Por AIRTON PASCHOA*
Sete peças curtas
A vida dos pingüins (ou das boas)
A dificuldade reside na oração seguinte. Mas pode, pode ser boa, sem dúvida. Sem dúvida que pode trair suspeita a adversativa. Mas a alusão pode pôr o pingo nos is. Ilusão? Tem apenas um i. Mas pode. Pode ser. Fica até mais fácil, sem dúvida. Sem dúvida que tem pingos sem is. Mas são pingos… pingos sem is? E pingos com is — pingüins? Não trema, é piada. Mas pode. Pode ser boa. A dos pingüins pelo menos. Pelo menos. Mas pingüim tem pelo? Pode, pode ter. Pingüim pode. Menos ovo. Ovo não. A adversativa pode chocar. E a descrição ser fatal.
A vida dos pingüins (ou dos camelos)
E se de repente cai um aqui e ali também não é o fim do mundo. Cá a fila — cáfila? Mas cáfila não é fila de camelo? A vida dos camelos? Camelo tem poesia? Tem corcova… E corcova tem poesia? Pode ter. Tem cor, tem cova… Cor de cova? Cinza, preto, branco… A cor dos pingüins? Pode ser — corcova. Pingüim tem corcova? Pode, pode ter. Mas uma só. Só uma? Só. Senão não é pingüim. E tem que sair da fila.
A vida dos pingüins (ou das rodas)
Não é que o frio não incomoda. Incomoda, muito. Mas a gente se acostuma. Depois, tem as rodas… Não é pra isso que servem as rodas? Calorosas como são, confortam. Francamente, até demais. A ponto de, queimado, buscar abrigo no frio. Não que o frio não incomoda. Incomoda. Mas conforta. Quase tanto quanto incomoda. E conforta. Francamente.
A vida dos pingüins (ou dos carlitos)
Na beirada para, ave, azul profundo. Abobada da abóbada, estufa o peito, abre as asas e — escorrega de barriga. Levanta, bate a roupa e sai andando que nem Carlitos. Tem graça desgraça? Hum… Que nem no cheque? Hum bilhão de pingüins reais! E pingüim é real, que nem falcão? Estufa o peito, peregrino, abre as asas e — tem asa pingüim?
A vida dos pingüins (ou das preguiças)
Abraçar o mundo? Oferecer-se ao sacrifício? Parar o trânsito? Pedir por socorro? O que significa abri-los? Não digo agora, que não consigo escrever, mas abrir os braços é, sim, confesso, uma grande dificuldade, a maior aliás dentre as tantas que enfrentamos. E quando conseguimos finalmente operar o milagre, avulta tão prodigiosamente nosso embaraço que logo aborrecemos o impulso equívoco. Tenho por vezes que pode não ser, Deus me perdoe, senão espreguiçar sem fim…
A vida dos pingüins (ou das claraboias)
Nada como ninguém… Mas boia? pingüim boia? Não, pingüim não boia. Isso é claro como claraboia. Claraboia não boia? Claro. Que nem o sol, que nem a lua? Claro. Então pingüim, que é noite e dia, boia, não boia? Ou não é claro? Isso é poesia? Boio.
A vida dos pingüins (ou dos pigmeus)
Pingüim, pingüim meu, tem alguém mais pingüim do que eu? Não, não tem ninguém mais pigmeu… Pigmeu? pingüim pode ser pigmeu? Sim, por que não? Pigmeu mas pigmeu mesmo? Sim, pigmeu. Não é assim quando nos damos nome? E não respondemos naturalmente? Pode crer. Piamente? Piamente. Mas piamente não requer… pia mente? Sim, mas o que mais se quer além de crer piamente. Pia — mente? Lavemos as mãos.
*Airton Paschoa é escritor. Autor, entre outros livros, de Peso de papel(e-galáxia).
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