Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
A volatilidade econômica nasce do contágio social: narrativas que se espalham como vírus e sentimentos que se amplificam sistemicamente, exigindo uma governança que enxergue a psicologia por trás dos números
1.
No livro Animal Spirits George Akerlof e Robert Shiller defendem a economia global não ser movida apenas por agentes econômicos racionais e uma “mão invisível”, mas sim por “espíritos animais”. São motivos não econômicos e comportamentos irracionais subjacentes às flutuações econômicas.
Segundo os autores, a macroeconomia tradicional falha ao ignorar esses fatores mentais. São as verdadeiras causas de booms, recessões e crises.
As principais ideias da obra estão estruturadas em torno de cinco fatores psicológicos e na resposta a oito perguntas fundamentais sobre a economia.
Os autores identificam cinco elementos psicológicos essenciais capazes de moldarem as decisões econômicas.
O primeiro é a confiança. Diferente de uma previsão racional, a confiança é um sentimento de “crença” ou “confiança”. Leva as pessoas a descartar ou processar informações de forma não racional. Flutuações na confiança criam um “multiplicador de confiança”, onde o otimismo ou pessimismo se autoalimenta, amplificando as oscilações do ciclo de negócios.
O segundo é a equidade. As pessoas possuem um forte desejo de serem tratadas de forma justa. Essa preocupação com a justiça social influencia profundamente a fixação de salários e preços, explicando por qual razão as empresas relutam em cortar salários mesmo em tempos de crise, gerando desemprego involuntário.
O terceiro é corrupção e má-fé. O capitalismo incentiva a produção daquilo almejado pelas pessoas dispostas a pagar. Inclui produtos fraudulentos. Em períodos de expansão, a contabilidade criativa e a má-fé tendem a aumentar, e a revelação dessas práticas após o estouro da bolha de ações agrava as recessões.
O quarto é ilusão monetária. Ocorre quando as decisões são influenciadas por valores nominais em dólares em vez de valores reais (ajustados pela inflação). George Akerlof e Robert Shiller mostram, ao contrário do pregado pelo mainstream na tradição da economia neoclássica, as pessoas não “enxergam através do véu da inflação”. Isso afeta contratos e a política monetária.
2.
O quinto é narrativa ou estória. A mente humana organiza o conhecimento em torno de narrativas. Estórias contagiosas sobre a economia (como a ideia de que os preços dos imóveis nunca caem) espalham-se como vírus e podem levar nações inteiras a comportamentos de euforia ou pânico.
Estória (sem H) refere-se a uma narrativa de ficção, um conto popular, uma lenda ou uma invenção imaginária, enquanto história (com H) designa o estudo ou relato de fatos reais e acontecimentos passados, como a disciplina escolar ou a evolução da humanidade. Ambas as formas são aceitas, com “história” sendo mais abrangente e comum hoje para os dois casos.
George Akerlof e Robert Shiller propõem os “espíritos animais” (confiança, equidade, corrupção, ilusão monetária e estórias) serem a chave para responder a oito questões fundamentais.
Por qual razão as economias caem em depressão? As depressões resultam de colapsos profundos na confiança e mudanças nas estórias contadas pelas pessoas sobre a economia.
Por qual razão os Bancos Centrais têm poder sobre a economia (na medida na qual têm)? O poder reside não apenas no controle da moeda, mas na capacidade de intervir sistemicamente para restaurar a confiança e o crédito em tempos de pânico.
Por qual razão existem pessoas mesmo dispostas a abaixar o salário pedido não conseguem encontrar um emprego? O desemprego involuntário ocorre porque as preocupações com a equidade e a moral dos trabalhadores impedem os salários caírem até o nível de equilíbrio do mercado. Não citam as lutas sindicais por contratos coletivos imporem limite a abaixar para nível inferior ao salário nominal.
Por qual razão existe uma troca (trade-off) entre inflação e desemprego no longo prazo? Ao contrário da teoria clássica, a ilusão monetária e a resistência a cortes salariais nominais criam uma relação persistente entre essas duas variáveis.
Por qual razão poupar para o futuro é tão arbitrário? As decisões de poupança dependem menos de cálculos racionais e mais de “enquadramentos mentais” e pistas culturais, como a facilidade do uso de cartões de crédito ou estórias sobre riqueza.
Por qual razão os preços financeiros e os investimentos corporativos são tão voláteis? A volatilidade é alimentada por ciclos de feedback psicológico, onde o otimismo excessivo gera bolhas e elas, inevitavelmente, estouram.
Por qual razão os mercados imobiliários passam por ciclos? O setor imobiliário é vulnerável a histórias contagiosas sobre preços pressupostos “nunca caírem”, levando a bolhas impulsionadas pela exuberância e, por vezes, pela má-fé.
Por qual razão a pobreza persiste entre minorias através de gerações? A pobreza é perpetuada por histórias de exclusão e sentimentos de injustiça, criando uma divisão entre “nós” e “eles”. Afeta a identidade e as oportunidades econômicas.
3.
Os autores utilizam esses espíritos animais para explicar fenômenos não conseguidos pela teoria convencional, como a volatilidade dos preços financeiros, a persistência da pobreza absoluta, em minorias de países ricos, e por qual razão as economias caem em depressão.
George Akerlof e Robert Shiller propõem uma visão de governo baseada em livros de conselhos parentais. Ele não deveria ser autoritário – o Estado não deve sufocar a criatividade do capitalismo – nem permissivo. Significa deixar os mercados totalmente desregulados. Permitiria, assim, os espíritos animais correrem soltos, levando a excessos de especulação como estivesse em um estado alcoólico descontrolado.
Tal como em um “lar feliz”, o papel do governo é estabelecer limites para proteger a sociedade dos excessos dos espíritos animais, mantendo um ambiente estável para a inovação.
Para combater crises severas, como a Grande crise financeira de 2008, os autores sugerem os governos não focarem apenas na taxa de juros, mas estabelecerem dois alvos. Um seria para a demanda agregada (pleno emprego) e outro para o fluxo de crédito, garantindo o financiamento chegar àqueles merecedores em condições normais.
Para visualizar o papel do Estado, segundo os coautores, imagine um árbitro em um jogo de futebol: se ele for excessivamente rigoroso, o jogo não flui; se ele for ausente e ignorar as regras, o jogo torna-se muito violento e os jogadores desistem de participar por medo de trapaças e lesões. O governo deve ser o árbitro capaz de garantir o jogo da economia permanecer justo e produtivo, permitindo o talento dos jogadores brilhar sem o caos se instalar.
George Akerlof e Robert Shiller não adotam uma postura de exclusividade entre o individualismo e o holismo metodológico. Em vez disso, eles propõem uma abordagem capaz de integrar a psicologia individual aos resultados macroeconômicos sistêmicos.
Embora partam da premissa de as causas das flutuações econômicas são “principalmente de natureza mental” e residirem nos padrões de pensamento individuais, eles focam em como esses estados mentais interagem e se amplificam para criar fenômenos complexos. Não podem ser explicados apenas pela soma de decisões racionais isoladas.
4.
Os autores afirmam, para entender a economia, ser preciso confrontar o fato de suas causas serem mentais e encontradas em nosso pensamento cotidiano, como sentimentos e paixões. Cinco “espíritos animais” (confiança, equidade, corrupção, ilusão monetária e estórias) animam as ideias e sentimentos das pessoas.
A teoria deles não se limita à decisão pessoal isolada. Eles introduzem o conceito de multiplicador de confiança, onde uma mudança inicial na confiança individual gera rodadas sucessivas de gastos e estes realimentam a renda e a própria confiança em nível macroeconômico.
A mente humana é construída para pensar em termos de narrativas. Essas estórias funcionam como vírus e se espalham por “boca a boca”, criando um contágio social capaz de levar a nações inteiras a epidemias de superconfiança ou pessimismo. Esse fenômeno é claramente holístico, pois o “agregado de tais estórias” torna-se uma narrativa nacional ou internacional dirigente da economia.
Eles descrevem explicitamente a existência de “efeitos ou fenômenos sistêmicos complexos” e o “contágio da falha de um negócio para outro”. A macroeconomia tradicional falha ao tentar minimizar os desvios da racionalidade, pois esses desvios (espíritos animais) são os verdadeiros motores das “viagens de montanha-russa” da economia global.
A visão dos autores é o problema econômico atual residir na quebra da coerência entre os espíritos animais e as instituições econômicas. Eles veem o sistema econômico como um todo possível de cair em “desordem” ou “colapso de crédito”, devido a esses fatores psicológicos emergentes.
Em resumo, utilizam a psicologia individual para explicar como surgem fenômenos macro sistêmicos emergentes, movidos por loops de feedback e contágios de informação. Tornam o comportamento do sistema algo distinto e muito mais volátil diante a simples coordenação de agentes racionais.
Para entender essa dinâmica, imagine uma ola em um estádio de futebol: ela começa com o impulso de alguns torcedores individuais (decisão pessoal/espírito animal), mas o fenômeno da onda percorrendo todo o estádio só existe através do contágio visual e da reação coordenada de milhares de pessoas (fenômeno sistêmico emergente). O “espetáculo” da onda não pode ser explicado olhando apenas para um torcedor sentado, mas sim pela forma como o movimento de um induz o próximo em uma cadeia coletiva.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
Referência

George Akerlof e Robert Shiller. How human psychology drives the economy, and why it matters for global capitalismo. New Jersey, Princeton University Press, 2010, 230 págs. [https://amzn.to/4jLIVr4]






















