Engels e a literatura proletária

Imagem: Hamilton Grimaldi

Por FABIO DIAS*

Valorizando a herança cultural da burguesia revolucionária, Engels procura livrar toda influência da decadência ideológica burguesa sobre a literatura proletária

No difícil ano de 2020, Engels completou 200 anos de nascimento. Muitas foram as homenagens feitas ao pensador alemão tanto no Brasil quanto no restante do mundo. Em nosso país, Engels não foi apresentado tal como ele próprio se autoproclamava, como um segundo violino. Ao contrário, a obra engelsiana foi apresentada tal como é: o resultado da árdua aventura intelectual de um homem que constituiu uma obra independente e inconfundível.

É notório que Engels deu importantes contribuições a uma série de campos do conhecimento. Enquanto marxista, debruçou-se sobre a dialética, a política, o direito, o Estado, a família, a economia, a natureza e, vale sempre relembrar, também se deteve sobre o campo literário.

Exatamente por ser uma área bastante negligenciada, quando não esquecida, pelos pensadores e militantes comunistas, neste pequeno texto, gostaria de prestar minha homenagem a Engels apresentando suas contribuições para se pensar a formação de uma literatura proletária realista. Sem o anseio de esgotar a temática, almejo que as lições de Engels sobre esse assunto possam ser devidamente apreciadas pelos teóricos e críticos literários, assim como pelos próprios escritores que consideram urgente e necessária a luta pelo socialismo na atualidade.

1.

Embora desde sua juventude pré-marxista, Engels já se interessasse por literatura, conforme atesta sua atividade de teórico e crítico literário no início de 1840, quando ele ainda era um democrata radical repleto de ilusões a respeito da burguesia alemã e admirador de Ludwig Börne – importante escritor do movimento literário Jovem Alemanha – foi sobretudo a partir de 1848, com o aparecimento do proletariado enquanto classe revolucionária, que Engels dirigiu sua atenção para o fenômeno da literatura proletária.

Desde 1848, já sob influência da filosofia clássica alemã, da economia-política clássica, do movimento operário revolucionário, da profunda amizade que iniciara com Marx em 1844, Engels passa a considerar toda literatura autêntica como realista. A necessidade ontológico-materialista de afirmar a realidade enquanto realidade objetiva e todos os produtos da consciência como reflexo dessa mesma realidade, permitiram que Engels percebesse o potencial revolucionário da literatura enquanto veículo crucial para a batalha ideológica contra o processo de aburguesamento da consciência do proletariado. Basta relembrar que após derrotar a insurreição revolucionária do proletariado em junho de 1848 com base no uso das armas, a burguesia abandona de vez toda ideologia que impulsiona o esclarecimento das massas operárias em relação às raízes sociais da destruição da personalidade humana e, em troca, abraça tudo aquilo que escamoteia o ser em-si do real ao fazer da falsificação operada na cotidianidade determinada pela lógica fetichista da mercadoria um instrumento de propaganda e mordaça contra os impulsos revolucionários do proletariado. Por isso, não é casual a crítica de Engels à filosofia burguesa pós-1848 em seu Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, tampouco é a sua crítica à literatura burguesa que surge após as jornadas revolucionárias de 1848.

Ao notar essa guinada conservadora da burguesia que ilustra claramente sua falência histórica, Engels procura livrar a nascente literatura proletária de toda influência oriunda da decadência ideológica burguesa. O que mobiliza Engels nessa empreitada é o ímpeto de um comunista que exige da literatura proletária de seu tempo o espelhamento dos mais diversos temas que estão postos na cotidianidade com o realismo que hoje só é possível graças à existência do proletariado enquanto classe revolucionária – ou melhor, enquanto classe que só pode dar fim a toda inumanidade promovida ao longo do desenvolvimento civilizatório da sociedade de classes na medida em que as contradições sociais impelem esta classe para a superação do existente mediante o obrigatório contato consciente com a realidade objetiva. Daqui se segue o porquê do elogio de Engels a Fourier quando este aborda a questão matrimonial ou a Weerth quando este se atém sobre um tema tão cercado de moralismo como é o caso da vida sexual. Para Engels, a literatura proletária não poderia se render a qualquer preconceito – por ser este um odioso sentimento inerente a todas as formas de sociabilidade embasadas na divisão dos seres humanos em classes. Antes, a literatura proletária teria que assumir a realidade objetiva como a fonte de seu ser e figurá-la de modo realista, refletindo a triste sociabilidade capitalista em seu complexo movimento contraditório.

2.

Ao longo de sua luta por uma literatura realista em uma época na qual a existência do proletariado consolida a possibilidade objetiva para um futuro autêntico para o gênero humano, Engels considera crucial a valorização da herança cultural burguesa. Tal como não existe uma muralha da China separando revolução burguesa e revolução proletária, também não é possível afirmar a existência de uma clivagem rígida entre a literatura produzida ao longo dos anos em que a burguesia nutria suas ilusões historicamente necessárias e a literatura proletária. De fato, o ímpeto para a transformação da sociedade, a corajosa luta para a superação do antigo regime, o desejo humanista em criar um novo ser humano em muito superior ao estreito e provinciano ser social do medievo, tudo isso foi fundamental para que a literatura burguesa, enquanto produto da consciência de uma classe em luta revolucionária entre os sécs XVII e XVIII, fosse capaz de refletir todas as grandes contradições de uma época sem com isso se esquivar da figuração dos enormes problemas sociais provocados pela acumulação capitalista em desenvolvimento.

Valorizando a herança cultural da burguesia revolucionária, Engels procura livrar toda influência da decadência ideológica burguesa sobre a literatura proletária. Engels, tal como Marx, sabia muito bem que as jornadas revolucionárias de 1848 tinham provocado uma reviravolta em todas as esferas da atividade burguesa, inclusive na literatura. A partir de então, desnudar a realidade não só deixava de ser um interesse das classes dominantes, como também uma impossibilidade ontológica para as mesmas. Afinal de contas, não existe mais saída real para a superação dos problemas elencados pela sociedade burguesa sem abolir todos os fundamentos ontológicos da sociedade de classes: trabalho estranhado, dinheiro, propriedade privada, Estado e família monogâmica.

Por isso, Engels critica, em correspondência datada de 1859, a peça teatral Franz von Sickingen de Ferdinand Lassalle

Sickingende Ferdinand Lasalle. Embora esta peça dramática procure representar seus personagens enquanto representantes de tendências sociais realmente existentes, Lassalle se dobra ao realismo chinfrim do período da decadência ao não transparecer estas mesmas tendências por meio da ação dos personagens. A impossibilidade de criar o elo entre ação individual do personagem e as tendências sociais da época é o resultado ideológico da impossibilidade da burguesia levar adiante a revolução que ela própria iniciara no passado. A burguesia, agora inimiga de toda atividade revolucionária, encontra sua imagem e semelhança na incapacidade do escritor criar personagens de “carne e osso”, ou seja, personagens que só existem para o leitor na medida em que respondem aos problemas postos pelo mundo no qual está inserido objetivando-se, ou seja, agindo sobre o mundo criado pelo escritor. Essa característica ontológica de todo ser social – conforme atesta o trabalho enquanto atividade metabólica vital e, por isso, insuperável entre homem e natureza – se faz presente em toda literatura que não escapa da tarefa de representar aquilo de onde ela própria surge: a realidade objetiva. Em suma, Engels exige da literatura proletária o mesmo realismo sem preconceitos dos arautos da literatura burguesa revolucionária: a criação de personagens típicos, ou seja, a configuração de indivíduos que por meio da ação delineiam sua personalidade inconfundível e, ao mesmo tempo, expressam, também por meio da ação, os problemas cruciais de uma época.

Daqui decorre, por exemplo, o enaltecimento da obra de Balzac. Em correspondência com a escritora Margaret Harkness em 1888, Engels afirma de modo peremptório que a literatura proletária somente alcançaria o triunfo do realismo caso conseguisse figurar personagens efetivamente humanos. Daí decorre a necessidade do escritor superar qualquer tendência em fazer dos seus personagens seres idealizados – perfeitos ou imperfeitos demais. Por isso, Engels considera de indelével importância que a escritora revisitasse a obra balzaquiana não para copiar o seu estilo, mas sim para captar o verdadeiro valor do escritor da Comédia Humana: a capacidade de refletir a realidade objetiva em seu movimento tortuoso, complexo e repleto de contradições.

Interessante notar que em 1885, três anos antes da correspondência entre Engels e Harkness, nosso homenageado, ao se debruçar sobre o romance Os velhos e os novos de Minna Kautsky, demonstra o quanto o idealismo decadente do tipo naturalista permeava a literatura que se reivindicava proletário-revolucionária. Segundo Engels, o recurso ao romance de tendência utilizado por Minna Kautsky em nada colaborava para a missão desalienante da arte. Na verdade, Engels critica duramente essa questão na obra da escritora. A tendência, conforme aparece em Os velhos e os novos, adquire uma feição característica da decadência ideológica burguesa porque exprime tão somente os anseios subjetivos da escritora e estes são postos por ela de modo puramente artificial na obra. O resultado não poderia ser pior: ao invés de uma literatura que fora criada com a intenção de contribuir para a emancipação humana, tínhamos o exato oposto, uma literatura que reproduzia, em seu conteúdo e forma, a mais profunda reificação cotidiana; uma literatura que fazia dos personagens verdadeiras coisas manipuláveis conforme o gosto do escritor; uma literatura que contribuía para a criação de um tipo de leitor subjetivamente adaptado a um modo de vida social desumanizado e desumanizante.

Engels, em contraposição ao romance da sra. Kautsky, defende uma tendência de tipo realista – aquilo que Lukács denomina por partidarismo. Relembrando importantes nomes como Ésquilo, Aristófanes, Dante, Cervantes e Schiller, Engels afirma não ser contrário à tendência enquanto tal. Para nosso homenageado, a diferença entre a tendência dos escritores realistas do passado e os escritores da decadência do presente estava no fato de que entre os primeiros a defesa da substância humana diante de um mundo degradado aparece a partir da ação dos personagens enquanto entre os últimos esta surge por meio de fatores externos à obra, ou melhor, por meio da vontade subjetiva do escritor que molda a forma e o conteúdo conforme seu desejo interno, desrespeitando completamente a vivacidade dos seus personagens e a dinâmica do enredo.

Em resumo, os realistas de outrora – ao contrário dos atuais filisteus literários da decadência – conseguiam captar as grandes contradições da época porque o tempo histórico lhes empurrava para a participação ativa no interior da vida social. Em momento algum, o escritor realista do período da burguesia revolucionária se isolava diante do mundo. Antes, o vivenciava em toda sua nuance e complexidade. A participação ativa em relação aos destinos postos pela dinâmica da vida social do capitalismo em formação resultou em vivências enriquecidas que foram, por sua vez, o fator chave para que escritores como Balzac – um homem subjetivamente conservador e defensor da aristocracia – pudessem superar seus preconceitos de classe e fizessem triunfar o realismo na literatura.

Desse modo, Engels afirma que a herança cultural constitui um legado de fundamental importância para a literatura proletária porque ensina que a grandeza de toda obra literária que hoje se reivindique revolucionária está em nunca se esquivar da tarefa de colocar a nu as forças motrizes do desenvolvimento contraditório do capitalismo e jamais deixar de levar adiante as implicações disso — por um lado, a revolta humanista contra tudo aquilo que impele os seres humanos a se tornarem verdadeiras bestas-feras e, por outro, a defesa humanista da formação de um ser humano plenamente universal.

Nesse sentido, para se tornar realista, a literatura proletária não deve ser reduzida à condição de um instrumento de propaganda política. Não cabe ao escritor comprometido com a revolução social fazer da obra literária a expressão de seus desejos pessoais ou da organização política com a qual flerta ou milita. Se a literatura proletária quiser se tornar um arsenal de luta contra o aburguesamento da consciência dos trabalhadores, cabe a ela tão somente abraçar a realidade objetiva com toda sua força e refleti-la em toda sua potência. Será daí que a obra irá representar em seu conteúdo e em sua forma a bestialidade do mundo burguês em sua processualidade.

Quando a literatura proletária conseguir figurar a deformação da personalidade impulsionada pela sociedade de classes em seu concreto devir, quando essa literatura conseguir fazer com que os leitores tenham asco e ódio em relação a tudo aquilo que impossibilita o livre desenvolvimento de uma vida efetivamente humana, quando na literatura proletária houver o triunfo do realismo, teremos aberto mais uma trincheira na luta por aquilo a que Engels dedicou sua vida e sua obra: o triunfo do comunismo.

*Fabio Dias é professor de sociologia do Instituto Federal Catarinense.