Eleger Lula é um imperativo

Imagem: Lukas Hartmann
image_pdf

Por HERICK ARGÔLO*

O caminho traçado pelo bolsonarismo e o imperativo de eleger Lula

O caminho que os bolsonaristas estão traçando é evidente. E é necessário divulgá-lo, para que se tenha plena consciência do que está em jogo nessas eleições.

 

Primeiro passo: emparedar o STF

Jair Bolsonaro já tem dois dos 11 ministros do STF nomeados por ele, Nunes Marques e André Mendonça. Em 2023, se aposentarão compulsoriamente Ricardo Lewandowski e Rosa Weber.

Se Jair Bolsonaro for presidente, indicará mais dois, tendo quatro em 11, perto da metade. Como os parlamentares bolsonaristas, somados ao centrão, podem alcançar quórum no Congresso para aprovar impeachment de ministro do STF, eles vão tentar chantagear ministros para virem para o lado deles.

Outro caminho, paralelo, já vem sendo anunciado. Aprovar uma emenda (que eles têm quórum para fazer) para aumentar o número de ministros no STF de 11 para 15 (Cf. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/10/07/eleito-senador-mourao-sugere-mudancas-no-stf-alem-do-aumento-de-cadeiras.htm).

Com isso, Jair Bolsonaro não precisará nem arrancar mais dois ministros para o lado dele. Terá os dois ministros que nomeará em 2023 + 4 novos ministros depois da aprovação da PEC. Ou seja, oito de 15. Maioria para fazer o que quiser.

 

 Segundo passo: nova Constituição

Alguns líderes bolsonaristas defendem, recorrentemente, fazer uma constituinte (cf. https://congressoemfoco.uol.com.br/amp/area/congresso-nacional/lider-de-bolsonaro-promete-plebiscito-por-nova-constituinte-em-breve/).

Um meio de abrir um processo constituinte pode ser um plebiscito. Para tramitação e aprovação do qual, basta ter a presidência das casas do Congresso, 1/3 dos parlamentares de uma das casas que o apresente e maioria simples para aprovação. O bolsonarismo, com Jair Bolsonaro eleito, terá tudo isso. Uma campanha plebiscitaria, baseada na narrativa bolsonarista, já provou ter apelo popular. Com maioria do STF, a declaração de constitucionalidade do processo estaria garantida.

Uma constituição pode sempre ser mudada e melhorada. Mas o objetivo, nesse caso, não é aprofundar a democracia. E sim a implantação de um regime fascista por dentro da ordem.

Aliás, com a configuração eleita do Congresso, não seria necessária sequer a aprovação de uma Constituinte. A Constituição poderia ser mutilada por dentro do Congresso, pelos trâmites regulares.

O próprio Mourão, agora senador, propôs diversas vezes, quando candidato a vice-presidente, uma nova Constituição, sem nem mesmo prévia aprovação de uma constituinte (cf. https://valor.globo.com/google/amp/politica/noticia/2018/09/13/mourao-defende-nova-constituicao-sem-assembleia-constituinte.ghtml)

 

Terceiro passo: tomada das instituições do Estado

Com um STF emparedado, um Congresso dominado e uma Constituição alterada ou mutilada, Jair Bolsonaro abriria caminho para dominar todas instituições do Estado. Os regimes fascistas, historicamente, tendem a transferir poder político do Judiciário e do Legislativo para as forças armadas, as polícias e as milícias armadas.

Esse já tem sido o caminho flertado por Jair Bolsonaro desde 2019. Com a situação qualitativamente nova, se reeleito presidente, tende a ter muito mais sucesso que no primeiro mandato.

O que fazer? Eleger Lula é um imperativo

Com Lula eleito, o Executivo Federal servirá tanto para barrar o avanço sobre o STF, quanto para dividir, no Congresso, a ala bolsonarista e o centrão, que tende sempre a ser atraído, fisiologicamente, em direção à presidência da República. Os planos do bolsonarismo serão atrapalhados ou, ao menos, adiados para um embate futuro, dando mais tempo para as forças democráticas e populares do Brasil se recomporem.

Ou seja, a questão de fundo na eleição de Lula ou de Bolsonaro é se faremos a democracia resistir ou se caminharemos em linha reta rumo a um regime fascista.

*Herick Argôlo é defensor Público e membro da Consulta Popular.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
4
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
5
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
6
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
7
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
8
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
9
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
10
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
11
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
12
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
13
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
14
O agente secreto
14 Jan 2026 Por ANDRESSA ANTUNES & MAURO FRANCO NETO: O filme opta por uma violência oblíqua e um passado fragmentado, revelando como o autoritarismo se entranha no cotidiano através de micropoderes e corrupção ordinária
15
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES