Arrigo

Imagem: Jenny Olsson
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Por RODRIGO SUZUKI CINTRA*

Comentário sobre o romance de Marcelo Ridenti

“No âmbito do marxismo, a ligação entre literatura e sociedade não é uma audácia, é uma obrigação” (Roberto Schwarz).

Intelectuais de origem acadêmica, às vezes, quando fazem sua passagem para o território da arte, assombram, com seus conhecimentos, as letras por produzirem obras que têm repertório temático mais arrojado, pois, talvez, como sintoma da profissão cotidiana, levam a produção textual literária não apenas como exercício de estilo, mas, além disso, também a reposicionam a título de projeto de invenção.

Marcelo Ridenti, professor titular de sociologia da Unicamp, conhecido por seus estudos sobre a história social da esquerda no Brasil, fez sua estreia na literatura com o romance Arrigo (Boitempo), e, de quebra, produziu uma novidade no cenário literário pátrio, que tem se mostrado bem pouco afeto às obras de audácia. De caso pensado ou não, Arrigo é um dos raros romances dialéticos brasileiros do século XXI.

Essa característica peculiar do resultado final de apresentação de Arrigo para os leitores, que parece ser essencial para sua interpretação e fruição, não se percebe como uma teima de intelectual em repetir na arte o conhecimento da ciência. Marcelo Ridenti compõe o romance com maestria imaginativa e se a formatação dialética transpira no texto como ganho artístico, não é por ser uma mera experimentação professoral de suas possibilidades. Pois, o que está em jogo é que Marcelo Ridenti é um autor sofisticado de ficção, e sua erudição de professor está a serviço e comando da pena de artista, apesar do conhecimento técnico de cientista, presente em todo o romance, nos encantar na leitura para além da diversão do entretenimento pela fantasia, mas também pela capacidade de ensinar sobre temas históricos menos conhecidos, nos quais o autor transita tão bem.

É curioso que os romances dialéticos mais importantes do século XIX e XX no país sejam estruturados como “memórias”, e Arrigo, se não tem no título essa pretensão, se arquiteta, no modo narrativo estratégico, também como uma ficção de memórias.

Foi Antonio Candido quem interpretou Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, em seu ensaio “Dialética da malandragem”, como um romance que opera a dialética entre ordem e desordem. Sem fazer pastiche da tradição filosófica e sociológica da dialética, o nosso crítico enredou uma crítica original desse romance que explicava as contradições do próprio século XIX, sobretudo no ambiente urbano do Rio de Janeiro, a partir do encontro da dialética na estrutura literária do romance, “na lei de sua intriga”.

E, sem alarde, identificava no personagem principal, Leonardinho, a figura do malandro, que, apesar de não ser pícaro como na tradição europeia, representava, a sua maneira, um modo de tráfego social urbano, uma ginga na vida, próprio às classes sociais que viviam remediadas no sistema do capital brasileiro da época. Por meio do ensaio dialético de Antonio Candido, que inaugurava por aqui uma crítica materialista que partia da obra literária para atingir um contexto, compreendemos como o romance de Manuel Antônio de Almeida, elaborado na forma ficcional, ilustrava a realidade social do ambiente urbano brasileiro de seu tempo. O texto crítico de Antonio Candido implicava o romance, ao mesmo tempo em que explicava o Brasil.

Quando Oswald de Andrade, na experimentação própria do modernismo, escreveu Memórias sentimentais de João Miramar (1924), elaborava o primeiro romance dialético do século XX. Pois existia quase que uma impostura em narrar a vida do personagem burguês paulistano, herdeiro da cultura do café, por meio de uma forma literária absolutamente avessa às narrativas clássicas burguesas. Uma mescla de gêneros, que transitava do poema ao artigo jornalístico entre outros, aparecia em fragmentos breves, os capítulos, e operava a dialética entre a forma literária de composição e a vida do burguês tradicional de um modo extremamente incomum e próprio aos anseios de revolução artística do modernismo.

Era um romance que também explicava as contradições de uma época e que continha, na formatação interna de sua estruturação difícil e revolucionária, a própria essência da decadência burguesa de seu personagem principal. Um livro que capturava a passagem da realidade social e política brasileira da cultura do café em transição para um Brasil moderno. Assim, claro, era uma ficção que tinha a obrigação de ser menos comportada.

Marcelo Ridenti, estudioso da história teórica e revolucionária da esquerda no Brasil, sabidamente teve que lidar com a dialética, tema caro às tradições marxistas, em sua vida acadêmica. Mas, sem ser livro de tese, por óbvio, Arrigo se perfaz enquanto uma obra dialética literária por meio de uma forma intrincada e eficiente, que sem ser chata, permite, inclusive, ao sociólogo resgatar o processo histórico das lutas de esquerda no Brasil como o chão material por meio do qual a temática se desenrola ao longo do romance.

Em uma visita ao apartamento do camarada Arrigo, personagem principal que é composto de fantasia e historicidade real e que dá título ao romance, o narrador acaba ficando preso no domicílio e resolve, como em uma contação de estórias em flashback, terminar um antigo projeto: narrar as aventuras e desventuras de Arrigo, o velho militante de esquerda que participou, de várias maneiras diferentes, de quase todas as lutas e revoltas que aconteceram no século XX no país e no exterior.

Arrigo encontra-se inerte em uma cadeira de balanço, talvez vivo ou talvez morto, uma reprodução de uma tela de Delacroix ornamenta a sala, A liberdade guiando o povo, a porta de entrada na residência está emperrada e, tudo isso, produz no narrador mais do que a vontade de contar um pouco sobre a vida de Arrigo, mas, a oportunidade perfeita para organizar as memórias de um personagem singular, que tanto admirou como despertou sua curiosidade.

Pois, Arrigo teria participado, na lógica de coadjuvante anônimo da história, desde a greve geral de 1917, em São Paulo, até os episódios da trágica manifestação do pensamento conservador e de direita no início do século XXI na política e sociedade brasileira. O personagem teria sido testemunha histórica e combatente esperançoso na intentona comunista, de 1935, nas brigadas internacionais na Espanha, na resistência francesa durante o período da Segunda Guerra Mundial, na confrontação da ditadura de Getúlio, na luta contra a ditadura militar instaurada aqui a partir de 1964.

Mas, na construção do personagem Arrigo, que bem pode ser pensada como uma homenagem a uma personalidade real de nossa brasilidade mais combativa, o camarada Apolônio de Carvalho, o que parece chamar a atenção não é, de forma alguma, uma proposição em que ele seja um símbolo de qualquer coisa. Talvez, a figura de linguagem que mais seja chamada a serviço para caracterizar Arrigo não seja sua perspectiva de metáfora, mas, sim, sua amplitude metonímica.

Existiram e existem muitos “Arrigos” nesse país. Muita gente desconhecida que lutou esperançosamente contra as formas de opressão tão características do desenrolar do capitalismo no subdesenvolvimento. Arrigo, o personagem individual de quem se conta a história, é a representação ficcional de um coletivo, os muitos camaradas que participaram com paixão da mesma doença: uma vontade de liberdade e uma sensação de igualdade entre os homens.

Essa dialética entre o pessoal e o coletivo, que na inventividade de composição do personagem específico exprime todo o conjunto dos camaradas esquecidos pela história, organiza uma forma de contar memórias em que as paixões revolucionárias, a vida familiar, a lógica do trabalho e até os afetos amorosos mais próprios se transformam, apesar de se manifestarem como lembranças particulares, no movimento da experiência coletiva de vida dos anônimos engolidos pelo capital. E sem ser personagem simbólico de nada, o que facilmente podemos encontrar em muitos romances, Arrigo é um personagem de síntese, em que no percurso individual podemos encontrar a cadência da história de uma coletividade.

E é assim que da subjetividade individual e pessoal de um único homem, Arrigo, por meio de suas memórias, passamos à objetividade da história social do Brasil, em especial as lutas de esquerda, e a dialética se propõe da construção do particular ao universal. Esse é um dos modos de construção do romance pelos quais o professor Marcelo Ridenti repropõe a memória técnica de cientista social como elaboração formal inventiva de ficcionista. No ritmo próprio desse fazer artístico, passamos da literatura para a realidade social, e não o contrário.

 A história da dialética no pensamento humano é longa, repleta de conceituações e reviravoltas e não é um termo fechado e exaurido, pronto para utilização. Um conceito arredio que começa ali com Aristóteles, tem tratamento de falácia em Kant, é uma explicação lógica e ontológica de mundo em Hegel, e virada do avesso por Marx, conforma tanto a relação das ideias com a materialidade das coisas, um método científico e o próprio caminhar do desenvolvimento da história. Na arte, é claro, ela tem outros modos de aparição e maneiras mais autorais de reverberação pois brota, nas obras, da fantasia humana, da inventividade de trazer um imaginário subjetivo aos olhos de terceiras pessoas.

Porém, se existem duas características mais permanentes na tradição desse conceito, sem sombra de dúvidas, elas orbitam em torno da ideia de oposição, às vezes contradição, e da relação entre o particular e o universal.

O romance de Marcelo Ridenti acompanha a história do Brasil, mostra o movimento das oposições em jogo na política, sociedade e cultura no século XX, uma narrativa material de nossa história, mas se propõe como obra dialética não por explicar nosso itinerário pátrio pela oposição entre as forças revolucionárias e as forças opressoras que aqui se deram, mas, sim, por transformar a “história” em “estória” e providenciar ao aspecto formal do texto o compasso do vai-e-vem que nos explica e atordoa.

E sem demonstrar muito ao certo se é o contexto brasileiro que produziu o homem Arrigo, ou se são os Arrigos do país que compõem e tornaram possível nossa história, Marcelo Ridenti brinca com a relação entre particular e universal ao propor as memórias de um personagem como desculpa e motivo para discorrer sobre as memórias da nação.

O Arrigo inerte, talvez vivo, talvez morto, assim, se transforma em um dos achados mais potentes do livro. Se a nossa história não acabou ainda, o que é certo, a inercia do personagem, que acreditamos não se resolver inequivocamente até o fim da obra, pode apontar tanto para o eclipse das paixões revolucionárias, uma visão pessimista contra quem luta contra o poder, como para um lampejo de esperança em que nossos heróis combatentes ainda não morreram.

O melhor, nesse caso, é esperar que Arrigo esteja apenas descansando, na sonolência merecida de quem muito realizou, mas, que está pronto para se levantar da cadeira de balanço, se um chamado de urgência exigir.

*Rodrigo Suzuki Cintra é professor titular da Faculdade de Direito da Universidade Paulista (Unip).

Referência


Marcelo Ridenti. Arrigo. São Paulo, Boitempo, 2023, 256 págs (https://amzn.to/44oQQ4x).


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