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Arrigo

LEDA CATUNDA, Janela com Babados, 1989, acrílica s/ couro sintético, madeira e plástico, 220x145cm
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Por CAIO NAVARRO DE TOLEDO*

Comentário sobre o livro recém-publicado de Marcelo Ridenti

Obras literárias, musicais, teatrais e filmes que tematizam conjunturas históricas e políticas – em que as esquerdas estiveram atuantes – são conhecidas na produção cultural brasileira.

Arrigo, obra ficcional, recém-lançada por Boitempo Editorial, se distingue de todas as demais na medida em que aborda os confrontos ideológicos, as lutas sociais e políticas e a resistência democrática protagonizados por lideranças e movimentos políticos das esquerdas brasileiras ao longo do século XX e nas primeiras décadas do presente século. Como se evidenciam por algumas das situações vividas pela figura central do romance, estes combates, por vezes, têm, inclusive, uma dimensão internacionalista (guerra civil na Espanha, resistência antifascista na França e Revolução dos Cravos em Portugal). Arrigo não é um só; nas esquerdas em todo o mundo, milhares são os Arrigos.

Desde menino, quando iniciado pelo tio anarquista, Arrigo, de peito aberto e sem hesitações, enfrentou os desafios que a vida lhe apresentou, fossem políticos, fossem de ordem afetiva. A partir da juventude, tornou-se um incansável militante comunista de muitas batalhas políticas e de frequentes conquistas amorosas. No Brasil e no exterior, experimentou frequentes derrotas, frustrações e dissabores no plano político e dos afetos, mas nunca baixou a guarda ou ensarilhou as armas. Para ele, a luta de classes e os conflitos no plano dos afetos estavam sempre abertos e seriam incompletos. Nenhuma derrota ou frustração pessoal ou política será definitiva. Recomeçar será sempre possível.

O extenso e abrangente cenário histórico e político interno do romance são as revoltas tenentistas, a formação do Partido Comunista Brasileiro, a atuação da ANL, a Revolução de 1930, a luta pelas reformas de base nos anos 1960, o golpe de 1964, a ditadura militar e a luta armada; de forma breve, o romance expõe os dilemas e os impasses experimentados pelas esquerdas no período da redemocratização.

Pela amplitude dos temas pesquisados e qualidade literária, Arrigo, a meu ver, passa a se constituir em uma das mais relevantes obras ficcionais políticas brasileiras. Escrito por um competente analista e criterioso pesquisador sobre a produção intelectual das esquerdas brasileiras, este livro, doravante, se imporá como uma leitura imprescindível da literatura política no país.

Por meio de uma escrita clara e cultivada, narrativa fluente, linguagem irônica e criativa, a obra é instigante e envolvente ao tematizar, de forma consistente e acurada, os desafios, as contradições, as angústias, as esperanças e os dramas enfrentados por mulheres e homens que, no Brasil e outras partes do mundo, se rebelam e se revoltam diante das opressões, discriminações e desigualdades sociais impostas pela ordem burguesa.

Arrigo é um romance que não resvala para panfletarismos, doutrinarismos ou sectarismos prevalecentes em certa literatura política de cunho humanista ou moralizante. É crítico, mas, sobretudo, comprometido e solidário com as lutas de homens e mulheres que não se submetem à ordem. Homens e mulheres, contudo, nunca idealizados/as ou heroificados/as, pois seus projetos políticos estão sempre sujeitos a dúvidas, equívocos e incertezas.

Talvez as sequências finais do livro – os desalentadores e cruéis desfechos de vida de vários companheiros de jornada; as recorrentes metáforas de escombros e destruições; o enclausuramento do próprio narrador no apartamento assombrado de um edifício decadente e o silêncio angustiante e enigmático do velho guerreiro (“vivo” ou “morto”?) – seriam evidências, ao fim e ao cabo, de uma batalha irremediavelmente perdida…

Tais sentimentos de desalento, ceticismo e derrota, talvez, sejam suscitados ao leitor; mas, a meu ver, em seu conjunto, Arrigo não deixa de ser uma homenagem a mulheres e homens cujas vidas e ações se identificam plenamente com as palavras do combativo poeta comunista alemão: Quem luta, pode perder. Quem não luta, já perdeu”.

*Caio Navarro de Toledo é professor aposentado da Unicamp e membro do comitê editorial do site marxismo21. É autor, entre outros livros, de Iseb: Fábrica de ideologias(Ática).

Referência

Marcelo Ridenti. Arrigo. São Paulo, Boitempo, 2023, 256 págs (https://amzn.to/3QFmDee).


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