Democracia sob fiança

Imagem: David Dibert
image_pdf

Por ANTÔNIO DAVID*

Por baixo da polarização eleitoral, relações de hegemonia vão sendo construídas; desconhecê-las é uma resposta fora do lugar

Os acontecimentos das últimas semanas deram a direção da conjuntura político-institucional do país, ainda que seu sentido não seja óbvio. Esse sentido tem sido visto como a polarização social e política que tem lugar no contexto das eleições que se aproximam. Nada há de novo aqui: durante seu mandato como presidente da República, Bolsonaro nunca saiu de campanha, razão pela qual a polarização manteve-se acesa desde que tomou posse.

Mas um horizonte alternativo a esse, não tão visível, mas não menos real, foi sendo aberto nos últimos três anos. Dois eventos recentes deram-lhe corpo: o aclamado lançamento da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito” e a disputada posse de Alexandre de Moraes como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O primeiro evento tem sido encarado como uma demonstração de força de setores progressistas da sociedade brasileira, no que se incluem os principais veículos de imprensa, com protagonismo da esquerda social – de que é emblemática a intervenção, na ocasião, da presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto; o segundo, por seu turno, tem sido analisado em termos de uma contundente afirmação da força das instituições da República, com evidente destaque para o Poder Judiciário. Dessa ótica, ambos os acontecimentos teriam performado a capacidade de sociedade e instituições oferecerem resistência e barrarem os abusos do atual chefe do Poder Executivo, segundo o script dos freios e contrapesos.

Sem tirar a razão dessas leituras, esses dois acontecimentos devem ser inseridos no contexto mais amplo da conjuntura brasileira e global, marcados pelo surgimento (ou extraordinário reforço) do que o teórico estadunidense Bernard Harcourt chama de “estado de emergência”, ou seja, um novo modo de governar pelo qual os governos “fazem todo o possível para legalizar suas medidas de contrainsurgência e colocá-las solidamente dentro do império da lei – por meio de consultas intermináveis a advogados do governo, argumentos legais hipertécnicos e longos memorandos legais”.

Ainda que se possa questionar o autor sobre o que há de novo nesse modo de governar quando a perspectiva que se adota é a de países “periféricos”, a contribuição não perde relevância, haja vista a tendência global de recrudescimento do poder de Estado e de sua capacidade de sujeição e das inovações em termos de estratégias e técnicas de dominação de Estados contraparte de seus cidadãos.

No Brasil, o “estado de emergência” vem sendo aperfeiçoado pelos três poderes nas esferas municipal, estadual e federal há mais tempo do que Harcourt supõe, sendo as polícias apenas uma peça da engrenagem. Mas, desde o fim da Ditadura civil-militar, não houve quem liderasse a montagem da engrenagem, isso a despeito da ambição ditatorial de Bolsonaro. A chegada de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal (STF) em um contexto de grande evidência e politização do Poder Judiciário, este assanhado pela legitimidade adquirida junto à classe média, e de uma atuação de Bolsonaro marcada por aquilo que o jurista Oscar Vilhena Vieira chama de “método do infralegalismo autoritário”, deu a Moraes a oportunidade de apresentar-se como o homem capaz de encarnar o estado de emergência. É o que ele tem feito. O perfil e o currículo para tanto, já ostentava.

Sua atuação como magistrado, em particular a partir da abertura do inquérito das fake news em 2019, excede em muito o papel reservado a um juiz da suprema corte. Desde então, o inquérito é o carro chefe da presença do STF na mídia. Não há dúvida de que, através de uma calculada performance jurídico-policial-política, e com o inestimável auxílio da mídia (e de Bolsonaro), Moraes tornou-se um ator de peso e relevo no cenário político brasileiro.

Não é novo que ministros do STF ocupem esse lugar. Há pouco mais de uma década, Gilmar Mendes ensaiou ser o porta-voz da direita brasileira ao criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Mas o espetáculo da posse na presidência do TSE, como experiência nova em um mundo onde no centro da política está o espetáculo, indica que Moraes converteu-se em algo mais do que um ator dentre vários atores no quadro da “República”. Sua estratégia tem lhe aberto o caminho para que seu nome seja visto, cada vez mais, como alternativa de poder. Em um país no qual a política e em particular as eleições são altamente personalistas, não é pouco.

A despeito de Bolsonaro e Moraes serem inimigos, não é certo que Moraes não possa ocupar o espaço e, em qualquer dos cenários, organizar a direita social (e parte do bolsonarismo). Não se trata aqui de profecia, mas de uma possibilidade, que vai se tornando cada vez mais concreta e real. Seja no cenário de derrota eleitoral de Bolsonaro, seja no cenário de o atual presidente vencer as eleições, a possibilidade existe. O que muda é a tática exigida.

A posse de Moraes como presidente do TSE joga luz sobre o lançamento da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”. Como em outras ocasiões da história do Brasil, um acontecimento que poderia acumular para a esquerda – e de certa maneira, acumulou – foi, ao menos em parte, sequestrado pela direita. Não é apenas irônico que muitos dos que se somaram no apoio à Carta e ao “Estado democrático de direito” tenham apoiado ou silenciado sobre o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 – o qual, alçando Michel Temer à presidência da República, alçou Alexandre de Moraes ao Ministério da Justiça e, em seguida, ao Supremo Tribunal Federal. É sobretudo sintomático. O mais relevante é o fato de este episódio ter mostrado que parte expressiva da direita social anti-Bolsonaro está unida e organizada.

Como os acontecimentos de 2013, o contexto do lançamento da Carta foi ambíguo. Mas a presença de determinados atores e a circulação de determinados discursos no contexto do lançamento davam o tom de uma disputa no interior da própria direita. No momento em que a Carta era lida no Largo São Francisco, a Folha de São Paulo noticiava: “Ao pela democracia une sociedade com falas duras e contra golpismo de Bolsonaro”, e em seu editorial: “Atos pluralistas mostram que democracia se tornou a pele cívica dos brasileiros”. Em 2020 – portanto, quatro anos depois do golpe de 2016, para o qual dera assertivo apoio –, o jornal mudou seu lema, de “Um jornal a serviço do Brasil” para “Um jornal a serviço da democracia”.

A semântica nacionalista da “sociedade unida” empregada em 2022 soa como um ato falho. No fundo, o recado que uma parte dos manifestantes, apresentando-se como fiadores da democracia, quis dar e deu aos militares foi: “fiquem onde estão, não caiam em uma aventura; se for necessário um golpe, 2016 ofereceu o modelo”. Nesse sentido, as analogias que aberta e reiteradamente se fez entre este episódio e outro, de 1977, são mais do que pertinentes.

O ambiente que se criou em torno do lançamento da Carta e da posse de Moraes no TSE são, enfim, sinais de um movimento de reorganização da direita. A novidade é que, às voltas com a combinação entre uma abstrata afirmação da democracia e do Estado democrático de direito, de um lado, e a necessidade de recrudescer as práticas estatais de sujeição e criminalização, de outro, a direita tem hoje um homem em uma posição privilegiada para liderar esse processo, unificando em torno de si o que Florestan Fernandes chamava de Estado autocrático.

Por tudo isso, há que se examinar com lupa a produção teórica e a atuação de Alexandre de Moraes, antes do STF e como ministro. É o caso de examinar, por exemplo, seu voto contrário à proibição de operações policiais em favelas no Rio de Janeiro durante a pandemia, quando, alegadamente “em defesa da sociedade”, sustentou que a proibição representava um risco para “toda a sociedade do Rio de Janeiro”. Na ocasião, Moraes defendeu a “harmonia”, “coesão” e “lealdade” entre os poderes do Estado, contra o que ele vem chamando de “guerrilhas institucionais”. A nomenclatura, sugestiva, designa o que outros teóricos consideram ser apenas e tão somente o exercício de “freios e contrapesos”.

As operações policiais não só continuaram após a proibição, em 2020[i], como se intensificaram, resultando em dezenas de mortes, em uma clara e evidente afronta da polícia do Rio de Janeiro à suprema corte, esta provavelmente vista como desleal por aqueles que mandam na polícia. Por baixo da polarização eleitoral, relações de hegemonia vão sendo construídas. E como já foi dito, desconhecê-las é uma resposta fora do lugar.

*Antônio David é historiador e professor na Escola de Comunicação e Artes da USP.

 

Nota


[i]Dos 11 ministros do STF, 9 votaram pela concessão da liminar que pedia a proibição, e 2 votaram contra: Luiz Fux e Alexandre de Moraes.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES