Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*
Dois filmes, duas estratégias: a paródia descontraída dos estereótipos nordestinos em “Cabras da Peste” e a reconstrução sensível da memória cultural em “Luiz Gonzaga: Légua Tirana”
Cabras da peste
Em vez de fingir que os estereótipos não existem, este filme toma o inteligente partido de brincar com uma farândola deles. Sem economizar uma pitada de absurdo. Não é o primeiro filme nesse viés, mas todos abrem alas para a paródia, sugerindo sua fecundidade. Desse modo vai-se desdobrando a lição de Paulo Emílio Salles Gomes.
Assim é Cabras da peste, dirigido por Vitor Brandt, estrelado por Mateus Nachtergaele e Edmilson Filho. Para começar, já traz o trunfo de escalar dois brilhantes atores, o primeiro consagradíssimo, o segundo pouco conhecido. São eles que vão referendar o modelo de narrativa que o filme apresenta, qual seja o do buddy movie, um dos mais visitados de Hollywood, com todos os seus clichês e banalidades.
Os nomes já os entregam. O paulista chama-se Trintade, epenas, mas o cearense é toda uma enciclopédia. O pai tinha mania de filmes de ação e batizou os filhos com os nomes de seus heróis. Aquele vivido por Edmilson Filho é Bruceleuilis Nonato. A fratria comporta ainda Charlisbronso Nonato, Chuquinorris Nonato, Vandami Nonato. E há uma irmã, Melgibsa Nonato.
Sempre seguindo o modelo hollywoodiano, os dois devem oferecer antíteses de caráter e de conduta. O filme acerta de saída: um é paulista e o outro cearense, o que dá oportunidade a mil e uma cenas engraçadas de fricção etno-cultural. Afora isso, um é pacato escrivão e policial “de escrivaninha”, baixinho e franzino, sempre de terno, enquanto o outro é um belicoso agente de rua, alto e musculoso, sempre de abrigo. A operação que empreendem destina-se a salvar uma cabra, patrimônio municipal de Guaramobim, que o cearense deixou fugir.
O paulista, por sua vez, está em ostracismo, devido a um deslize profissional. Foi rebaixado e exilado num distrito distante,
Entra o vilão, Zeca Brito, também cearense, deputado e chefão do tráfico de drogas. Bem vestido e untuoso, sabe ser detestável. É o rei da rapadura no Ceará, vendendo doces recheados de cocaína.
Zeca Brito fez carreira democratizando a rapadura e elevando-a à condição de maior exportação cearense. Seu slogan de campanha soa familiar a nossos ouvidos: “O Brasil acima de tudo, eu acima de todos”.
Bruceuilis é campeão de artes marciais e o demonstra. Por feliz coincidência, tal é o estatuto de Edmilson Filho na vida real, por isso estando em condições de fazer caricaturas dessas artes, enfatizando seu lado de exibicionismo acintoso. E nos mata de rir.
Uma personagem que vale a pena destacar é Jozymara, motorista de Uber, que atende à dupla e vira amiga. Assanha-se com a aventura, oferece seu taxi para campana e a certa altura, após dizer que está com fome, vemos o entregador de aplicativo levando pizza para o táxi. Ela se mete na conversa e por fim vai tirar selfie com um policial de tronco enfaixado, sempre alegríssima. Quando o marido telefona e atrapalha, ela dá bronca.
Bruceuilis vem de Guaramobim, no Ceará, que costuma ser confundida com Guaraciaba, porque ambas são chamadas carinhosamente de Guará pelos moradores. Então, cada vez que Guará é mencionada, vem a pergunta: qual delas? Lembrando Juazeiro, que também provoca a pergunta: qual delas? A da Bahia ou a outra, a do Ceará, conhecida como Juazeiro do Norte ou Juazeiro do Padre Cícero?
Uma última cena, muito divertida, se passa em Guará (qual delas? resposta: Guaramobim), numa festa na praça central, em que uma personagem da polícia vai ser condecorada. A prefeita, mulher valente e desabusada – a bem dizer todas são, neste filme – discursa. Trindade e Bruceuilis avançam até o palanque, crentes de que são os heróis do dia – pois não trouxeram o patrimônio municipal de volta? Qual nada, quem é condecorada é a cabra Celestina. Gran finale.
Queremos mais filmes como este. Os estudos sobre a chanchada já mostraram seu papel nada desprezível como adaptadora de modelos. Ao parodiar Hollywood, esses filmes vão pavimentando o caminho do cinema brasileiro. Graças a eles, nosso cinema estava e está indo em frente, embora os mais sofisticados torçam o nariz a seu cunho kitsch. E viva este avatar do nordestern!
Luiz Gonzaga – légua tirana
O movimento migratório que devagar foi transferindo gente do Nordeste para o Sul teve muitas consequências, algumas ainda pouco assimiladas. E operou a industrialização de São Paulo, bem como a verticalização de duas metrópoles.
O ponto de viragem é 1930, quando o Censo anota os primeiros sinais de uma tendência que se avolumaria até tornar-se avalanche. Deu-se a inversão da balança: dos 70 % da população rural de então, passou-se aos 70% da população urbana hoje. Foi assim que São Paulo cresceu 12 vezes, ou 21 vezes se consideramos a área metropolitana. São epifenômenos dessa expansão desmesurada tanto Lula quanto Luiz Gonzaga.
No início, o contingente nordestino era incorporado à força de trabalho sulista no mais baixo nível da qualificação profissional, ou seja, nenhuma. Mas aos poucos formaria a elite do proletariado – os metalúrgicos, que criariam um sindicato forte sob a ditadura.
Tudo isso vem à mente ao assistir-se o filme Luiz Gonzaga: légua tirana, que ganha adesão imediata ao lindo título. A arte é do letrista Humberto Teixeira, parceiro-mor.
Hoje ninguém disputa a Luiz Gonzaga o título de Bardo do Sertão. Ao longo dos anos, ele foi produzindo uma verdadeira etnografia da região e de seus habitantes. Uma das primeiras canções é a icônica “Asa branca”, que tematiza a dura sina dos migrantes. Quando fala em pau de arara, está-se referindo à condução utilizada para chegar ao Sul em não mais que 12 dias.
Fala ainda da rivalidade com o pai também sanfoneiro. As belezas de andar a pé. O rio São Francisco, o juazeiro. Os sustos que a menina-moça dá ao pai. O baile. As oportunidades amatórias da labuta na peneiração da farinha. E até pequenas fábulas que correm o sertão, como a de Xanduzinha, que trocou um casamento próspero por um grande amor.
A ressaltar certos matizes como a delicadeza de “Estrada do Canindé” ou “O xote das meninas” (enfeitado pela bela metáfora do mandacaru quando fulora na seca), a malícia de “Farinhada” e de “Peneirou xerém”, a solenidade de “Boiadeiro” … Mas sempre com alegria e graça.
Até a morte permaneceu atento e uma de suas últimas composições é o “Xote ecológico”, em que alerta para a poluição e o desmatamento, citando Chico Mendes. Pouco se sabe, mas o fato é que o ex-soldado fez questão de gravar a maldita “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.
Percebe-se que o filme procura seu caminho, para escapar tanto à biografia convencional quanto à ficção fantástica – o que é admirável.
Um tal caminho implica em manter o foco sobre a infância e a chegada à idade adulta, quando o filme cessa abruptamente. E, mais importante ainda, o partido tomado é picotar a narrativa em episódios ou esquetes, que produzem cenas do sertão.
Têm lugar a seca e os retirantes; as paredes de pau-a-pique. O padre; as namoradas; o pai sanfoneiro, de quem herdou o talento e a vocação; o menino rústico que não sabia usar talheres à mesa; o desejo de estudar e aprender a ler; a mãe diligente, sempre ocupada; a proteção do coronel padrinho; e assim por diante. Vemos até um penitente munido de matraca, que, sobrevivente de Canudos, vocifera coisas meio desconexas.
A notar: o menininho e o jovem, ambos de cara redonda, remetendo à famosa cara de lua do músico – devidamente alcunhado de Lua. A cor de cobre foi igualmente respeitada.
Deter-se no limiar da maturidade impede que o filme trate um dado decisivo: a troca da sanfona de oito baixos, pela de cento e vinte baixos. O som muito mais poderoso abrirá oportunidade para um grande músico. Talvez fosse desejável um maior entrosamento entre as cenas da vida e as canções, ao menos as mais célebres.
Afora o interesse temático da etnografia do sertão, a grande arte de Luiz Gonzaga integra à sua música toques de aboio e inflexões do cego de feira, que canta ao som do ganzá. Tampouco faltam incorporações do coloquial sertanejo, em que ele sempre se esmerou. A famosa autenticidade de Luiz Gonzaga escora nesses elementos. E foi ele quem trouxe a novidade do baião e do xote, que sacolejam o forró até hoje.
Muitos filmes mais virão sobre um artista tão notável, é claro, mas este não o desmerece. E Asa branca continuará a ser o hino nacional da grande migração.
*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc/Ouro sobre Azul). [amzn.to/3ZboOZj]
Referências
Cabras da peste
Brasil, 2021, 98 minutos.
Direção: Vitor Brandt.
Roteiro: Vitor Brandt e Denis Nielsen.
Elenco: Mateus Nachtergaele, Edmilson Filho, Evelyn Castro, Falcão.
Luiz Gonzaga: légua tirana
Brasil, 2025, 113 minutos.
Direção: Marcos Carvalho.
Elenco: Cláudia Ohana; Luiz Carlos Vasconcelos; Tonico Pereira.






















