Arqueologia de um homem pobre

Charles Sims, Eu Sou o Abismo e Sou Luz, 1928.
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Por PRISCILA FIGUEIREDO*

Arqueologia de um homem pobre

Analisando os restos de Context 958,
outrora um homem, talvez digno, talvez indigno,
os pesquisadores chegaram às conclusões que seguem:
teria vivido mais de 40 anos — um tempo bom para a época! —
e tinha graves problemas dentários,
estrutura muscular marcada a ferro,
o que sugere, agora como antes, uma vida árdua,
um trabalho, senão de merda, quase.

Seu esqueleto nos conta que se tratava de um
sobrevivente,
pois, hoje como outrora, nesse tipo se espalham
pequenas e médias lesões, indício claro
de dor e desastre.
Contudo, como ainda é comum de ver hoje em dia,
não sem confusão em nosso camarote, esse mesmo
desgaste contínuo não levara em linha reta à morte—
se assim o fosse, naturalmente o sujeito já
não seria chamado sobrevivente
(em todo caso lembremos: sobreviventes
também morrem, às vezes cedo).

Os cientistas ainda leram no osso rígido —
hieroglifo, caixa preta enfim aberta de sua vida —
que carne e peixe estavam sempre em sua mesa.
Como hoje, como no século 13, isso não é
corriqueiro entre os pobres.
Como explicar então que um homem sepultado
embaixo dum hospital para mendigos
tivesse comido tudo isso?
Só pode ser que ele trabalhasse — com isso —,
vendesse ou carregasse — tudo isso —e um pouco
quase por inércia caísse em sua mandíbula.

Também todo mundo no futuro há-de avistar,
em teu esqueleto assimilada, a sacola de ossos
que você corria buscar na terça,
a xepa de quarta e sexta-feira;
saberão do pedaço de carne vermelha
que religiosamente você surrupiava
carregando a refeição alheia.

*Priscila Figueiredo é professora de literatura brasileira na USP. Autora, entre outros livros, de Mateus (poemas) (Bem te vi).


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