Por LUCYANE DE MORAES*
O feminicídio de Tainara não é um ato isolado, mas a expressão brutal de uma estrutura que historicamente reduz a mulher a ornamento, objeto de posse nas engrenagens patriarcais e capitalistas
1.
Nas últimas semanas, o país se sensibilizou com o caso de Tainara Souza Santos, cujo sofrimento e morte revelaram a face mais sombria da violência íntima. Depois do atropelamento e arrastamento por mais de um quilômetro, entre cirurgias e amputações, sua vida foi arrancada, e com ela, a ilusão de segurança que muitas mulheres alimentam em relações próximas.
O episódio dramático é um alerta sobre os riscos que mulheres correm no âmbito das sociedades patriarcais, enfatizando a importância da adoção de ações concretas de conscientização. O acontecimento, sombrio, convoca a pensar sobre a vulnerabilidade feminina, a fragilidade dos vínculos afetivos e a responsabilidade social diante da estupidez brutal que insiste em atravessar, sobretudo, o cotidiano de mulheres em estado de dependência econômica. Mas, não só.
A reflexão urgente é sobre uma sociedade que ainda permite que afetos se tornem armas sempre em nome daquilo que se entende por amor, ceivando vidas que sequer foram vividas.
Essa vulnerabilidade não diz respeito apenas aos dias de hoje: historicamente, o pensamento ocidental privilegiou, em detrimento do que é sensível e essencial, uma ideia disfuncional de racionalidade que não funciona racionalmente. Desde a Grécia antiga, o ornamento, e com ele o valor do que transcende a utilidade, sempre foi (e ainda é) visto como supérfluo, tolerável, mas suspeito, refletindo uma cultura que sistematicamente despreza aquilo que dá plenitude à experiência humana.
Nesse contexto, a mulher foi culturalmente deslocada do domínio pleno da razão, associada ao corpo, à aparência e à sedução, concebida como complemento do homem e não como sujeito autônomo. A analogia entre ornamento e mulher não é casual: ela reflete uma estrutura social de ordem patriarcal que trata ambos como excessos tolerados, e não como elementos essenciais da cultura e da sociedade.
Ao excluir a mulher do âmbito do vital, a racionalidade ocidental relacionou-a ao desejo do sujeito universalmente neutro, implicitamente masculino, imputando a ela a condição de imagem à semelhança, concebida como potência a ser projetada sob o efeito da dominação. Essa exclusão não apenas hierarquiza os corpos, mas também moldam formas simbólicas do desejo, naturalizando sua organização subjetiva segundo princípios de posse, poder e prazer que ignoram a autonomia do feminino.
2.
Historicamente ligado a sociedades patriarcais, o desejo sob a ótica ornamental primeiramente transforma o corpo da mulher em objeto simbólico de fetiche e contemplação, logo considerado secundário ou mesmo supérfluo, mediante uma assumida condição de propriedade. Na tradição ocidental, o fascínio inicial pelo ornamento reflete a forma como a mulher foi culturalmente concebida como adorno sexo-social, valorizada, sobretudo, por sua aparência irreconhecível de sujeito ativo.
Em outras palavras, o caráter ornamental, para além de simples adereço, funciona como instrumento simbólico que reforça a objetificação feminina, traduzida por padrões irreais de aparência estética, estereotipados até a essência graças a uma totalidade midiática que transforma corpos em produtos comerciais sob uma abordagem menos crua, encantadora e familiar, evidenciando o quanto a cultura patriarcal se encontra associada à produção de mercadorias simbólicas.
Na sociedade metamorfoseada pelo capital, o desejo pelo ornamento é fetichizado de modo a encobrir relações reais mediante a imediatidade do prazer repetitivo, a exemplo das relações de troca. De forma análoga, o desejo em relação à mulher é mediado: corpos-os-mesmos-que-objetos se tornam exemplo das relações de uso. Considerados “secundários” passam a modelar a totalidade da experiência sob o tacão do consumo.
Ao representar a estrutura hierárquica que privilegia a aparência em detrimento da essência, o “espírito” patriarcal revela a centralidade da máscara e do excesso, demostrando que o ornamental é indicador potente de expressão da decadência capital. Nesse cenário, a primazia do não-essencial se torna clara em sua aparência: superfície, formato e brilho aproximam valor de uso e de troca, desta vez justapostos. Então, o feminino surge, em sua aparência, como acessório tradicionalmente “essencial” sob o estado servil de seu corpo.
É nesse contexto que a valorização do ornamental e do não feminino revela o quanto as normas hierárquicas do patriarcado aguardam ser problematizadas até a essência crítica do capital, destituídas de seu trato constitucional próprio de valor e poder, deslocadas de sua posição historicamente protagonista.
Ao subverter a lógica que privilegia o funcional como real, a condição social do feminino, tradicionalmente associada ao desfrute ornamental, poderia assumir uma potência crítica capaz de reconfigurar relações socioculturais desde sempre condicionais.
3.
Então, o arrastamento de Tainara poderia ser pensado essencialmente como interrupção radical do esperado na ordem continuamente constituída. Uma experiência de choque com potencial de reconfigurar a percepção e o sentido daquilo que se impõe como irreal e que revela a inteira realidade do que jamais passou desapercebido: a condição do corpo servil associada à dimensão do ser vil feminino. Em outras palavras, o caso choca porque destrói algo que a sociedade considera “normal” ou previsível.
Como utopia dialética, o que atenta ao ornamental e aos detalhes aparentemente secundários, poderia funcionar como contraponto à violência do instante que se mantém pela imutabilidade das condições determinadas. Mas, a rastejante realidade imposta à mulher assassinada com volteios automobilísticos (potência do homem) é mais uma dentre tantas versões decantadas sob o pretexto da “forte emoção”.
Ao longo dos tempos, a violência feminina foi velada sob a aparência de homicídio comum, revelando a cegueira ética de sociedades que naturalizam a boçalidade humana. Sob essa “lógica”, expõe-se não apenas falhas institucionais básicas, mas evidencia a persistência de um sistema socioeconômico que subordina corpos, integrando patriarcado e razão mercantilista.
Significa dizer que a violência contra a mulher não se reduz a atos individuais de crueldade, mas emerge das relações de classe e das dinâmicas de troca, inclusive humanas. Sendo o feminicídio o último ato das várias mortes impostas à mulher na sociedade inane, qualquer reflexão a seu respeito exigirá mais do que punição: demandará transformações mais amplas, nas quais a autonomia da mulher como sujeito seja afirmada como princípio inegociável de uma sociedade equânime.
Em resumo, o caso Tainara evidencia a complexidade das interações entre sociedade, cultura e política: o que parece acidental ou irrelevante aos olhos de muitos, pode, em tese, estruturar sentidos fundamentais, obrigando-nos a confrontar nossa própria fragilidade e a reconsiderar como interpretamos o mundo e suas representações. Tudo isso, em tese.
*Lucyane de Moraes é doutora em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin: em torno de uma amizade eletiva (Edições 70/Almedina Brasil) [https://amzn.to/47a2xx7]






















