Os polos de poder

Katherine Sophie Dreier (1877–1952), What of It, 1939.

Por LUÍS FERNANDO VITAGLIANO*

A questão então não está em emplacar uma alternativa de centro ao debate político brasileiro, mas é uma batalha no campo da direita

Quando um cientista político ou algo do gênero defende que existe a possibilidade de inserir um centro entre os polos de direita esquerda no Brasil existem apenas duas alternativas para processarmos esta análise forçada: ou este especialista tem completa ignorância a respeito do processo político do país; ou ele simplesmente é um dissimulado que quer a audiência da grande mídia. Obviamente é mais crível a segunda que a primeira hipótese. Por isso, tomemos cuidado para não nos influenciarmos pelas falsificações e contribuirmos para que aberrações forçadas configurem a realidade. Por isso, este texto pretende discutir estas quatro variáveis da conjuntura política brasileira atual: a) a possibilidade de uma alternativa chamada “centro”; b) os polos considerado extremos; c) a dissimulação a respeito da terceira via; d) finalmente, a ignorância a respeito das eleições.

A questão do centro no Brasil complica-se pelo fato de termos o Centrão. É um erro ignorar o Centrão, mesmo que não o possamos considerar exatamente como o centro de gravidade do sistema político, algo que circula entre direita e esquerda ideologicamente. O chamado Centrão tem como principal objetivo ocupar espaço na máquina pública para financiamento de campanha e manutenção dos seus espaços de poder. Não tem e não terá representante à presidência da república. Ao mesmo tempo, o Centrão (para além das críticas fisiológicas que nós podemos ter a respeito da sua conduta e ética) como elemento pragmático da democracia brasileira, força o executivo negociar e amenizar seus impactos centralizadores, mas não tem efeito nos rumos da direção política escolhida no executivo.

É próprio do Brasil essa configuração. Em perspectiva internacional, centro clássico é aquele para o qual caminhou a esquerda e amenizou sua agenda revolucionaria para uma socialdemocracia ou agenda de bem-estar social que o liberalismo implementou. Mas, uma coisa são as categorizações teóricas, outra coisa é como essas categorizações se manifestam na vida cotidiana e partidária das realidades nacionais. O estado de bem-estar social no Brasil se manifestou a partir do corporativismo varguista e do liberalismo de preocupação social que esteve presente em alguns dos seus elementos no próprio regime militar – que se propôs a ter elementos sociais sem democracia.

Pois bem: sem um centro clássico na disputa, o que nos resta? O centro da política no Brasil tem a ver com certa democracia social liberal, que ao mesmo tempo não confronta o regime de forma direta, mas tem um elemento de combate às desigualdades e de redução do impacto da pobreza e da miséria do país.

Após a constituição cidadã de 1988, os polos que se configuraram foram: o desenho neoliberal da direita depois de 1989 com Collor apoiado pelo PFL (hoje DEM), este ultimo tornando-se o representante da direita econômica no Brasil. O PSDB, que se lança como socialdemocrata, tem uma trajetória em direção a esse neoliberalismo numa coalizão PSDB-PFL no governo Fernando Henrique. Já o PT sai do polo da esquerda reformista e caminha no sentido de um estado de bem-estar social. Entre os governos Fernando Henrique e Lula é o PT que toma espaço de centro, embora manha parte do discurso e das alianças com setores da esquerda social. O PT de 2002 amplia sua base de esquerda, atinge o centro e caminha até uma parte do liberalismo com aliança entre Lula e José Alencar.

A ocupação do centro

Toda essa digressão serve para justificar a seguinte constatação: historicamente o Brasil não tem um centro pendular ideológico consistente no sentido do discurso moderado e com lideranças políticas capazes de conduzir um debate. Em segundo lugar, o percurso apresentado pelos partidos políticos nos leva a perceber que o PT ocupou o espaço do centro sem deixar de manter a sua hegemonia esquerda (a disputa que o PSOL realiza com PT ou que Ciro Gomes tentou antes da França ainda não constituíram alternativas à esquerda). Enquanto o PT teria se deslocado ao centro, e sustentado sua base na esquerda, os partidos de centro caminharam para o fisiologismo politico predatório e os partidos de raízes social democracia abraçaram o neoliberalismo.

Portanto, não existe terceira via tal qual se pretende anunciar. Porque não tempos polos opostos entre Lula e Bolsonaro. Lula já ocupou o centro e as propostas de centro e o próprio Centrão, que representa a moderação entre direita e esquerda, não se interessa por uma candidatura competitiva que o unifique. Além disso, o que se quer com os partidos que se colocariam ao centro são alternativas neoliberais de direita.

Os polos de poder

A questão então não está em emplacar uma alternativa de centro ao debate político brasileiro, mas é uma batalha no campo da direita: entre a direita neoliberal e a direita negacionista. E se esse discurso radicalizado de mercado atinge o eleitor mediano – coisa que não há 20 anos ou 5 eleições. O partido que foi retirado do segundo turno das eleições e que ocupava desde 1994 foi o PSDB. PT pode ter perdido a ultima eleição, mas não perdeu a hegemonia de um campo político que hoje é o do centro e esquerda. Não porque é uma esquerda moderada, mas por que ocupa o campo da esquerda e o campo do centro. Isso porque tem algumas propostas de transformação e muitas propostas de moderação. Já Bolsonaro foi um fenômeno disrruptivo que ocorreu de modo tão singular, que sua eleição deslocou o sistema ideológico à direita. Então, não precisou pregar moderações de centro.

Isso nos leva a questão seguinte deste artigo: a discussão a respeito de polos. Política e disputa de poder não tem haver com imã que são polos os opostos que se repelem ou se atraem. A polaridade de poder significa espaços e órbitas as quais grupos se aglutinam. Não necessariamente há simetria. Não necessariamente esses polos são diametralmente opostos. O melhor exemplo disso são os Estados Unidos: republicanos e democratas são os dois polos de poder daquele país e não são diametralmente opostos. Pode discutir lá, por exemplo, porque uma esquerda antissistema não consegue avanço, mas não pode se dizer que naquele país os dois polos ocupam, lados opostos da disputa.

Supor que Lula e Bolsonaro não polos assimétricos é um erro sem sustentação real. São polos porque concentram representação popular, engajamento políticos de altíssima densidade e que nenhuma outra representação política no país atingir o mesmo grau de aglutinação. O “erro” nessa história é supor que ao falar que Lula e Bolsonaro representam extremos por serem polos. São polos, um está ao extremo, o outro ocupa uma margem grande entre esquerda e centro.

Qualquer proposta de centro vai ter que disputar com Lula a sua audiência. Qualquer proposta neoliberal vai ter que disputar com Bolsonaro a sua audiência. Não existe neste espaço uma terceira via. Um centro neoliberal não existe porque não tem espaço. A terceira via (que é uma proposta moderada já está sendo ocupada) da grande mídia e das elites econômicas não faz sentido porque é em essencialmente neoliberal. É isso que dá deixar a política na mão dos marqueteiros de plantão. O conservadorismo negacionismo do Bolsonaro não rechaça o neoliberalismo e qualquer proposta neoliberal que levou o PSDB, por exemplo, a ganhar duas eleições, porque vai ter que se sobrepor a Bolsonaro.

Sabemos que isso não vai acontecer. Bolsonaro mexeu com o sistema político brasileiro porque deslocou o debate à direita. Diferentemente de Lula que caminhou para a direita para dialogar com esse eleitorado, a comunicação eleitoral de Bolsonaro deslocou o sistema político para a direita – obviamente aproveitando-se de um contexto nacional e internacional favorável. Isso pode ser ventania, mas a ventania hoje habita o Palácio do Planalto e o bolsonarismo é a força hegemônica da direta hoje e concentra o discurso e os mecanismos de comunicação.

O discurso oficial da biogênese do centro

Resta-nos discutir porque alguns supostos especialistas insistem na tese da terceira via? Para responder essa pergunta há duas justificativas. Primeiro, as mesmas elites que defendem uma alternativa de centro querem aceitar o que é centro. O centro não está em um discurso pasteurizado com fundamento no neoliberalismo. O centro está na moderação da pratica de mercado e de Estado. Na regulação do trabalho, da renda, mas politicas sócias e de cidadania. Ser menos estúpido que o Bolsonaro não é sinônimo de moderação.

Como não há nada de concreto a construir em termos de projeto, precisam encontrar pessoas que reverberam de modo racional e rebuscado esse discurso na expectativa de transformar o vazio em realidade. Nesse momento entra o segundo motivo pelo qual se insiste em uma terceira via: quem quer ter audiência na grande mídia tenta emplacar o discurso. É a estratégia da previsão que manipula a realidade. Na esperança de repetir isso de várias formas e faz com que as pessoas acreditem que possa ser verdade e assim construir a própria realidade futura a partir das crenças construídas. O resultado de tudo isso até agora é pobre e associa uma elite auto enganada com a ideia de que tem benevolência social e uma classe pseudointelectualizada sedenta por reconhecimento e visibilidade.

A construção da narrativa

Concretamente sabemos que entre o neoliberalismo do Paulo Guedes não distancia e não se pode incluir um meio termo para o neoliberalismo do Armínio Fraga. Isso é facilmente demonstrável. Quem tenta mostrar que há diferenças nisso tem má índole ou ingenuidade. Porque a diferença esta na pauta dos costumes, nos valores e na insistência da base social.

Mas, sempre há o risco de formar agenda e se deixar enganar para ficar meses discutindo alternativas as polaridades atuais. É uma aposta na capacidade de formar opinião que aposta a grande mídia, acreditam que a construção da narrativa pode abrir caminho para a construção real de uma alternativa que roube espaço de um ou outro polo. O problema disso é que se tanto Lula quando Bolsonaro tem bases consolidadas e são referências, têm dialogo e sustentação política.

Na cabeça dos marqueteiros basta ter discurso e um bom nome. Mas o resultado encontrado só mostra que essas alternativas artificiais patinam, principalmente porque não conseguem encontrar representantes com a capacidade de diálogo popular que ambos os polos têm. Para justificarem o fracasso usam outro subterfúgio: que estão enfrentando líderes populistas. Mas o populismo é outro conceito errático que utilizam para manipular, buscar a eficiência do discurso e promover os caçadores de audiência e manipuladores de narrativas.

*Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.