Falta o rugido do povo

Clara Figueiredo, série_ Brasília_ fungos e simulacros, esplanada, 2018
image_pdf

Por MANUEL DOMINGOS NETO*

A maioria da militância de esquerda há muito não se empenha no desenvolvimento da cultura política dos brasileiros

O sucesso midiático dos atos públicos liderados pela Faculdade de Direito da USP tornou mais difícil a baderna programada pela ultradireita. Na linha das inquietações de Washington, ficou evidente o receio do baronato financeiro diante da possibilidade de convulsões de consequências imprevisíveis.

A boa acolhida do ato pelos grandes jornais, certamente foi facilitada pela amplitude do discurso de Lula, que habilmente acalma temores dos de cima e alimenta os sonhos dos de baixo. Estivesse Lula ameaçando os interesses dos grandes, não veríamos barões na festa democrática.

A festa foi bonita, mas não convém imaginar um ambiente eleitoral tranquilo. Como esperar ponderação de apavorados com a possibilidade de perder vantagens e ir para a cadeia em caso de derrota eleitoral? A lista dos ameaçados é maior do que a família presidencial. Há políticos, religiosos, empresários e a turma que detém armas, fardada ou de pijama, regularmente ou não.

O respeito às regras democráticas não pode ser assegurado por instituições que, inebriadas de autonomia, não se deram ao respeito. Afinal, quem, nos últimos anos, atentou contra o princípio segundo o qual o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido? Quem fraudou o último pleito presidencial apeando Dilma Rousseff e prendendo o principal concorrente do atual mandatário?

Impossível ignorar: os braços do Estado não são confiáveis. A tragédia que experimentamos foi viabilizada por integrantes das Forças Armadas, do Judiciário, do Parlamento, do Ministério Público e das instituições policiais.

O respeito às regras democráticas depende essencialmente de uma ampla mobilização popular que ainda não mostrou a cara.

Nessa matéria, convenhamos, o campo progressista não tem ajudado. A maioria da militância de esquerda há muito não se empenha no desenvolvimento da cultura política dos brasileiros. Ao contrário, arrebanha votos através de expedientes clientelistas desenvolvidos pelas velhas oligarquias.

Buscando eleger-se de qualquer jeito, líderes de esquerda, através de alianças injustificáveis, contribuíram para assegurar o mando ao Centrão. Ciro Nogueira foi eleito com voto da esquerda, vale lembrar. Os recursos do orçamento secreto ensejam a parlamentares de esquerda chance de se apresentar como garantidores de benefícios aos seus “colégios eleitores”.

Muitos se emocionaram com as manifestações democráticas de ontem. Não cabe diminuir uma mobilização inibidora da baderna fascista. Mas cumpre registrar seus limites. A noção de democracia é corroída quando prevalece a falsa ideia de que a soberania popular pode ser garantida através de eleições.

Lula mandou bem ao dizer que a democracia implica em que todos tenham direito à comida, educação, saúde, trabalho, remuneração digna, enfim, aos direitos elementares estabelecidos na Constituição de 1988.

Estes direitos foram negados em benefício do baronato presente na Faculdade de Direito de São Paulo.

Na verdade, em canto algum foram assegurados sem rugido do povo. Um rugido forte o suficiente para deixar salvadores da pátria de rabo entre as pernas.

*Manuel Domingos Neto é professor aposentado da UFC/UFF, ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e ex-vice-presidente do CNPq.

 

⇒O site A Terra é redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.⇐
Clique aqui e veja como.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
5
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
6
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
9
Mapa da desigualdade informacional
19 Jan 2026 Por MARCIO POCHMANN: A desigualdade informacional nasce quando os dados granulares do século XXI residem em oligopólios privados, enquanto o Estado luta para manter a legitimidade e comparabilidade das estatísticas oficiais
10
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
11
Venezuela – epitáfio para uma revolução?
19 Jan 2026 Por LUIS BONILLA-MOLINA & OSVALDO COGGIOLA: A intervenção estadunidense consuma a transformação da Venezuela em protetorado colonial, sepultando o projeto bolivariano sob uma transição que institucionaliza a pilhagem e a submissão
12
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
13
A geopolítica em 2026
18 Jan 2026 Por DMITRY TRENIN: O cenário de 2026 aponta para uma confrontação prolongada e fragmentada
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
A política econômica do nacional-socialismo
20 Jan 2026 Por ROMARIC GODIN: Em um texto recentemente traduzido para o francês, Alfred Sohn-Rethel descreve o mecanismo pelo qual os nazistas, aproveitando-se da crise econômica, implantaram um tipo particular de economia que inevitavelmente levou à guerra e à violência
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES