Fragmentos XI

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Por AIRTON PASCHOA*

Oito peças curtas

horário eleitoral

mas quanto menos devoto
mais me aparece manipanso

[o barquinho vai]

Faço saber, a quem interessar choça, que o que não dá mais pé é toda eleição topar na teleca de tv aquele filha-da-puta daquele barquinho do ca — do caronte subindo a porra do último bracinho do Amazonas pra caçar o voto do derradeiro ribeirinho!

[desbunde II]

Faço saber, a quantos interessar possa decoro, que tem limite desbunde: tem gente que chega a votar!

Urna

Meu irmão me deu as costas. Não aguentava mais os escárnios. Dei-lhe também as minhas, não aguentava mais os escravos. A cara amarrada e amarrados a casa, vivemos pelos cantos emburrados, cada um com sua urna, cada urna com sua cinza.

Sinal de chuva

Há manhãs tão absolutas que nos levam quase a cair de joelhos aos pés do Tempo, tanto faz se já deposto, já despojado da antiga majestade, e nos curvar à breve entrevista; tão soberanas que, coroando mundo-de-deus assim desacorçoado, nos fazem sentir, mesmo súdito, menos infeliz; tão absurdas em si, distribuindo gratuitamente grãos de luz a todos os seres, que parece pouco se importarem com o saco-cheio; tão soberbas manhãs que chega a propiciar efusão íntima abrir o diário, apesar das mazelas universais, e corrê-lo à toa, não topasse o calhau perdido de um político perdido de uma província perdida de um país perdido que quis ser enterrado de pé. — Como nunca se curvara em vida, não se curvara na morte! A só ideia do calcanhar cravado no coração da terra… Fechei-a rápido, a vala de tipos, e tive a impressão que latejava a unha encravada. Sinal de chuva.

Triste Venise

Custa a crer que anda afundando. Parece tudo tão sólido. De lá pra cá, daqui pra lá, parando, comparando, desfilam corados, decorados, condecorados. Afundar como? onde o rubor dos condenados? Antegozando o mar de espuma, a bela dona ondula e agita os cabelos. A madame firme e forte, como boa e soberba fundação, oscila sem medo do alto da pilha. O cavalheiro que, cheio de si ou dos outros, comanda à proa a prole planejada, só falta esculpir, de rochoso e rugoso. Aturde, é verdade, o cheiro de mercado, mas a música de fundo, da melancolia das esferas, pede reação. O rumor, o rumor… Ora, rumores, e continua a vacilar por entre as gôndolas, até topá-la. Na dúvida, leva duas garrafas, aproveitando a oferta.

Nojo ameno

Não era o caso. Jogava, sim, por dentro, mas de leve, sem nunca assomar às vias de fato. Que ia dizer ao médico? que enjoava à toa, ora vendo TV, ora lendo o jornal, ora saindo à janela ou à noite e vagando a esmo, vasculhando o cosmo ou mais comodidade, entre caixas e gôndolas, por vezes mesmo carpindo o dia com seu amado Horácio? Chegara a pensar que era da vista o problema. Fechava os olhos, então, e por instantes passava ou parecia passar o suave mal-estar. Quando tocou a sentir que assim e assim ainda não desembrulhava de todo, teve de convir que não ia mais poder pular de alegria.

ATV

Foi assim de repente, desculpem-me, acho que vendo o jornal da noite. Travou. Acham que foi AVC e não a tevê. E não destrava mais. Fiz de tudo. Pensei até em plástica, mas o próprio médico, não sei como dizer, sorriu. A solução final, também cogitei, mas só de pensar no que podiam fazer com o meu rosto… É só por isso, por favor, não sorriam, só por isso que sorrio.

*Airton Paschoa é escritor, autor, entre outros livros, de Ver Navios (Nankin).

 

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