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A indústria da consciência

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Por OLGARIA MATOS*

Comentário sobre “Minima Moralia”, livro de Theodor W. Adorno

Impróprio para ser lido em diagonal, o estilo de Adorno é antijornalístico e lento, como o do tradutor Gabriel Cohn, que recusa a versão que consagra as “reflexões a partir da vida danificada”, preferindo “a vida lesada”, radicalizando uma dialética que se fará “a partir” da vida mutilada, como uma forma “tardia” de vida, do que dela permanece, sobrevive e “vem depois”.

“Lesada” é a vida ferida no corpo e no espírito pelas monstruosas práticas do fascismo e do anti-semitismo, da burocracia e do totalitarismo, como também por sua figura mais “benigna”, a indústria cultural e o pensamento por clichês. “Prejudicado” é o indivíduo sem comunicação com o outro, que perdeu as formas do viver em companhia, com o desaparecimento da arte de presentear ou de fechar uma porta sem batê-la, que expressavam modos de convivência, civilidade e polidez, constituindo o reconhecimento da presença recíproca em um espaço comum e partilhado.

Minima Moralia revive o ideário humanista da “delicadeza dos costumes” e a paixão desinteressada das coisas do espírito que o bem-viver supõe, características do cosmopolitismo e do enciclopedismo europeu: “Goethe, que tinha a clara consciência da iminente impossibilidade de quaisquer relações humanas na sociedade industrial emergente, buscou, nas novelas dos anos de peregrinação de Wilhelm Meister, representar a civilidade como referência salvadora entre homens alienados. Para ele o humano consistia numa autolimitação, que súplice assimilava a inexorável marcha da história, a desumanidade do progresso, a atrofia do sujeito”.

No ensaio que acompanha a tradução, Gabriel Cohn considera a acústica das palavras em português e em alemão, elege uma linguagem “dodecafônica”, mobilizando fórmulas e alusões para significar as ruínas e o choque, na vida e no pensamento. Rebelde, ainda, o livro que é uma autobiografia, mas desafiadora das regras do gênero com narrativas contínuas de experiências a serem transmitidas. No mundo da total dominação dos homens e das coisas, a existência está destroçada, porque a história contemporânea é a da vida danificada pela “sociedade da total administração” e pela indústria da consciência: “Pensar a inteira liquidação do indivíduo ainda é demasiado otimista. Em meio às unidades humanas padronizadas e administradas vegeta o indivíduo”.

De Aristóteles a Cícero, de Montaigne a La Rochefoucauld e Proust, Minima Moralia dá continuidade à tradição do humanismo e à busca da “vida boa”, conferindo às letras, às línguas, à retórica, à moral, à política a narrativa da gesta hominis, os saberes práticos da vida dos indivíduos e de seu curso, em seus conflitos e conjunções. Assim como o pensamento científico e a dialética, sob a hegemonia do conceito, recaem em positividade e na afirmação do existente, as mínimas morais se encarregam de suscitar, nas formas abstratas, os conteúdos históricos reificados na lógica da dominação: “a profundidade em que ela [a determinação dialética] mergulha na objetividade lhe custa ser cúmplice da mentira de que a objetividade é já a verdade”.

Em Minima Moralia desaparece a filosofia institucional, obcecada pela distinção drástica do verdadeiro e do falso, fundada no ego cogito e seu critério de verdade. Confundindo o “livro da natureza” com o “livro do homem”, o conhecimento tornou-se analítico, transformando o homem em objeto do procedimento classificatório: “o pensamento topológico conhece o lugar de cada fenômeno”, mas não conhece um só fenômeno, escreve Adorno em Prismas; “liga-se secretamente ao sistema de loucura paranoica que não tem mais contato com a experiência do objeto.” Ele compreende a paranoia como o autismo da razão para a qual todos seus outros são apenas ocasião para o delírio. Que se pense na biologia sintética, na fabricação da vida a partir da matéria inerte e na “auto-regulação” da ciência que, a igual título da avidez do mercado, não reconhece nenhum limite.

A “frieza do contato” com o que é vivo corresponde ao não-contato do sujeito consigo mesmo e com o outro, frieza a que Adorno se refere considerando o fim da experiência, o fim do pensar: “o esclarecimento entregue pronto transforma em produtos de massa não apenas a reflexão espontânea como também as percepções analíticas, cuja força iguala a energia e o sofrimento com que são obtidas, e reduz a convenções triviais os dolorosos segredos da vida individual já que o método ortodoxo tendia a reduzir a fórmulas.

A dissolução das racionalizações converte-se ela própria em racionalização. Ao invés de desempenhar o trabalho da consciência de si, os peritos adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos pulsionais em conceitos que no fundo não têm como alcançá-los. “O temor diante do abismo do ego é retirado pela consciência de que nada disso passa de males triviais”.

Mundo da banalidade e da insignificância é também antigenealógico. Nele, o indivíduo se autoconcebe como se tudo devesse a si mesmo, revelando-se um déficit simbólico e a carência de laços estáveis e duradouros entre os indivíduos e na sociedade. Disso resulta a perda do sensus communis, designado por Kant “distúrbio mental”, e o aparecimento da “singularidade lógica” ou sensus privatus, com o empobrecimento da paisagem interior do sujeito. Se o mundo das máximas morais é o da história dos “caracteres”, do autoconhecimento e dos “cuidados de si”, ele diz respeito à experiência na tradição dos moralistas antigos e modernos.

Máximas e sentenças auxiliavam a enfrentar infortúnio e boa sorte porque serviam de exemplo. Diferenciando exemplum e exemplar, o latim revela que este é o que se deve imitar, enquanto o exemplo compreende ainda um significado moral e intelectual, bem como requer amor: “amor é a capacidade de perceber o similar no dissimilar”.

Adorno, com seu método micrológico de valorização do detalhe, do cotidiano, do que, nos compêndios, foi preterido à nota de rodapé, acolhe os fragmentos insurgentes que se opõem à dicotomia do particular e do universal, liberando uma singularidade irredutível a um dos dois termos, pois o regime de seu discurso não é a lógica, mas a “analogia”, para a qual não há regra geral. Aproximando-se da doutrina das correspondências e semelhanças, estabelece relações entre domínios diversos e heterogêneos para manifestar as virtudes ocultas das coisas.

Mínimas morais constituem a subversão do presente que, na tradição do ensaio filosófico e das sentenças, deve surpreender o status quo, para que o pensamento não seja sorvido pela “facticidade de um estado falso”. A sociedade inteiramente administrada é a da subordinação de todas as esferas da vida ao fator econômico. Ela é uma “prisão ao ar livre”, na qual “a garantia de não morrer de fome é obtida em troca do risco de morrer de tédio” (Raoul Vaneigen).

*Olgaria Matos é professora titular de filosofia na Unifesp. Autora, entre outros livros, de Palíndromos filosóficos: entre mito e história (Unifesp).

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 2, maio de 2009.

 

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Theodor W. Adorno. Minima Moralia Reflexões a partir da vida lesada. Tradução e apresentação: Gabriel Cohn. Rio de Janeiro, Azougue editorial, 266 págs.

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