Democracia participativa no lugar do orçamento secreto

Imagem: Nothing Ahead
image_pdf

Por GERSON ALMEIDA*

Idealizada para superar a compreensão de democracia que restrinje a participação das pessoas na vida pública ao voto nas eleições

Na ultima conferência anual da Organização Internacional de Democracia Participativa (OIDP), ocorrida em dezembro, na cidade de Grenoble, o Brasil voltou a ser saudado como o país onde foi inventada a mais avançada experiência de democratização da aplicação do orçamento público, o “Orçamento Participativo” (OP).

Depois de trinta e dois anos do seu início, na cidade de Porto Alegre, ela logo tornou-se uma marca dos governos do campo democrático e deu incontáveis demonstrações da sua eficácia social e econômica.

Idealizada para superar a compreensão de democracia que restrinje a participação das pessoas na vida pública ao voto nas eleições, o êxito do Orçamento Participativo é tal que já alcançou mais de 1700 cidades em todos os continentes, incluindo cidades como Paris e Barcelona e avançou ao ponto de já contar com experiências de âmbito nacional, como em Portugal e Moçambique.

Todas estas experiências demostram que aplicar os recursos públicos a partir de prioridades construidas com a participação dos cidadãos – os principais interessados – garante mais economicidade e eficácia nos investimentos. Entre outras razões, por serem feitos atraves de critérios que resistem à luz do dia.

Pois bem, imaginem a surpresa de todos ao saber que a experiência de Orçamento Participativo em Porto Alegre, assim como a do Sistema Nacional de Participação Social, construído ao longo dos governos de Lula e de Dilma Rousseff no Brasil, foi substituída pelo orçamento secreto de Jair Bolsonaro e de Artur Lira.

Meu argumento nos debates foi de que há uma relação direta entre a volta do Brasil ao Mapa da Fome e a aceleração do desmatamento da Amazônia, com o desmonte de todas as formas de participação e controle social no processo de deliberação das políticas públicas, para citar apenas dois exemplos do retrocesso que este retrocesso democrático significa.

Depois dos governos de Lula e de Dilma Rousseff terem conseguido tirar o Brasil do Mapa da Fome das Nações Unidas e diminuído o desmatamento da Amazônia em 67% no período de 2002 a 2016, cerca de 40 milhões de brasileiros voltarem a passar fome e o desmatamento da Amazônia cresceu 73%, apenas nos três primeiros anos do atual (des)governo.

Não é acaso que esses retrocessos civilizatórios tenham ocorrido depois do esvaziamento dos espaços de participação e do desmonte dos mecanismos de fiscalização e controle ambiental, que foram frutos exitosas dos processos participativos nos Conselhos, das Conferências e das Mesas de Negociação Nacional, entre outros arranjos democráticos que foram criados.

As 74 Conferências Nacionais ocorridas entre 2003 e 2010 mobilizaram diretamente mais de cinco milhões de pessoas nas suas etapas municipais, estaduais e nacional; e os 18 novos Conselhos Temáticos legaram programas e projetos de grande impacto para a diminuição das imensas desigualdades existentes no Brasil.

As deliberações desta ampla mobilização participativa são responsáveis pela criação do Programa Nacional de Moradia Popular, do Sistema Nacional de Assistência Social, do Programa Nacional da Juventude, do Programa Nacional de Políticas para as Mulheres, do Programa Nacional de Promoção da Igualdade Racial, da Política Nacional Sobre Mudança do Clima, entre tantos outros.

Agora, que o STF impediu a naturalização das práticas secretas e sem qualquer controle social na aplicação dos recursos do orçamento, há uma grande oportunidade para que o campo democrático mais uma vez recupere a capacidade de inovação nas práticas democráticas e não só recupere aquilo que foi desmontado, mas avance em formas de ampliação da participação social nos processos de deliberação das políticas públicas e na definição das prioridades na aplicação dos recursos.

Assim, o orçamento poderá, novamente, voltar a ser chamada de público.

*Gerson Almeida, mestre em sociologia pela UFRGS, foi secretário de meio ambiente de Porto Alegre e Secretário Nacional de Participação Social no governo de Lula.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
3
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
10
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
11
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
14
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
15
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES