Bartleby, o escrivão: Uma história de Wall Street

Imagem: Marco Buti / Jornal de Resenhas

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro de Herman Melville

Herman Melville (1819-1891) ficou conhecido como autor de Moby Dick, ou a Baleia Branca, surgido em 1851. Por mais romances, novelas e contos que tenha escrito, qualquer pessoa hoje se lembra apenas de seu livro sobre a enorme baleia assassina, que virou inclusive filme dirigido por John Huston (1956), com Gregory Peck no papel do terrível e obstinado capitão Ahab.

Nascido em agosto de 1819 em Nova York, Melville embarcou aos 18 anos, como camareiro, num navio cujo destino era a Inglaterra. Aos 22, engajou-se na tripulação de um baleeiro para uma viagem de quatro anos pelos mares do Pacífico, tendo desertado ao fim de um ano e meio em protesto contra o tratamento desumano a que o capitão submetia seus tripulantes. Logo em seguida, nas ilhas Marquesas, foi capturado por canibais, que o obrigaram a quatro meses de trabalhos forçados.

Esta terrível experiência forneceu o tema de seu primeiro livro, Typee, uma olhada na vida Polinésia ou quatro meses de permanência num Vale das Marquesas (1846). No ano seguinte publicou Ommoo, uma narrativa de aventuras nos Mares do Sul e, no mesmo ano de 1851, Moby Dick e Túnica branca ou o mundo num homem-de-guerra. Estranhamente, Moby Dick foi ignorado ou mal-compreendido pela crítica e pelos leitores, começando sua popularidade a declinar.

Em 1853 lançou o romance Pierre, “pessimista e trágico”, que fez com que ficasse ainda mais esquecido. Tanto é assim que Melville não conseguiu estabilidade econômica para prosseguir a sua obra, tendo sido forçado a escrever “romances seriados”, novelas e contos para revistas da época. Daí a queda da qualidade das obras que se seguiram: o romance Israle Potter e as histórias reunidas no livro Piazza Tales (cf. apresentação de Sabino). Depois disso, outra obra sem importância (1856), tendo Melville deixado de escrever por longos anos, terminando seu último romance, Billy Budd (só publicado em 1924 e considerado seu melhor trabalho depois de Moby Dick), pouco antes de morrer.

Bartleby, o escrivão: Uma história de Wall Street é uma novela sintética, em que a linguagem se adequa admiravelmente ao espírito do velho narrador da história de Bartleby, um competente advogado de mais ou menos 60 anos que mantinha movimentado escritório em Wall Street com o auxílio de três empregados (dois escriturários e um mensageiro) antes da chegada do personagem que dá título à novela.

A atividade original do escritório – “o notariado, a cobrança de títulos e transcrições e cópia de documentos de toda a espécie” – aumentou bastante, depois que seu proprietário foi nomeado para um rendoso cargo, o de conselheiro do tribunal da Chancelaria do Estado de Nova York. Assim, foi necessário se valer de outro copista, tendo Bartleby sido contratado. O novo empregado não parava para almoçar e se alimentava de alguns Spitzenbergs, bolinhos de gengibre e maçãs vendidos nos botecos próximos da Alfândega e dos Correios à razão de seis ou oito penny. Sem querer contar tudo e estragar o prazer do leitor, posso apenas afirmar que as coisas corriam bem no escritório até o momento em que Bartleby responde com um “prefiro não fazer”, o primeiro de uma longa série, ao recusar-se a conferir com seu patrão cópias que acabara de realizar.

A partir desse evento, a novela se desenvolve num ritmo em que o absurdo vai dando o tom, estando Bartleby próximo de personagens de Kafka, em que uma das partes envolvidas (que se guia por parâmetros lógicos, normalmente aceitos pela sociedade) não acompanha o “delírio” da outra – constituída geralmente por minorias ou indivíduos isolados.

Borges tem opinião semelhante, ao escrever sobre a novela que “seu desconcertante protagonista é um homem obscuro que se nega tenazmente a ação. O autor não o explica, porém nessa imaginação o aceita imediatamente e não sem muita lástima. Na realidade são dois os protagonistas: o obstinado Bartleby e o narrador que se resigna à sua obstinação e acaba por afeiçoar-se a ele”.[1]

Bartleby caminha a passos largos em sua abolia e crescente alienação. Para Fernando Sabino, ele vem a ser “uma verdadeira antevisão do homem robotizado do nosso tempo, o pobre-diabo esmagado pelas condições desumanas da vida em sociedade, cujo destino final é mesmo o hospício”.

Em 1953, Luis de Lima, o primeiro tradutor de Bartleby (Rocco), por indicação de Vinícius de Morais, concebeu, dirigiu e interpretou em São Paulo e no Rio de Janeiro (1956) um drama de mímica baseado nessa novela. Foi, ao que consta o primeiro espetáculo dramático sem recorrer ao uso da palavra realizado na América Latina. Personagem de gestos contidos, quase-mudo, sem nunca tomar a iniciativa do diálogo e recusando gradativamente as tarefas que lhe são designadas, Bartleby chega a provocar cenas engraçadas (e dramáticas).

Alem disso, Melville descreve, com maestria e humor, os colegas de trabalho de Bartleby: o velho Turkey (peru); o jovem Nippers (torquês) e o garoto Ginger Nut (noz de gengibre). Talvez obra menor de Melville, porém escrita de forma excelente, deverá despertar no leitor o apetite pelos outros livros do autor.

Borges acrescenta que Melville, amante da Bíblia calvinista e amigo de Nathaniel Hawthorne, “morreu quase esquecido, em Nova York, em 1891”.

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

 

Referência


Herman Melville. Bartleby, o escrivão: Uma história de Wall Street. Tradução: Irene Hirsch. Posfácio: Modesto Carone. São Paulo, Ubu.

 

Nota


[1] Borges faz os seguintes juízos acerca de dois outros livros de Melville: “Billy Budd pode resumir-se como a história de um conflito entre a justiça e a lei, mas esse resumo é (…) menos importante que o caráter do herói que matou um homem e não compreende até o fim por que o julgam e o condenam” (p.52); “Benito Cereno [1855] continua suscitando polêmicas. Há quem o considere a obra mestra de Melville e uma das maiores da literatura. Há quem a considere um erro ou uma série de erros. Há quem tenha sugerido que Herman Melville se propôs a escrever um texto deliberadamente inexplicável que se constituía em um símbolo cabal deste mundo também inexplicável” In: BORGES, Jorge Luis. “Herman Melville: Benito Cerreno, Billy Budd, Bartleby, el escribiente”. In: Biblioteca Personal. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 50-52.