Brexit – um retorno caótico ao nada

Escultura José Resende / Vancouver, Canadá/ foto: Goran Basaric

Por GILBERTO LOPES:

A Inglaterra é hoje uma nação fragmentada e individualizada. Com o Brexit está também à beira do abismo

“O retorno ao país de nascimento é uma experiência comum”, diz Mark Beeson, um inglês que foi para a Austrália há 45 anos. Professor de política internacional na Western University, Beenson afirma que nunca antes seu retorno o deixou tão horrorizado, espantado com o que encontrou e feliz por não mais viver na Inglaterra.

Os níveis de infecção pelo coronavírus e a taxa de mortalidade registrada na Inglaterra – a mais alta desde o início da pandemia – acabam com o desejo de voltar. Asseguram-nos o tempo todo que a causada crise é a maior transmissibilidade da nova cepa do vírus, e não a incapacidade dos líderes políticos encarregados de administrá-la, diz Beeson. Em sua opinião, trata-se de uma “crise muito britânica”. A atitude irresponsável das autoridades é evidente assim que você entra no país: nenhum formulário para preencher, nenhum controle sanitário, nem quarentena, “na Inglaterra orgulhosa e independente”.

Na metade do mês, em 15 de janeiro, a Inglaterra tinha mais de 55 mil casos diários de Covid-19 (embora o número venha caindo), mais de 37 mil pessoas hospitalizadas e cerca de 1.300 mortes por dia. Os sinais contraditórios, a prevaricação, a indecisão do governo tornaram difícil o discernimento das pessoas sobre qual seria o comportamento apropriado em face da pandemia. “Longe de tornar a nação grande novamente”, diz Beenson, “(o primeiro-ministro Boris) Johnson pode liderar a ruptura do Reino Unido, uma maior contração de sua economia e levar o país à irrelevância geopolítica”.

No século XIX, a Grã-Bretanha liderava o mundo. Foi o berço do capitalismo. Havia derrotado Napoleão. Assim, na era vitoriana (1837-1901) – então o reinado mais longo do Reino Unido –, seu poder se espalhou pelo mundo, até que o atual reinado de sua tataraneta, a rainha Elizabeth II, superou em duração o da rainha Vitória, para testemunhar o desmembramento gradual da Comunidade Britânica.

Uma nação à beira do abismo

O jornal inglês The Guardian descreveu a situação no país como “grave”, num editorial no final do ano passado, quando os dois lados se apressaram para chegar a algum tipo de acordo para regulamentar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e evitar o chamado “Brexit duro”, uma ruptura catastrófica sem acordos. “O surgimento de uma nova cepa do vírus na Inglaterra forçou uma nova paralisação dos negócios e severas restrições de viagens. Ao mesmo tempo em que o Brexit entrava em vigor, dois problemas perfeitamente alinhados numa coincidência desastrosa para a Grã-Bretanha”, disse o The Guardian.

Como ficou evidente nestas poucas semanas desde que o acordo entrou em vigor em 1º de janeiro, a mudança deixou muitas coisas sem esclarecimentos. Dez dias antes da entrada em vigência do Brexit, quase 12 mil caminhões esperavam para atravessar o Canal da Mancha. Outros problemas ainda estavam pendentes. A situação dos exportadores de peixe, particularmente preocupados com o futuro do setor, não estava clara, nem como resolver o desafio de reorganizar a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, uma questão particularmente sensível, dada a história conflituosa (e às vezes sangrenta) dessa relação.

Também dois dias antes da entrada em vigor do Brexit, Michael Roberts, que se define como um “economista marxista”, escreveu sobre o acordo em seu blog, The Next Recession:57% dos produtos industriais britânicos são exportados para a UE, em cujos mercados poderão continuar entrando livres de impostos. Mas eles serão cuidadosamente monitorados para evitar estímulos, subsídios ou deterioração das garantias trabalhistas, a fim de torná-los mais competitivos no mercado europeu.

Ainda mais importantes do que os bens industriais são os serviços, que contribuem com 70% para o Produto Interno Bruto britânico. Pouco mais de 40% deste comércio de serviços é com a UE. O superávit dos serviços financeiros e profissionais compensa, em grande parte, o déficit no comércio de bens. “O Brexit não fez nada por esse setor”, diz Roberts. Os profissionais – médicos, engenheiros, arquitetos – terão que revalidar seus títulos em cada país onde queiram trabalhar. Nem o acesso dos serviços financeiros ao mercado europeu foi totalmente regulamentado.

Em sua opinião, as exportações britânicas do setor de serviços acabarão enfrentando condições piores do que as que existiram durante os 48 anos de adesão do país à UE. Estimativas de instituições financeiras tradicionais, incluindo o Banco da Inglaterra, citadas por Roberts, indicam que o PIB do Reino Unido cairá de 4% a 10% nos próximos 15 anos, como resultado do Brexit.

O capitalismo britânico já tropeçava antes da Covid-19. Com números negativos de crescimento em 2008 (-0,3%) e 2009 (-4,1%), tinha alcançado seus melhores resultados desde então em 2014 (2,9%) e 2015 (2,4%), para voltar a crescer apenas 1,3% em 2018 e 2019. As estimativas são catastróficas para 2020, apesar de uma recuperação dos dados no terceiro trimestre do ano. “A pandemia dizimou os negócios e em 2020 a Grã-Bretanha sofrerá a maior queda do PIB entre as principais economias, com exceção da Espanha”, estimou Roberts. E vai se recuperar da crise mais lentamente do que os outros, disse ele.

As condições laborais

Além dos negócios, o impacto do acordo sobre as condições de trabalho na Grã-Bretanha merece atenção especial. Teme-se que no mercado de trabalho inglêspouco regulamentado – quando comparado com outros países da OCDE – estas garantias sejam agora diminuídas. Entre outras coisas, as regras da UE incluem um limite de 48 horas semanais de trabalho (embora com exceções), regulamentos sanitários e de segurança, subsídios regionais e sociais, financiamento para pesquisa, controles ambientais e livre circulação da mão-de-obra. “Tudo isso será minimizado”, diz Roberts. O governo planeja criar portos e zonas francas, áreas com pouca ou nenhuma carga tributária, para estimular a atividade econômica, “transformando o país numa base livre de impostos e sem regulamentação para as multinacionais estrangeiras”.

Uma tendência também referida pelo Financial Times, ao observar que o governo estava planejando reduzir as medidas de proteção ao emprego. Isto inclui o fim do limite de 48 horas semanais de trabalho, a mudança das regras de descanso no trabalho e a eliminação de certos pagamentos de horas extras. Uma “desgraça”, de acordo com o opositor Partido Trabalhista. Em meio à pior crise econômica em três séculos, estas medidas desnudam as verdadeiras intenções do governo, “que estão muito longe das necessidades dos trabalhadores e de suas famílias”, segundo o velho líder trabalhista Ed Miliband. “O governo está se preparando para deixar de lado suas promessas para o povo britânico e dar um golpe nos direitos dos trabalhadores”. Uma falsificação, de acordo com o governo. “Não vamos reduzir os direitos dos trabalhadores”, disse Kwasi Kwarteng, Secretário de Negócios.

O retorno caótico ao nada

O desespero, as causas complexas do triunfo do Brexit e o surpreendente sucesso conservador nos velhos redutos trabalhistas na última eleição de 2019, são relatados num artigo extraordinário de um dos editores do The Guardian, Alison Benjamin, publicado em 28 de dezembro último. Um artigo que nos ajuda a entender nosso mundo. “Se alguém me dissesse que nossa cidade mineira votaria pelos conservadores, eu pensaria que estava louco”, diz Benjamin, citando o velho mineiro George Bell, em Nottinghamshire, uma cidade a pouco mais de 200 km ao norte de Londres, parte do antigo bastião vermelho trabalhista. Mas eles votaram pelos conservadores na eleição do ano passado.

Com a região devastada pelo fechamento das minas de carvão, derrotados na grande greve de 1984-85, durante o governo conservador de Margaret Thatcher, os velhos mineiros morriam, enquanto a economia da região mudava seu rumo e, a cidade, seu perfil. Alguns velhos mineiros votaram pelo Brexit e por Johnson. Eles não confiavam que o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, realizasse o Brexit.

A velha camaradagem nas minas foi substituída por empregos no setor público, ou em instituições de caridade criadas para cuidar de famílias desempregadas. Para Phil Whitehead, 61, um velho eletricista das minas de Shireoaks, as mudanças demográficas na região explicam grande parte da derrota trabalhista. Os velhos mineiros haviam sido substituídos por famílias jovens, que compravam casas de quatro quartos em empreendimentos de luxo, sem vínculos com o passado da área. Aqui há casas ligeiramente mais baratas e boas conexões com Nottingham e Sheffield, onde eles encontram empregos decentes, explica Whitehead.

Ao invés das minas, os grandes empregadores são agora armazéns e centros de distribuição localizados fora da cidade, com trabalhadores não sindicalizados e mal pagos. Eletricistas e outros trabalhadores, que prestavam serviço para as minas, serrarias, fábricas de tijolos, se foram. Existem agora oito “food banks”, centros de fornecimento de alimentos para famílias desempregadas em Nottinghamshire. Bell votou para abandonar a UE. Ele pensava que as coisas não poderiam ficar piores e, caso deixassem a UE, novos investimentos poderiam chegar. Whitehead também. Ele nunca gostou da UE. “Sempre achei que representava os interesses dos empregadores, das grandes empresas e dos bancos. Raramente eles fizeram algo pelo povo”. Agora, acrescenta, “eu provavelmente votaria de forma diferente”. Ele não poderia imaginar um rápido Brexit “duro”, sem um acordo para regular essa produção.

Também reconhecem que havia um conteúdo de xenofobia e racismo na decisão. Alguns disseram que “se eles (os trabalhadores estrangeiros) permanecessem em nossas fábricas, nós não teríamos controle sobre elas. Nós os queríamos fora. O Brexit foi nossa maneira de enviá-los de volta para casa”. Outros não se arrependem de votar pelo Brexit. “Por que deveríamos fazer o que outros países nos dizem?”, eles se perguntavam.

A sombra da grande greve dos anos 80 ainda paira sobre o debate. Dave Potts, 67, foi demitido em 1984, depois de ter sido preso durante a greve. O argumento de que seríamos mais fortes permanecendo na UE não é verdadeiro. “Participei de uma greve dos mineiros que foi perdida. Nós não ficamos juntos”, disse ele. Embora tenha votado pelo Partido Trabalhista, ele está desiludido com a política em geral: “nunca fizeram um movimento por nós”, diz ele. Sem trabalho por oito anos, conseguiu um emprego numa escola local para coordenar o apoio aos estudantes pobres. Finalmente, um derrame forçou-o a se aposentar.

John Scott, 73, outro mineiro, votou pelo Partido Trabalhista e recusou a saída da UE. Ele trabalhava para uma instituição de caridade local, fornecendo móveis de segunda mão para pessoas sem teto e de baixa renda. Ele pensa que, uma vez que ganhou o “leave”, o laborismoteve que aceitá-lo e deveria lutar por um acordo de saída adequado. Para ele, a posição do partido nesta questão custou-lhe a grande derrota eleitoral em 2019. Ninguém entendeu a posição dos trabalhistas, diz ele.

Hoje, alguns dos que votaram nos conservadores reveriam sua posição. A má gestão da pandemia é uma das principais razões pelas quais eles não votariam novamente nos conservadores. Mas há uma sensação de que foram traídos. “Se houvesse mais parlamentares trabalhistas durante o governo de Tony Blair (1997-2007), as coisas poderiam ter sido diferentes”. Mas não foi assim. Blair negociou todos os interesses dos trabalhadores e uniu-se a Bush e a Aznar na coalizão que destruiu o Iraque. Eles afirmavam ter informações sobre as armas nucleares do governo de Saddam Hussein que, como sabemos, não existiam. Blair também aderiu ao plano do então chanceler alemão, Gerhard Schröeder, de enfrentar o desemprego reduzindo os direitos trabalhistas, um pilar do que foi chamado de “Terceira Via”, com a qual a social-democracia alinhou suas posições com o neoliberalismo.

Naquela época, os líderes trabalhistas davam como certa a lealdade dos mineiros. Eles percebiam que não tinham alternativas, que não votariam nos conservadores. Eles estavam errados. “O voto pelo leave foi uma resposta à sensação de que eles tinham sido traídos por 30 anos. As pessoas dizem que deve ter sido horrível trabalhar nas minas”, diz Dave Anderson, membro do comitê organizador da Durham Miner’s Gala, um evento que relembra, todo segundo domingo de julho, a tradição mineira do país. Cerca de 200 mil pessoas se reúnem ali.

“É verdade”, diz Anderson, “que o padrão de vida e as condições de saúde da maioria das pessoas são muito melhores agora do que eram nos anos 70. Mas as pessoas se sentiam seguras naquela época e, para elas, o passado era muito melhor”. “Estou na praça de Durham na manhã de domingo (na festa dos mineiros), enquanto eles desfilam com suas bandeiras, e eu penso: como diabos perdemos essa greve? Eu não consigo imaginar”, diz Potts. Whitehead acha que a Thatcher conseguiu o que queria quando derrotou os mineiros, há quase quatro décadas. Hoje eles pensam que não devem lealdade a ninguém. Mas sua herança é, no final, essa sociedade fragmentada, individualizada, esse retorno caótico ao nada.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR).

Tradução: Fernando Lima das Neves