Cidade Matarazzo

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Por PRISCILA FIGUEIREDO*

Considerações sobre o megaempreendimento que pretende trazer natureza e tranquilidade para uma S.Paulo cinza e concreta

A foto em contra-plongée, que pretendeu aumentar a monumentalidade do que já seria monumental, não é da Torre de Babel, nem da Escada de Jacó nem dos Jardins Suspensos da Babilônia. Tampouco de uma ruína romântica. De um reino de fadas no Senhor dos Anéis muito menos. É da Cidade Matarazzo. Mais especificamente, de um de seus mais sublimes edifícios, a Torre Mata Atlântica.

“Condomínio” não é um nome apropriado para o “lugar gerador de emoções, onde tudo é belo e possível”, como lemos durante o passeio virtual pelo site do projeto. Ora, a Wikipedia diz: “Cidade Matarazzo é um megacomplexo de luxo em construção localizado no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo”, “Arquiteto: Jean Nouvel”.

Que definição fria, nada poética. Não nos deixemos enganar, pois seu designado é mais que isso, já sabemos! Trata-se de um desfile pau-brasil de sonhos e alegorias. Não, talvez seja uma celebração pós-moderna. Em vídeos vemos arvores inteiras, não destituídas de suas raízes, voando para a construção, isto é, sendo trazidas por helicópteros. Moderno, pós-moderno, que importa nesta altura? O importante é ser feliz.

Conforme uma perspectiva, decerto equivocada, podemos ver aí um museu, um cemitério em que colocaram junto os cadáveres de Utopia, Poesia, Manifesto, Floresta, Beleza, Cidade. Não, os transpuseram para lá, como às árvores nativas, para sair do sufoco em que estavam. O ar lhes faltava. O condomínio é seu pneumotórax. Ou será sua Arca de Noé? Mas Noé só pensou nos seus, salvou o que lhe interessava e fechou a porta durante o vendaval inteiro. A Cidade Matarazzo boia no caos com as portas abertas e está interessada no Entorno, entidade com a qual ela dá as mãos. Convivialidade. Biodiversidade. Tolerância.

Mata Atlântica, Anish Kapoor, Mobiliário Brasileiro, “a atmosfera antiga do Antigo Hospital Umberto Primo”… Tudo mergulhado na mesma água igualadora e santa. Batismal. O prédio do Hospital Umberto Primo será agora um espaço para novas experiências. Laboratório do Novo Homem.

O empreendimento, a empresa, ou melhor, a Aventura, tem conceito, criadores. Até um manifesto criativo. E por que não, epígrafe! Uma frase de Leonardo da Vinci (este entra aqui como entidade, tal como Mata Atlântica e Mobiliário Brasileiro): “A perfeição não é um detalhe, mas é feito de todos” (todos o quê? onde está o termo plural antecedente? A incúria gramatical me faz duvidar, injustamente, da autoria da frase. Será mesmo Leonardo? Ora, um projeto tão sofisticado não ia bobear fazendo citações erradas ou maltraduzidas ou indevidamente atribuídas).

Claro, se eu falo em perfeição, penso no Renascimento italiano e logo em Leonardo. Um raciocínio claro e clássico. Para alcançar a perfeição pensou-se em todos os detalhes para uma vida boa, até inclusão racial — pelo menos tem uma bela modelo negra na propaganda, e aqueles que ela representa é lícito pensar que serão incluídos nesse complexo de luxo. A publicidade dissolve todas as dívidas históricas. Mas continuo sem entender a frase em si, que é anódina. Qualquer um podia ter dito aquilo, não precisava citar Leonardo! É o único reparo que tenho a fazer.

Acreditem, olhem no site do…. conceito, produto, obra de arte, utopia. Sim, não se esconde que é essa a ideia, e no coração dos Jardins, no coração da Paulista, no meio de “tudo” (este também uma entidade importante aqui). Até respeito à cidade de fora da cidadela tem (“respeito à cidade”, dizem uma hora no folder virtual).

Cidade Matarazzo é apenas o nome mais modesto da Cidade de Deus de Agostinho, da República ideal de Platão, do Eldorado etc. etc… Creiam-me, esse reino concreto-onírico – erguido durante a Pandemia! e não víamos – vai ser inaugurado, já tem suítes à venda, tem até um “Manifesto Criativo”. E reproduzo aqui um trecho seu: “Não, perdão, farei melhor ainda — vou reproduzir a citação que eles fazem do próprio manifesto em outro ponto do passeio virtual: “O Cidade Matarazzo não é só um projeto imobiliário de proporções jamais imaginadas, não é apenas um centro internacional único de arte e cultura, também não se limita a ser um inédito hub de moda e de marcas criativas. Não é só um hotel ou um endereço de qualidade sem par no país. Nem mesmo pode ser definido pela revitalização de uma enorme área verde num dos centros de negócios e de vida mais intensos do mundo. Matarazzo flutua num plano bem acima disso. Temos a pretensão de compartilhar com o Brasil e com o mundo um olhar mais aberto e leve, uma forma mais ousada e humana de interpretar o universo e de viver a vida”. (In: Manifesto Cidade Matarazzo).

Citação acadêmica, com In e tudo. Não há autores assinados, afinal é coletivo. Me esqueci de dizer que também se apresentam como Movimento, além de Lifestyle. Condomínio-movimento, inovador como os partidos-movimento. Perceberam a anáfora no Anúncio, melhor dizendo, Anunciação: não é só…, não é só… não é só…. Meu coração está batendo muito rápido agora… Ele flutua num plano muito acima de tudo isso, embora o inclua também. É a transcendência na imanência e a transcendência sozinha também. Ele vai além, parece tão concreto, mas é abstrato, volta a ser concreto para redimir a nossa selva selvaggia de pedra. Meu deus, “um olhar mais aberto e leve, uma forma mais ousada e humana de interpretar o universo e de viver a vida.”…. É também uma filosofia, ou melhor, um sistema filosófico, é também… O casamento do Céu e da Terra. É ainda a nossa contribuição ao concerto das nações.

Só mais um pequeno reparo além daquele sobre a frase de Leonardo: acho que estraga um pouco o nome “Matarazzo”. Me faz lembrar de macarrão, maizena, avenida feia e bolacha ruim no meio da Terra Prometida. Entendo que seja uma citação também, de burguesia de início do século XX que nesta altura é quatrocentona. Um século no Brasil vale por 400. Matarazzo equivale ao bandeirante atual do primeiro e heroico Modernismo, cujo centenário se celebra no corrente ano de 2022. Melhor dizendo, é a divindade totêmica de um novo coletivo, um coletivo que “flutua, num plano bem acima”. Entendo tudo isso, mas vou lembrar sempre de bolacha, Moinho Santista, avenida feia, chaminé industrial (não é o Masp que me vem à cabeça, não).

Se bem que, com tanta desindustrialização, melhor não reclamar muito. Indústria — prestemo-lhe homenagem aqui tal qual à Mata Original.

Se eu quiser escrever um poema sobre a natureza, é para a Cidade Matarazzo que eu vou e ali me sentarei à sombra de canelas e pessegueiros reencontrados.

“Conheces o país onde floresce o limoeiro?
Por entre a rama escura ardem laranjas de ouro,
Do céu azul sopra um arzinho ligeiro,
Eis que se ergue a murta calma, olha altivo o louro!
Conheces? Oh partir! Partir
Pra lá, contigo, Amado! Oh! Quem me dera ir!”[1]

*Priscila Figueiredo é professora de literatura brasileira na USP. Autora, entre outros livros, de Mateus (poemas) (Bem te vi).

 

Nota


[1] Trecho de “Canção de Mignon”, de J. W. Goethe, tradução de Paulo Quintela.

 

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