Zé Celso

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Por JEAN TIBLE*

Exu das artes cênicas, sai de cena miticamente com o fogo

José Celso Martinez Corrêa foi uma das figuras mais entusiasmantes, gostosas e gozosas da cultura, da política e da vida. Devorou o teatro revolucionário europeu de Stanislavski, Meyerhold, Artaud e Brecht, dando coletivamente corpo ao teat(r)o oficina uzyna uzona. Personagem do terceiro-mundismo, deslocou a incitação de Che Guevara pela multiplicação da subversão vietcongue, ao perceber o papel do teatro na “abertura de uma série de Vietnãs no campo da cultura – uma guerra contra a cultura oficial, de consumo fácil”.[1]

Zé Celso compõe essa geração que pensou-sonhou e tentou concretizar um brazyl – com/o Cacilda, Celso Furtado, Darcy, Guerreiro Ramos, Glauber… A descolonização como conduta e ética de sua vida-obra e a antropofagia como confluência e inspiração dessas experimentações subversivas, numa efervescência político-cultural que vai ser duramente golpeada em 1964 pelos militares e a classe dominante e novamente no fim de 1968 com o AI-5.

O Oficina viveu o maio parisiense de 68 com O Rei da Vela e na sequência, no Brasil, incendiaram a cena com Roda Viva, que será reprimida pelos grupos de extrema direita e proibida pela censura. Após prisão e tortura, Zé Celso habitará a Revolução dos Cravos em Lisboa e a celebração da vitória da independência em Maputo em 1974-1975. Mergulhou também no sertão e encenou o abolicionista Antônio Conselheiro na comuna-Canudos.

Nesse século não cessou de insistir na direção político-existencial dos povos indígenas e quilombolas e é nesses termos que vai compreender o embate entre Oficina e Grupo Silvio Santos. Como ocorre com os povos da terra e nas múltiplas ocupações na cidade e no campo, se escancara a incompatibilidade dos seus modos de vida com o universo capitalista, encenada recorrentemente na deglutição do inimigo, na radical sabedoria de se lidar com o antagônico.

Parque do Bixiga contra as fálicas torres e o projeto monocultural do Grupo SS. Nessa semana que foi a mais quente já registrada na história só se reforça a urgente atualidade de reavivar as águas e matas da cidade, inclusive em seu centro. A infraestrutura marxista ampliada, da economia para a vida.[2] Um teatro-rua, teatro-pista, teatro-multidão, teatro-carnaval, do janelão de vidro em sua conexão com a cidade, atravessado pela cesalpina, árvore totem – que nasce dentro do teatro de Lina e vai pra fora. O transbordar de uma cosmopolítica; terra e democracia sendo semeadas.[3] Zé Celso, nesses últimos meses, estava mergulhado na dramaturgia de A queda do céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, planejando o trabalho inédito com indígenas.

Zé Celso era de marcante generosidade com os jovens,[4] o Oficina lançando para o mundo inúmeras atrizes, atores e artistas. Sempre atento às novas irrupções – as incluindo a toda hora nas peças, em transformação permanente –, foi pioneiro, na linha do bárbaro tecnicizado de Oswald de Andrade, na filmagem e transmissão dos espetáculos. Em entrevista nas semanas seguintes às revoltas de junho de 2013, com a brasa ainda quente, Zé Celso situa a virada nos termos de uma retomada de “um espírito de aqui e agora, uma coisa que é ‘1968’. “Em duas semanas, o Brasil mudou. Tudo mudou, e tudo tem que mudar”.

Vai, ainda, pescar a dimensão subversiva dos vinte centavos e da proposta geral do MPL como “uma metáfora para o passe livre de tudo, inclusive do teatro”. E encara os protestos como um coro; não “os coros de musical americano, de levantar a perna na hora certa. São coros como o futebol, de indivíduos que jogam, que entram em contato com o público”.

Invocando Antonin Artaud e um panteão do teatro, diz “incentivar o poder humano neles, de se autocoroarem. De cada pessoa emanar o seu poder. Teatro é democracia direta. Instantanérrima”. Em contraposição a “todas as catracas, as jaulas, as coisas que fecham, você̂ tem que ir driblando, driblando, driblando para emergir, dar o que você̂ sabe e receber dos que sabem, dos que estão sabendo agora”.[5]

“Venho de uma coisa muito anterior a mim mesmo”, dizia ao ser perguntando sobre o futuro do Oficina e invocando Dioniso e Eros.[6] Pelo Zé Celso e pelo bairro (a bandeira do Vai-Vai cobrindo belamente seu caixão), devemos conquistar o Parque do Bixiga. A comuna-Oficina seguirá, mutação de apoteose, como um laboratório da felicidade guerreira de corpos elétricos no terreyro eletrônico. Vai re-exisitir, puxada pelas bacantes, nessa dimensão recorrentemente colocada por Zé Celso de “um trabalho de libertação, inclusive de si mesmo” que se conjuga ao “sentido de libertar a força de produção que todo mundo tem e, com a soma dessa força de produção, rebentar as relações de produção velhas que estão te reprimindo”, constituindo assim “o movimento revolucionário”.[7]

Exu das artes cênicas (honraria dada por Mãe Stella de Oxóssi), sai de cena miticamente com o fogo, como Sara Antunes tão bem colocou. Em toda sua existência Zé Celso professou e exerceu o luxo comunal, da classe que produz e cria (o emblema do Oficina sendo a bigorna), no ofício (e sacerdócio) teatral, nos amores e no modesto apartamento compartilhado. A beleza da vida coletiva.

*Jean Tible é professor de ciência política na USP. Autor, entre outros livros, de Política selvagem (Glac edições & n-1 edições).

Publicado originalmente na revista Democracia socialista.

Notas


[1] José Celso Martinez Corrêa. “O poder de subversão da forma (por Tite Lemos)” (1968) em Karina Lopes e Sergio Cohn (orgs). Zé Celso Martinez Corrêa (Rio de Janeiro, Azougue, 2008, p. 16).

[2] “A natureza é a infraestrutura da vida”, uma entrevista com José Celso Martinez Corrêa (por Hugo Albuquerque, James Hermínio e Gregorio Gananian): https://jacobin.com.br/2023/07/a-natureza-e-a-infraestrutura-da-vida/

[3] Vale ver a conversa “a voz dos que cultivam a terra” com Sonia Guajajara, Guilherme Boulos e Zé Celso ocorrida em junho de 2016 no Oficina: https://www.youtube.com/watch?v=_rf89zFaNT8

[4] Eu mesmo vivi isso. Quando fui lançar, em 2013, o livro Marx selvagem me veio a sensação de que o único lugar adequado era o Oficina. Conhecia Zé das peças e de manifestações, mas nunca havíamos conversado. Ele se entusiasmou e daí começou uma amizade-amor. O lançamento foi filmado e termina com uma linda fala dele, seguida de ciranda: https://www.youtube.com/watch?v=kdhQhqxZYTQ. Meu livro seguinte, Política selvagem, lançado no ano passado é dedicado a oito mestres – zé é um desses.

[5] “Entrevista com Zé Celso Martinez (por Daniel DOUEK)” (Centro de Pesquisa e Formação, SESC São Paulo, 12 de julho de 2013). Disponível em: https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/noticias/entrevista-com-ze-celso-martinez. “‘Tenho muita libido, muito amor e sei levar ao êxtase’, diz Zé Celso aos 80” (entrevista por Iara Biderman) (Folha de S. Paulo, 18 de janeiro de 2018).

[6] Entrevista no Roda Viva, TV Cultura, em 2004: https://www.youtube.com/watch?v=9t2yIooPHbQ

[7] “A volta de Zé Celso” (por Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto M. Pereira) (1979) em Karina Lopes e Sergio Cohn (orgs.). Zé Celso Martinez Corrêa (Rio de Janeiro, Azougue, 2008, p. 88).


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