. Os brasileiros assistem com um misto de revolta e indignação, outros com total indiferença, à naturalização da barbárie. São monstros os que o mataram, a Justiça deve ocupar-se deles. Mas uma sociedade que alimenta o racismo, a xenofobia e o ódio ao que é diverso também é cúmplice deste ato.

O tempo atual apresenta-nos outras tragédias – individuais e coletivas – que não são exclusivas nossas, mas se disseminam mundo afora com a pandemia. O isolamento prolongado ensinou que o inimigo pode estar no próprio indivíduo, e que não é possível fugir de si mesmo.

No mundo em movimento de Heráclito o devir é a regra, que se expressa poeticamente no fragmento: “Não é possível entrar duas vezes na mesma água do rio”. Ou, conforme outra variação: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”. As águas que passam incessantes são sempre outras, bem como também o ser.

A pandemia nos mostrou o outro lado do rio. Durante dois anos – algumas batalhas vencidas, outras dolorosamente pedidas – ficamos isolados com a sensação de que tudo girava ao redor da mesma sala, na companhia de uma ou duas pessoas próximas. Mas é razoável supor que a repetição tenha-nos ensinado as lições das experiências trágicas, levando-nos a refazer a vida por outros atalhos, enquanto a correnteza de águas turvas do coronavírus alagava as margens do nosso convívio. Uma palavra do outro lado da linha bastava à sensibilidade.

As lives dos artistas, dos cientistas e de todos os que se aventuravam a dizer alguma coisa sobre o insólito da vida cotidiana durante uma pandemia entraram e saíram de moda, enquanto a população continuava a ver o perigo de contágio diante dos olhos com o surgimento das novas variantes. Não faltaram palavras de apoio, mas a repetição dos rituais virou um aborrecido mormaço.

O ser da mudança de Heráclito obedecia a uma lei universal que harmonizava as tensões. “Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”. No seu pensamento os opostos se encontram, assim como o arco e a lira. Essas oposições não se transformam numa desordem inconciliável, pois a unidade essencial do ser, como de todas as coisas, abriga a multiplicidade.

Não se pode assegurar com exatidão o significado de conceitos que datam de tempos tão distantes. No caso de Heráclito, as leituras baseiam-se numa intertextualidade quase sem fim. Hoje falamos em diversidade – cultural, étnica, religiosa, sexual – para traduzir a convivência entre grupos de indivíduos na sociedade. As vozes se harmonizam dentro de um mesmo espaço, com as divergências de praxe. Contudo, jamais devemos esquecer: o mundo tem muitos lados onde habitam as almas bárbaras.

A intolerância pode alcançar o indivíduo na primeira esquina, a sua reação ao diferente é violenta e brutal. O outro, que antes era invisível, agora transformou-se num elemento desafiador. Ele tem outra cultura, outros valores, outro jeito de estar no mundo. A sua presença é incômoda, o seu festejo uma ofensa e a sua reza uma heresia.

Há os que defendem a intolerância sem constrangimentos, inclusive nas mídias. Há poucos dias, o apresentador de um site com milhares de seguidores defendeu numa entrevista com deputados federais a ideia de que no Brasil deveria haver legalmente um partido nazista, além de estabelecer um debate com os nazistas. Fica a pergunta: no campo das ideias ou nos campos de concentração transformados em museus?

Não são raras as vezes em que se confundem propostas desse tipo com liberdade de expressão. Após defender o sistema que exterminou milhões judeus, o youtuber lançou um patético pedido de desculpas que pessoa alguma fora do seu círculo considerou. Era uma encenação para contornar o estrago, pois os patrocinadores do site de ideias pantanosas que dirigia bateram em retirada.

O sistema político que produziu a barbárie faz de conta que ela é fruto do acaso. Os crimes resultantes de discriminação ou preconceito estão previstos em lei, com punições rigorosas que deviam coibir a violência, afinal não foram elaboradas senão com este objetivo. No Brasil não faltam leis, mas a realidade é insuperável em seus recados.

*Marcio Salgado é jornalista e escritor. Autor, entre outros livros, do romance O filósofo do deserto (Multifoco).