Escrever

Imagem: Duncan Wylie
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Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro de Marguerite Duras

1.

A última vez que escrevi em A Terra É Redonda sobre Marguerite Duras (1914-1996) foi há quase três anos, em 22 de setembro de 2020, tendo comentado quatro de seus romances – Dias inteiros nas árvores (1953), Dez e meia da noite no verão (1960), Dez e meia da noite no verão (1960), A dor (1985) e Emily L. (1987).

Escritora, roteirista, poeta, dramaturga e diretora de cinema, é considerada uma das maiores romancistas do século passado. Associada ao movimento do nouveau roman, consagrou-se como roteirista de Hiroshima, mon amour (1959), dirigido por Alain Resnais.

Transcrevo um dos parágrafos contidos em meu artigo de 2020; “Duras escreveu quase cinco dezenas de livros, tornando-se conhecida mundialmente com O amante (1984), traduzido em dezenas de países e que só na França vendeu mais de dois milhões e meio de exemplares e lhe rendeu o cobiçado Prêmio Goncourt. Filha de pais franceses que trabalhavam na colônia francesa da então Indochina (atual Vietnã), Marguerite Donnadieu, seu nome verdadeiro, nasceu em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh), tendo lá passado a infância e adolescência, antes de se mudar para Paris, aos 18 anos, para cursar Direito na Sorbonne.”

 

2.

Em Escrever, originalmente publicado em 1993, a autora faz uma espécie de revisitação ou balanço de tudo; memórias, intimidade, formas de escrever, casa e locais em que sua escrita foi (vai) surgindo. Mariana Ianelli lembra nas orelhas do volume que foi em sua casa em Neauphle-le-Château que ela escreveu muitos de seus livros; foi também ali que, certo dia, recorda, que “reencontrou dentro de certo armário azul seus antigos Cadernos de Guerra, que deram origem ao romance A dor”. E, é nessa mencionada revisitação de tudo que surgem os cinco textos deste pequeno livro.

Para Julie Beaulieu, autora do prefácio, “Escrever”, a narrativa inicial, que tem o mesmo nome do volume, é a maior e “mais substancial”. Há “A morte do jovem aviador inglês”, “Roma”, “O número puro” e “A exposição de pintura”. Acho todas instigantes, mas vou privilegiar a primeira, embora a dedicada ao aviador e a pintura sejam cativantes, além da provocante “o número puro”.

Mas antes, gostaria de dar uma palavrinha sobre “Roma”, onde se encontra a conversa entre uma mulher e um homem na Piazza Navona. Ela, roteirista-diretora (Marguerite Duras?), acabou de encerrar as filmagens; ele, não se sabe exatamente quem é – talvez um hóspede do hotel em que se encontram; um ex-amante. Olham o chafariz da Piazza e travam o seguinte diálogo, simples, gratuito, mas para mim, bastante expressivo, um tatear de aproximação (ou distanciamento?):

“Parece que choveu.
É o que achamos todas as noites. Mas não chove. Não tem chovido em Roma esses dias…É a água dos chafarizes que o vento faz respingar no chão. A praça inteira está encharcada.
As crianças estão descalças…
Fico olhando todas as noites.
Pausa.
Está ficando um pouco frio.
Roma é muito perto do mar. Esse frio é do mar. Você sabia.
Acho que sim.

 

3.

Escrever é um ensaio de pouco mais de 40 páginas e, num registro que entendo como autobiográfico, realiza uma reflexão sobre o ato da escrita. Em outro livro, É tudo, edição bilíngue, conversando com Yann Andréa, ao responder para que serve escrever, diz: “É, ao mesmo tempo, calar e falar. Escrever. Quer dizer também calar-se algumas vezes”. Acrescenta, de forma não muito animadora: “Escrevi durante uma vida inteira. Como uma imbecil, fiz isso. Também não é mau ser assim. Nunca fui pretensiosa. Escrever durante uma vida inteira ensina a escrever, não salva de nada”.

A romancista e poeta Conceição Evaristo disse em algum lugar que “escrever é uma maneira de sangrar”, enquanto Clarice Lispector era taxativa: “escrevo para não morrer”.

Gabriel García Márquez, por sua vez, declarou antes da existência da internet e dos celulares, que poderia escrever em qualquer lugar, desde que não houvesse um telefone por perto; em entrevistas posteriores, contou que foi se tornando exigente e cheio de pequenas manias, e que só conseguia escrever se em sua mesa de trabalho tivesse um pequeno vaso com um cravo, mas tinha que ser vermelho etc.

Já Ernest Hemingway escreveu, durante anos, em pé, martelando sua máquina de escrever. Só bebia quando parava o seu labor. Falando dos escritos de William Faulkner, gostava de lembrar que detectava nos escritos do estadunidense “quando ele deu o primeiro gole”. Já Osman Lins se dizia um chato, pois tornara-se escravo de sua escrita, mantendo rigoroso horário para dormir e para acordar; se saísse da rotina, ficando acordado até mais tarde ou se bebesse, não conseguia escrever no dia seguinte.

Marguerite Duras falou a respeito da solidão no ato de escrever: “eu era uma pessoa sozinha com a minha escrita, sozinha e bem longe de tudo (…) Conservei essa solidão dos primeiros livros. Levei-a comigo. Sempre levei minha escrita comigo aonde quer que fosse (…) A solidão da escrita é uma solidão sem a qual a escrita não acontece, ou então se esfarela, exangue, de tanto buscar o que mais escrever. (…) Escrever era a única coisa que preenchia minha vida e a encantava. Foi o que fiz. A escrita jamais me abandonou”.

Mas ela tinha alguns macetes e hábitos: não escrevia em quartos de hotel, sempre carregava uísque na mala “para os casos de insônia ou desesperos repentinos”. Além disso, ela tinha amantes, mas evitava mostrar o que estava escrevendo para eles e “quando terminava um capítulo, escondia deles”.

Sua casa em Neauphle “é o lugar da solidão”, e “a solidão não se encontra, se faz. A solidão se faz sozinha. Eu a fiz. Porque decidi que era ali que deveria estar sozinha, que ficaria sozinha para escrever livros. Foi assim que aconteceu (…) Esta casa se tornou a casa da escrita”.

Marguerite Duras vai apresentando seus argumentos, certezas e dúvidas. Julie Beaulieu chama a atenção para o fato de que “Escrever” se organiza em torno de vários fragmentos de textos em parágrafos mais ou menos longos, mas por vezes com frases curtas, uma ou duas linhas, poucas palavras. Mas, para a escritora, o ato de escrever “é uma contradição e também um absurdo”, pois “escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer ruído”; escrever é um “trabalho de condenado”.

Entretanto, pode ser feito a qualquer hora, sem as muitas limitações envolvendo “ordens, chefes, armas, multas, insultos, policiais, chefes e mais chefes. E galinhas chocas dos fascismos de amanhã”. Nunca se sabe, antes de escrever, o que vai ser escrito, “é o desconhecido de si mesmo, da sua cabeça, do seu corpo (…) Se soubéssemos alguma coisa daquilo que vamos escrever antes de fazê-lo, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não valeria a pena”. Conclui dizendo que “a escrita chega como o vento, é nua, é de tinta, é a escrita, e passa como nada mais passa na vida, nada demais, exceto ela, a vida”.

Em um dos capítulos de Bens imaginários, Deborah Levy transcreve, como epígrafe, o seguinte trecho de Paris França (1940), de Gertrude Stein: “Afinal, todo mundo, isto é, todo mundo que escreve, está interessado em viver dentro de si mesmo para poder contar o que está dentro de si mesmo. É por isso que os escritores precisam ter dois países, um ao qual pertencem e um onde realmente vivem”.

Não sei se Marguerite Duras concordaria com tal juízo; talvez sim…

*Afrânio Catani é professor titular sênior aposentado da Faculdade de Educação da USP. Atualmente é professor visitante na Faculdade de Educação da UERJ, campus de Duque de Caxias.

Referência


Marguerite Duras. Escrever. Tradução: Luciene Guimarães de Oliveira. Belo Horizonte, Relicário, 2022, 144 págs.

Bibliografia


Deborah Levy.Bens imobiliários (trad. Adriana Lisboa). Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

Marguerite Duras. É tudo/C’est tout – edição bilíngue. Tradução: José Costa. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1999.


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