As marcas de nascença

Imagem: Robert Rauschenberg
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por SERGIO GONZAGA DE OLIVEIRA*

Poema e comentário sobre as diversas desigualdades que prevalecem no Brasil

 

Lembrem das avós
Abatidas transtornadas
Lembrem das mães
Exaustas apressadas
Lembrem das filhas
Acuadas desamparadas
Lembrem das irmãs
Grávidas violentadas
Das netas…
Tristes crianças
Assustadas

Pensem nas mulheres
No acalanto da vida
No útero ancestral

Mas não se esqueçam da violência
Dos abortos clandestinos
Dos cárceres privados
Das esquinas degradadas
Do chão duro das ruas
No frio da madrugada

Pensem nas ilusões contidas
Nos empregos, exploradas
Nas filas intermináveis
Nas casas enlameadas
Nas promessas não cumpridas
Nas mortes anunciadas

Pensem nos sonhos negados
Na dor dos filhos largados
Na roda dos enjeitados

Lembrem dos filhos perdidos
Para a guerra das milícias
Nas batalhas com a polícia
Nas rotas sujas do tráfico

Mas não se esqueçam
Não se esqueçam…
Dos lucros nunca taxados
Dos juros inexplicáveis
Das dívidas impagáveis
Marcando a desigualdade

Dos olhos que não enxergam
Um sistema alucinado
Fonte de tanta maldade[1]

 

Comentário

De acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, publicado em 2020 e baseado na PNAD-C de 2019, metade da população brasileira vive com um valor inferior ao de um salário mínimo. Pode-se afirmar que a maioria vive na pobreza ou em seu entorno. Quando se cruzam as informações de raça, gênero e renda os dados são chocantes.  As mulheres negras se destacam entre os mais pobres. Embora sejam 28,7% da população total, são 39,8% entre os muito pobres e 38,1% entre os pobres. As mulheres negras, sem cônjuges, com filhos e filhas menores de 14 anos para criar, são os arranjos familiares que mais sofrem com a desigualdade. Segundo o IBGE, esses grupos concentram a maior incidência de pobreza, sendo 86,4% pobres ou extremamente pobres.[2]

*Sergio Gonzaga de Oliveira é engenheiro pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Notas


[1] Esses versos têm como inspiração a belíssima estrutura poética de Rosa de Hiroshima de Vinícius de Moraes escrita em 1946. Cometi essa transgressão para me unir aos protestos contra as más condições de vida da maioria das mulheres na sociedade brasileira, especialmente as negras e pobres que mais sofrem com a violência cotidiana. Peço perdão aos amantes da poesia de Vinicius por essa ousadia.

[2] Esses dados foram analisados com mais detalhes no artigo “O nó que não desata” que publiquei no blog Democracia e Socialismo em agosto de 2021.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Roberto Alves Matheus Silveira de Souza Ronald León Núñez Thomas Piketty Marjorie C. Marona André Márcio Neves Soares Eugênio Trivinho Marilia Pacheco Fiorillo Leonardo Boff Tadeu Valadares Valerio Arcary Boaventura de Sousa Santos Jean Marc Von Der Weid Paulo Martins Afrânio Catani Ladislau Dowbor Bento Prado Jr. Ricardo Abramovay Jorge Luiz Souto Maior Bruno Fabricio Alcebino da Silva Benicio Viero Schmidt Sandra Bitencourt Luiz Carlos Bresser-Pereira Carla Teixeira Gabriel Cohn Kátia Gerab Baggio Airton Paschoa Paulo Nogueira Batista Jr Marcelo Guimarães Lima Lorenzo Vitral Maria Rita Kehl Celso Frederico Milton Pinheiro Luiz Marques Leonardo Sacramento Antonino Infranca José Machado Moita Neto Denilson Cordeiro Alysson Leandro Mascaro Daniel Costa Vanderlei Tenório Remy José Fontana Lucas Fiaschetti Estevez Eleonora Albano Marcus Ianoni Eugênio Bucci Anderson Alves Esteves João Carlos Loebens Marilena Chauí Francisco Pereira de Farias Andrew Korybko Slavoj Žižek Ronald Rocha Rodrigo de Faria Francisco de Oliveira Barros Júnior Marcos Aurélio da Silva Dennis Oliveira Michael Roberts Fábio Konder Comparato Anselm Jappe João Adolfo Hansen Otaviano Helene José Geraldo Couto Samuel Kilsztajn Érico Andrade Marcelo Módolo Juarez Guimarães Ari Marcelo Solon Luiz Werneck Vianna Flávio R. Kothe Antônio Sales Rios Neto Elias Jabbour Yuri Martins-Fontes Dênis de Moraes Daniel Brazil Ricardo Fabbrini Marcos Silva Walnice Nogueira Galvão Sergio Amadeu da Silveira Celso Favaretto José Luís Fiori Manuel Domingos Neto Heraldo Campos Priscila Figueiredo Ricardo Antunes João Sette Whitaker Ferreira Paulo Sérgio Pinheiro Vladimir Safatle Lincoln Secco Eduardo Borges Luiz Renato Martins Luciano Nascimento Gilberto Maringoni Gilberto Lopes Antonio Martins Plínio de Arruda Sampaio Jr. Renato Dagnino Julian Rodrigues Igor Felippe Santos Alexandre Aragão de Albuquerque Liszt Vieira José Raimundo Trindade Luiz Eduardo Soares Claudio Katz Vinício Carrilho Martinez Jorge Branco João Paulo Ayub Fonseca Leda Maria Paulani André Singer Gerson Almeida Tales Ab'Sáber José Costa Júnior Salem Nasser Bruno Machado Daniel Afonso da Silva Chico Whitaker Rafael R. Ioris Tarso Genro Annateresa Fabris Valerio Arcary Ricardo Musse Jean Pierre Chauvin Luís Fernando Vitagliano Fernão Pessoa Ramos Caio Bugiato Ronaldo Tadeu de Souza José Micaelson Lacerda Morais Mariarosaria Fabris Osvaldo Coggiola Michael Löwy Luiz Bernardo Pericás Fernando Nogueira da Costa Leonardo Avritzer Eleutério F. S. Prado João Lanari Bo Andrés del Río Bernardo Ricupero Eliziário Andrade Berenice Bento Armando Boito Henri Acselrad Francisco Fernandes Ladeira Everaldo de Oliveira Andrade João Carlos Salles Luis Felipe Miguel Rubens Pinto Lyra Henry Burnett Michel Goulart da Silva José Dirceu Atilio A. Boron Manchetômetro Paulo Capel Narvai Carlos Tautz Alexandre de Freitas Barbosa Alexandre de Lima Castro Tranjan João Feres Júnior Flávio Aguiar Chico Alencar Paulo Fernandes Silveira Mário Maestri

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada