As inseparáveis

Imagem: João Nitsche
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Por ANNABELLE BONNET*

Comentário sobre livro inédito de Simone de Beauvoir recém publicado

“Se estou com lágrimas nos olhos esta noite, é porque você morreu ou é porque eu estou viva?”. Assim começa o livro inédito de Simone de Beauvoir, Les inséparables (As inseparáveis), publicado pela primeira vez em outubro de 2020 na França pela sua filha adotiva, Sylvie Le Bon de Beauvoir, mas redigido em 1954.

Nesse romance biográfico, a filósofa volta entre nós no tempo ao narrar sua longa e profunda amizade com Elisabeth Lecoin, “Zaza”, um dos encontros que mais marcou sua juventude. O contexto da redação da obra se mostra, portanto, muito peculiar.

Escrito após mais de vinte anos de tormentos devidos à morte prematura, brutal e misteriosa da sua brilhante amiga em 1929, aos vinte e um anos, a pensadora opta, em 1954,por usar a escritura ficcional para se despedir da amiga. Recorre, num estilo que lhe é próprio e que atravessa o conjunto da sua obra, a forma romance, a qual mescla elementos biográficos, pensamento filosófico e crítica social.

Até então, o público conhecia o papel de Zaza na vida de Simone Beauvoir graças as suas memórias de juventude, que se encerravam com a morte brutal da amiga. “Juntas nós tínhamos lutado contra um destino hostil, e pensei por muito tempo que tinha pago o preço da minha liberdade da sua morte” [1]. À luz da redescoberta do romance hoje publicado, esse final toma uma dimensão mais plena.

Ele constitui, neste sentido, uma fabulosa oportunidade de redescobrir a complexidade do pensamento beauvoiriano, a própria trajetória intelectual e pessoal de Simone de Beauvoir como filósofa feminista, bem como o seu processo de apropriação e de compreensão da questão da opressão específica às mulheres na sociedade burguesa, atravessada pela crise do liberalismo do início do século XX.

Através do destino trágico da amiga, Simone de Beauvoir oferece de fato um retrato da perda de sentido da vida das mulheres numa sociedade que as impede de existir por e para si próprias. Zaza, desprovida de controle sobre a sua própria existência, aparece assim como polo contrário do caminho percorrido por Simone.

Enquanto a segunda rompe progressivamente com o seu meio social de origem, ganha independência financeira e se realiza na filosofia, Zaza se encontra cada vez mais presa num universo social e familiar da elite francesa penetrado pelos pensamentos irracionalistas e autoritários dos anos 1920, e dentro do qual as mulheres constituem apêndices, sendo apenas consideradas como transmissoras do patrimônio familiar, administradoras de casa e representantes do seu meio nos encontros fora de casa.

O encontro consigo própria se torna impossível para a amiga, e só chegará a se realizar na morte. Ao mesmo tempo amiga real, lembrança do passado e personagem literário, Zaza se torna-se, portanto, nesta obra, símbolo do sufocamento psíquico e físico das mulheres pela sociedade burguesa, esmagadora das subjetividades até a asfixia à qual não sobreviverá, e que a filósofa nunca mais deixará de combater.

*Annabelle Bonnet é doutora em sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris. Pesquisadora de pós-doutorado do Programa de pós-graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGPS-UFES).

 

Referência


Simone de Beauvoir. Les inséparables. Paris, L’Herne, 2020.

Nota


[1] Memórias de uma moça bem-comportada. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2017 (1958)

 

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