Estamos correndo um risco existencial

Imagem: Possessed Photography
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Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

Enquanto parte da elite se contenta com o papel de vassalo, o risco existencial do Brasil revela-se não na geografia, mas na vacuidade de nossa vontade coletiva de nos defender

“Os Estados Unidos são os primeiros a passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”
(Georges Clemenceau, primeiro-ministro francês).

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela deixa escancarado o risco que correm o Brasil e outros países. Prevalece a lei da selva. A superpotência imperial mostra-se plenamente disposta a usar a força militar para avançar seus interesses. O Hemisfério Ocidental inteiro, da Groenlândia à Patagônia, passou a ser visto, abertamente, sem disfarces, como “quintal” dos EUA.

Em 2019, publiquei um livro com o título O Brasil não cabe no quintal de ninguém. De fato, o nosso país é um dos maiores do mundo em termos geográficos, populacionais e econômicos. Mas repare bem, leitor ou leitora, na escolha das palavras. Escrevi: “de fato”. Esses fatos objetivos –  território, demografia e PIB – não são suficientes. Falta-nos uma dimensão crucial da soberania: a convicção por parte dos brasileiros de que temos a obrigação de nos comportarmos à altura das dimensões do Brasil, o que inclui, por suposto, a disposição de resistir com energia a qualquer ameaça ou incursão vinda do exterior. E pior: faltam-nos camadas dirigentes ligadas visceralmente ao país. A verdade é que, embora o Brasil não caiba no quintal de ninguém, grande parte da elite brasileira cabe no quintal de qualquer um.

Alguma dúvida? Basta lembrar um fato recente desprimoroso: todos os possíveis candidatos da direita à Presidência da República em 2026 declararam apoio à intervenção dos EUA na Venezuela e à captura de Maduro – todos, de Tarcísio a Flávio Bolsonaro, passando por Ratinho, Caiado e Zema. Foi mais uma demonstração de que são candidatos não à presidente da República, mas a vassalos de Trump. Versões tupiniquins de Javier Milei. E só isso basta para que consideremos a eleição de 2026 como a mais importante, a mais vital de toda a história do Brasil.

O nosso país é não só imenso, mas também dono de vastos e valiosos recursos naturais de todo o tipo. Um país como esse é sempre alvo de cobiça estrangeira. Os EUA, em especial, tudo farão para garantir fácil acesso a esses recursos.

Com o sequestro de Maduro e a exigência de Trump de “acesso integral” ao petróleo e outros recursos do país, sob pena de novos ataques, ninguém mais pode em sã consciência ignorar que o Brasil corre risco. Um risco sem precedentes. Não somos o alvo imediato dos EUA, é verdade, não encabeçamos a fila dos que podem ser agredidos. Outros parecem estar na nossa frente – Colômbia, Cuba, Groenlândia, Irã. Mas a casa de um vizinho está em chamas, e o incendiário é altamente periculoso.

Fora os integrantes da poderosa quinta-coluna, alguém ainda se anima a negar que o Brasil precisa se preparar militarmente? Vou mais longe: há dúvidas de que essa preparação tem que incluir armamento nuclear? Há muito tempo, figuro entre a minoria de brasileiros que defende prioridade para o reforço substancial do aparato de defesa nacional. No meu livro acima citado, por exemplo, há um texto intitulado “Brasil, um país desarmado” no qual defendo a tese de que precisamos ser militarmente capazes, não de derrotar uma superpotência como os EUA ou qualquer outra, mas de sinalizar de forma crível que qualquer ataque terá como resposta a imposição de perdas expressivas ao país agressor.

Entender essa distinção é crucial – temos que dispor de poder de dissuasão, inclusive atômico. Acumular capacidade de dissuasão está a nosso alcance. Uma vitória sobre uma superpotência, não. É falso, portanto, o dilema entre rendição e capacidade de vencer uma guerra contra os EUA ou outra superpotência. 

Nesse ponto, as lições da história recente são claras e cristalinas, como raramente são. Normalmente, o que a história ensina é ambíguo ou controvertido. Agora, não.

Vejamos. A Líbia foi atacada e destruída. Tinha bomba atômica? Não. O mesmo se pode dizer da Síria, outro país nuclearmente desarmado. O mesmo do Iraque, o mesmo do Afeganistão. A Venezuela é o exemplo mais recente.  Por outro lado, a Coreia do Norte, que conta com armas nucleares e mísseis de longo alcance, foi atacada alguma vez? Não.

É preciso dizer mais? Não creio, está claramente desenhado.

Confirmando essas lições, o que ficou claro em 2025 é que o governo Trump só respeita países que têm força bruta e capacidade de retaliar, leia-se, fundamentalmente China e Rússia. Mesmo os aliados tradicionais são desrespeitados. Por exemplo, os europeus, que são militarmente dependentes dos EUA, têm sido repetidamente desrespeitados e até mesmo publicamente humilhados, como nunca antes. Uma eventual ocupação da Groenlândia pelos EUA coroaria essa humilhação.

 Em face do contexto internacional, a nossa vulnerabilidade militar tornou-se um risco existencial. Precisamos, urgentemente, de uma revisão completa da política de defesa externa e um aumento dos gastos militares. É caro? Sim. Haverá “espaço fiscal”? Temos que abrir esse espaço à força – se é que pretendemos, de fato, viver como nação independente. Sem bravatas e sem demagogia, o Brasil deve também aprofundar a cooperação militar com a China e a Rússia.

Acrescente-se, para total clareza, que não se trata de defender o nosso país contra eventuais agressões de países vizinhos e de ser “a maior potência militar da América do Sul”. Isso é basicamente irrelevante no horizonte visível. O risco não vem do nosso entorno geográfico imediato, mas de uma superpotência imperial ambiciosa e agressiva.

 Não ignoro, nem subestimo as barreiras que terão de ser superadas para colocar uma política vigorosa de defesa em marcha. Uma delas é de natureza histórica. A verdade é que o brasileiro está muito mal-acostumado. Desde 1864, no início da Guerra do Paraguai, o território nacional não foi objeto de ataque nenhuma vez sequer. A exceção parcial a isso foi o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães no início da década de 1940, fato que levou à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Ancorados nessa experiência feliz, passamos o tempo todo declarando o Brasil como um país em paz permanente, “deitado em berço esplêndido”. Compare-se com a experiência da China e da Rússia, países vitimados por repetidas invasões estrangeiras em grande escala. Chineses e russos estão preparados. Para nós, o desafio atual é totalmente novo.

Como o Brasil não é alvo imediato, precisamos tirar partido do tempo que ainda temos, talvez apertado, para construir um poder de dissuasão apreciável e assim superar ou pelo menos mitigar, a nossa vulnerabilidade militar.

No caso brasileiro, a primeira tentativa do governo Trump será interferir, provavelmente de forma intensa, nas eleições presidenciais de 2026. Eleger um fantoche é o caminho mais rápido e eficaz para dominar o Brasil. Seria uma vitória facílima, sem tiros. Mais uma razão para cerrarmos fileira em defesa da reeleição de Lula. O meu lema agora é: “Lula? Nunca critiquei”.

Caso sejamos bem-sucedidos na reeleição de Lula, o jogo mudará de 2027 em diante. Virão as ameaças, as medidas unilaterais, com o objetivo de alcançar a rendição do Brasil. Em caso de resistência nossa, não se pode descartar a agressão militar ou ameaças pesadas de agressão.

Toda atenção é pouca. Os Estados Unidos têm uma longa tradição imperial, intervencionista e belicosa. Atualmente, são uma superpotência em declínio e inconformada com a perda de poder relativo. Nada mais perigoso.

Para nós e outros povos, the writing is on the wall, como dizem os próprios americanos.

*Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de Estilhaços (Contracorrente). [https://amzn.to/3ZulvOz]

Versão ampliada de artigo publicado na revista Carta Capital em 09 de janeiro de 2026.

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