As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Contra as iniquidades da República

Imagem: Lucas Vinícius Pontes
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIZ MARQUES*

Os bolsonaristas têm armas e ódio, mas falta-lhes alma e empatia com o sofrimento do povo

O neoliberalismo estende a teia da economia a campos alternativos de atividade, feito as religiões pentecostais que medem a fé pela prosperidade. Até condutas não racionais, como torcer por um time de futebol, são decodificadas pela ideologia do homo economicus na forma de materiais com identificação dos clubes. Tudo é quantificado como mercadoria e catalogado para gerar rendimento com a venda. Os shopping centers equivalem às “novas cavernas”, do mito de Platão. São metáforas de uma modernidade que substitui os valores da cidadania em movimento pela cultura do consumo. A escolha estratégica de meios para atingir uma finalidade permeia as diferentes dimensões da vida social, sob a hegemonia sociopolítica do livre mercado.

A onipresença do homo economicus evoca a “mão invisível”, descrita pelo autor de A riqueza das nações. Mostra o sujeito num jogo cujo sentido lhe escapa e, os governos nacionais, incapazes de programar o bem da coletividade. O bem comum resultaria da soma de interesses individuais, e não de um planejamento seja tecnocrático, seja participativo. A visão da “totalidade” sobre os processos econômicos seria quimera, e o princípio do “direito” para mitigar as desigualdades uma besteira. As planificações apenas criariam obstáculos ao verdadeiro propulsor do desenvolvimento, o egoísmo, conforme a vetusta gramática liberal. Essa narrativa justifica a vagabundagem de jet ski durante o expediente, que deixa o Palácio do Planalto às moscas.

O neoliberalismo converte o preceito de não intervenção estatal / governamental em um dogma para, de um lado, acirrar a concorrência por empregos entre os próprios assalariados e, por outro, formar monopólios ou oligopólios. Como se, no berço da industrialização dada a máquina a vapor nas fábricas têxteis de Manchester, o laissez-faire trouxesse mais satisfação à população do que o Estado de Bem-Estar Social na Europa, do pós-Guerra.

Economistas (“fisiocratas”) recusam as regulações administrativas, mas reconhecem a soberania do Estado na condição de coproprietário das terras e coprodutor dos produtos para justificar a cobrança de tributos. Já os neoliberais são contra impostos em geral e, em particular, sobre grandes fortunas – afora criticar a autoridade do Estado. A “contribuição social das empresas está em buscar o lucro”, diz o pai do neoliberalismo estadunidense, Milton Friedman.

Aquele Chicago boy que galgou cargos na ditadura de Pinochet e responde pelo Posto Ipiranga, assim, pode dormir. O que tira o sono do atual ministro da Economia é a Constituição proibir a privatização das praias no litoral brasileiro, das universidades federais e do SUS. Não o recente escândalo de corrupção (mais um) praticado pelo presidente, em 5 de outubro de 2022, com o “emendão” que “desviou R$ 10,5 bilhões de verbas destinadas à saúde, à ciência e à educação para alimentar o orçamento secreto” (Diplomatique Online).

Tampouco causa insônia a fraude de mais de R$ 1 bilhão, apontada pelo TCU, em licitações da estatal Codevasf para o “bolsolão” do cartel de pavimentação do asfalto. O homo corruptus, que evoluiu das “rachadinhas” aos “rachadões”, e empresários do naipe do ridículo da Havan creem no slogan “o Brasil é nosso” (leia-se deles). Pena a imprensa passar pano no crime de lesa-pátria de falsos patriotas. Há coisas que não saem na Rede Globo.

Jair Bolsonaro esgaça as iniquidades da república, subtrai a sociabilidade plural da nação e torpedeia os pilares da civilização – os direitos humanos e a preservação ambiental. No plano externo, para lembrar o personagem infanto-juvenil apropriado pelos fascistas na Itália, a reeleição do Pinocchio fortalece a extrema direita global. No plano interno, plebiscita a superexploração do trabalho e um regime de exceção. É dever moral dos democratas impedir a instauração do autoritarismo e uma legitimação da necropolítica. Os bolsonaristas têm armas e ódio, mas falta-lhes alma e empatia com o sofrimento do povo – e um projeto de futuro para o país.

Em vez de o Estado de exclusão a serviço de 1% de privilegiados, urge um Estado democrático, republicano e com participação popular para atender as necessidades de 99% das pessoas. “A desigualdade é uma construção social, histórica e política”, aponta Thomas Piketty. Vale também para a utopia “rumo à igualdade e à justiça”. A vitória nas urnas do homo generosus – Lula – é fundamental à luta pela democracia na América Latina.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Carlos Bresser-Pereira Heraldo Campos Érico Andrade André Singer Eleonora Albano Ricardo Abramovay Sandra Bitencourt Antonio Martins Henry Burnett Vladimir Safatle Manuel Domingos Neto Fernando Nogueira da Costa Celso Frederico Leda Maria Paulani Mário Maestri Chico Alencar João Paulo Ayub Fonseca Ladislau Dowbor Igor Felippe Santos Ronald Rocha Luiz Renato Martins Valério Arcary João Carlos Salles Eliziário Andrade Paulo Fernandes Silveira Bruno Fabricio Alcebino da Silva José Micaelson Lacerda Morais Luís Fernando Vitagliano Daniel Costa Marcos Silva Manchetômetro Gilberto Maringoni Flávio R. Kothe Gabriel Cohn Francisco de Oliveira Barros Júnior Vanderlei Tenório Priscila Figueiredo Ronaldo Tadeu de Souza Thomas Piketty Valerio Arcary Gerson Almeida Mariarosaria Fabris Tales Ab'Sáber Claudio Katz Francisco Fernandes Ladeira Ari Marcelo Solon Marcus Ianoni Marilena Chauí Anderson Alves Esteves Leonardo Boff Afrânio Catani Rafael R. Ioris José Machado Moita Neto Otaviano Helene Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Roberto Alves Carla Teixeira Luiz Werneck Vianna Armando Boito Rodrigo de Faria Ricardo Musse Sergio Amadeu da Silveira José Dirceu João Lanari Bo Samuel Kilsztajn Jean Marc Von Der Weid Yuri Martins-Fontes Bento Prado Jr. Remy José Fontana André Márcio Neves Soares Celso Favaretto Marcelo Módolo Bernardo Ricupero Julian Rodrigues Kátia Gerab Baggio Eduardo Borges Benicio Viero Schmidt Slavoj Žižek Paulo Nogueira Batista Jr Flávio Aguiar Dennis Oliveira José Geraldo Couto Michael Löwy Ronald León Núñez Luiz Costa Lima Andrew Korybko Antonino Infranca Milton Pinheiro Denilson Cordeiro Eleutério F. S. Prado Annateresa Fabris Atilio A. Boron Luciano Nascimento Paulo Sérgio Pinheiro Paulo Martins Luiz Marques José Costa Júnior Renato Dagnino Lorenzo Vitral Boaventura de Sousa Santos Liszt Vieira Salem Nasser Caio Bugiato Juarez Guimarães João Feres Júnior José Luís Fiori Eugênio Bucci Michael Roberts Henri Acselrad Carlos Tautz Luiz Eduardo Soares Anselm Jappe Jorge Luiz Souto Maior Paulo Capel Narvai Dênis de Moraes Eugênio Trivinho Luis Felipe Miguel Leonardo Sacramento Tadeu Valadares Roberto Noritomi Rubens Pinto Lyra José Raimundo Trindade Walnice Nogueira Galvão João Sette Whitaker Ferreira Airton Paschoa Luiz Bernardo Pericás Daniel Brazil Alysson Leandro Mascaro Elias Jabbour Everaldo de Oliveira Andrade Plínio de Arruda Sampaio Jr. Jean Pierre Chauvin Marjorie C. Marona Alexandre Aragão de Albuquerque Jorge Branco João Adolfo Hansen Marilia Pacheco Fiorillo Lucas Fiaschetti Estevez Antônio Sales Rios Neto Roberto Bueno Ricardo Antunes Vinício Carrilho Martinez Francisco Pereira de Farias Bruno Machado Berenice Bento Fernão Pessoa Ramos Osvaldo Coggiola Daniel Afonso da Silva Alexandre de Lima Castro Tranjan Fábio Konder Comparato Chico Whitaker Leonardo Avritzer Tarso Genro Lincoln Secco Marcos Aurélio da Silva João Carlos Loebens Ricardo Fabbrini Maria Rita Kehl Gilberto Lopes Marcelo Guimarães Lima

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada