Florestan Fernandes e Celso Furtado

Carlos Zilio, ESTRELA GUIA, 1971, caneta hidrográfica sobre papel, 50x35
image_pdf

Por JOÃO PEDRO STEDILE*

Comentário sobre o centenário dos dois pensadores

Neste mês de julho, celebramos o centenário de dois dos maiores pensadores do povo brasileiro, Florestan Fernandes (22/07/1920) e Celso Furtado (26/07/1920). Certamente, haverão de se repetir homenagens nas escolas, universidades e nos movimentos populares.

Ambos analisaram com profundidade a realidade brasileira, cada um na sua área. Furtado foi o principal pesquisador da questão da formação econômica do Brasil. Florestan analisou como ninguém o as classes sociais, os problemas da desigualdade, das mazelas do racismo em uma sociedade de origens escravocratas. Furtado olhou o Brasil pelo viés da economia política. Florestan pela ótica da educação e da sociedade de classes. São análises complementares que tornaram suas obras imprescindíveis na formação dos educadores e militantes do povo e na compreensão do Brasil. Pesquisadores e analistas criteriosos, foram mais que cientistas sociais, foram indivíduos comprometidos com nosso povo, atuando nas mais diferentes trincheiras da luta social para mudar a sociedade brasileira, uma estrutura injusta que se caracteriza como uma das mais desiguais do planeta.

Furtado conhecia como poucos as mazelas da região Nordeste, desde sua Paraíba. Foi expedicionário da FEB e, além de atuar na vida universitária, ajudou a organizar a Sudene, foi ministro do Planejamento do presidente João Goulart, e posteriormente da Cultura, na redemocratização pós-ditadura militar.

Como ministro de Jango, foi o autor intelectual da principal proposta de reforma agrária que tivemos até hoje. Partindo das experiências históricas clássicas dos países que se industrializaram, propôs que a reforma agrária constituísse também um instrumento para o desenvolvimento da indústria nacional. Para tanto, propôs a desapropriação de todos os latifúndios com mais de 500 hectares, priorizando os localizados próximo às cidades e ao longo de 10 quilômetros de cada lado das rodovias federais, ferrovias, lagos e açudes. Na sua visão, seria necessário transformar o camponês num partícipe da economia de mercado para produzir alimentos para a cidade e consumir os bens produzidos pela indústria.

Para isso, precisava estar próximo às cidades, com transporte rápido e acesso à luz elétrica. Somente assim sairíamos da crise econômica da época, podendo desenvolver a indústria, com mercado interno e distribuição de renda, melhorando as condições de vida de todo o povo. O projeto foi apresentado ao Congresso em 16 de março de 1964. A resposta da burguesia brasileira, subordinada aos interesses dos Estados Unidos, foi o golpe empresarial-militar.

Florestan nunca esqueceu suas origens de garoto pobre, filho de empregada doméstica migrante de Portugal, que lutou durante toda a sua vida para poder estudar. Ele acreditava que pela via da democratização da educação poderíamos redimir nosso povo, democratizar a sociedade e obter mudanças estruturais. Tampouco conseguiu. Passou por todos os bancos das escolas públicas até ser professor da elitizada USP, de onde foi expurgado pela ditadura militar.

Ambos amargaram o exílio, mas seguiram na luta, até o final dos seus dias. Furtado, ministro da Cultura do governo Sarney, manteve a defesa da necessidade de um projeto para o Brasil, registrando suas propostas em diversos livros. Florestan fez militância partidária na esquerda e se elegeu deputado constituinte, defendendo como ninguém o direito à escola pública e gratuita, em todos os níveis, para todos os brasileiros. Educação, não só como conhecimento, mas como direito universal e instrumento de libertação das pessoas.

Tive o privilégio de cultivar uma amizade de discípulo com ambos, em seus últimos anos de vida. Apreendi muito. Procuramos compartilhar seus ensinamentos, livros, palestras e conselhos com toda a militância do movimento popular e do MST. Seremos sempre gratos.

Procuramos perenizar esse legado, homenageando-os batizando nossas escolas e nossos assentamentos com seus nomes, além de divulgar suas obras e seus exemplos de vida coerente. Todo militante social e todo brasileiro comprometido com o país deve ter acesso ao conhecimento de suas trajetórias de vida e de suas obras. Estudá-los, apreender com eles. Certamente, se a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) adotasse estes autores em seus cursos, não teríamos um governo tão despreparado e irresponsável, no momento em que já contabilizamos mais de 78 mil brasileiros mortos.

Salve salve Celso Furtado e Florestan Fernandes, patrimônios cívicos, culturais e intelectuais do nosso povo!

*João Pedro Stedile é membro da equipe de coordenação do MST

Publicado originalmente no site Poder 360

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
3
O pior país do mundo
20 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Israel é um estado genocida e terrorista cuja existência é agora colocada em xeque; já os EUA não operam como uma democracia, mas sim como uma plutocracia, uma cleptocracia e uma kakistocracia
4
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
5
O cruzado, o imperador, e seu ataque aos persas
21 Mar 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: Da hesitação de Trump à resposta surpreendente dos persas, o que se anuncia não é uma vitória rápida, mas uma nova ordem forjada à força, onde o risco nuclear vira moeda corrente e a soberania se redefine pela capacidade de resistir ao arbítrio
6
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
7
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
10
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
11
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
Formação territorial do Brasil
20 Mar 2026 Por LARISSA ALVES DE LIRA: A compreensão da formação territorial brasileira exige distinguir as intenções econômicas das intenções políticas que, embora sobrepostas, obedeceram a lógicas distintas
14
A militância de Jacques Rancière
20 Mar 2026 Por PAULO FERNANDES SILVEIRA: Em sua crítica aos intelectuais pós-68, Jacques Rancière questionou a posição daqueles que se apresentavam como porta-vozes das trabalhadoras, denunciando a permanência de hierarquias mesmo em movimentos que as contestavam
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES