Eurofobia

Imagem: Lara Jameson
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Por CARLOS HENRIQUE VIANNA*

Apostar na irrelevância dos países europeus, no quase colapso do projeto europeu, é um manifesto exagero, está mais no terreno da eurofobia de certos analistas do que na avaliação objetiva do peso relativo da Europa no mundo

Em artigo postado no site A Terra é Redonda, Flávio Aguiar escreveu: “Mas o encontro da sexta-feira no Salão Oval foi a demonstração de como o Bloco (ocidental) está mudando sua natureza, para dizer o mínimo. Ele não tem mais uma liderança; tem um patrão, Donald Trump, assessorado por um feitor, JD Vance. Dedo em riste, o patrão dita o que os seus ex-aliados, hoje súditos, devem ou não pensar, sentir e fazer. A estes cabe abaixar as orelhas e obedecer às ordens”.

Para Flávio Aguiar os países europeus são vassalos dos EUA de Donald Trump e a este devem obediência cega. É o que se depreende de seu artigo “O novo monarca absoluto de Washington”.

Chama a atenção no artigo citado como Flávio Aguiar dá como estabelecido que os ditames extremistas e até tresloucados de Donald Trump são o que vai acontecer sem contestação. Com Donald Trump a liderança de superpotência dos EUA passou a ser uma relação de patrão durão com seus empregados medrosos, segundo o articulista.

Ora, até a Suprema Corte de Justiça norte-americana, além de várias a nível estadual, já reverteram ordens executivas do “imperador”, como o congelamento das ajudas da USAID ou a medida inconstitucional de negar a nacionalidade para os filhos de imigrantes nascidos nos EUA. E o que dizer do “vassalo” Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, que retaliou a taxação de 25% para Canadá e México, mas já adiada até o dia 2 de abril. E que chamou de “burra” as medidas de Donald Trump. No caso da China, esta retaliará duramente a taxação de 10% anunciada pelo governo americano. Alguém duvida da capacidade chinesa de enfrentar Donald Trump?

A reação dos países europeus face à puxada de tapete ao governo e às Forças Armadas ucranianos foi imediata, de clara oposição a Donald Trump. A Europa está numa corrida armamentista contra o tempo, está comprometida com o apoio à Ucrânia e uma derrota desta com o colapso do atual governo e rendição frente à Rússia será uma derrota europeia. É o que ficou estabelecido na cúpula de chefes de governo de 6 de março, com a aprovação do plano proposto pela Comissão Europeia de 800 bilhões de euros para despesas militares e apoio à Ucrânia. Resta saber se a Europa de 500 milhões de habitantes e uma economia 10 vezes superior à russa se vergará ante o outro “imperador”, parceiro de Donald Trump, o saudoso da URSS e da KGB, Vladimir Putin.

Sobre a Europa, Flávio Aguiar escreveu o seguinte: “O cartão de visitas do bloco ocidental compreendia o regime capitalista, a democracia eleitoral, a liberdade cultural e nos costumes sociais, e muitas vezes a proteção econômica da social-democracia europeia. É verdade que nem sempre este cartão correspondia à realidade, dado que os Estados Unidos e seus aliados seguidamente patrocinaram, apoiaram ou conviveram comodamente com ditaduras sanguinárias na América Latina, na África, na Ásia e na Oceania”.

No que toca a nós, latino-americanos, quem sempre esteve no apoio ativo às ditaduras militares das décadas de 1960 e 1970 foram os Estados Unidos, não a Europa. No golpe chileno de Pinochet, foram os EUA e a ditadura militar brasileira os grandes apoiantes. Vários países da Europa e da América Latina abriram suas embaixadas para proteger e asilar milhares de chilenos e latino-amerticanos residentes no Chile. O bloco soviético cortou relações imediatamente com o novo regime. E sabem quem fechou a embaixada aos pedidos de asilo de dirigentes das esquerdas chilena? Foi a A China socialista, que não só manteve como incrementou as relações com o novo regime fascista de Pinochet. Quem estava lá nestes dias terríveis sabe disso.

Voltando à Europa e a Donald Trump, as medidas e pronunciamentos que vêm se sucedendo tomadas e anunciadas pelos dirigentes europeus, após o “booling” feito por Donald Trump e D. J. Vance a Volodymyr Zelenski, não são coerentes com o diagnóstico de Flávio Aguiar: Àqueles cabe “abaixar as orelhas e obedecer às ordens” (do patrão Trump).”

A geopolítica e os instáveis equilíbrios mundiais estão mudando rapidamente e se assiste com surpresa a uma inusitada articulação EUA-Rússia, impulsionada pela proximidade pessoal entre Donald Trump e Vladimir Putin. Mas será que a Europa é “uma União que se vê ameaçada de afogar-se no redemoinho da irrelevância geopolítica.” Se a Rússia tiver uma vitória incontestável no conflito com a Ucrânia, a Europa também será derrotada. E por isso mobiliza-se rapidamente para fazer frente ao que considera uma ameaça real: a Rússia de Vladimir Putin, agora alçada ao papel de player principal por Donald Trump.

A OTAN, enquanto aliança militar do bloco ocidental, vai desaparecer e dar lugar a uma aliança europeia puro-sangue? Os EUA vão desmobilizar as suas bases militares na Europa? Haverá tropas europeias em território ucraniano?

É difícil fazer futurologia, mas apostar na irrelevância dos países europeus, no quase colapso do projeto europeu, parece-me um manifesto exagero, está mais no terreno da eurofobia de certos analistas do que na avaliação objetiva do peso relativo da Europa no mundo.

Sempre é bom lembrar que o dito “mundo socialista” desmoronou-se simbolicamente com a queda do Muro de Berlim e a URSS “desmerengou-se” na expressão de Fidel Castro, desenvolvendo um sistema capitalista oligárquico e um regime autoritário na década selvagem dos 1990 e início deste século. São estas mudanças radicais que fizeram com que os países do Leste Europeu corressem para os braços do bloco ocidental. A Ucrânia é mais um destes países que, pelo menos em parte, optou pelo Ocidente. Parece que isto foi a gota d’água para Vladimir Putin, que considera a dissolução da URSS como a maior “tragédia geo-política” do século XX.

Infelizmente este século XXI vem se caracterizando por mais militarismo, mais guerras, mais tragédias humanitárias. Vladimir Putin e Donald Trump são a “cara” disto, candidatos a “imperadorres”. Vencerão?

*Carlos Henrique Vianna é engenheiro. Foi diretor da Casa do Brasil em Lisboa. É autor, entre outros livros, de Uma questão de justiça.


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