Fragmentos XLV

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Por AIRTON PASCHOA*

Uma peça curta

O padrinho

Conseguira passar pela senhoria sem ser visto, enfiara pelo corredor como uma sombra, e agora tomava fôlego, rápido, antes de bater à porta.

Bateu leve, receoso… nada. Quando decidira, finalmente, imprimir um pouco mais de força, a porta abriu-se, e ela elevou o indicador aos lábios. As crianças dormiam.

Entrou, pisando em ovos e brinquedos. Ela sorriu, a desculpar-se, recolhendo-os, e apontou-lhe a cadeira.

– Cumprimenta o padrinho, sussurrou.

E uma menina de uns cinco, seis anos, moreninha, quase índia, a cara da mãe, saiu de debaixo da mesa, amuada.

– Esta não dorme…

O padrinho pegou-lhe o bracinho estendido, levou a mão ao bolso, num gesto de quem busca alguma coisa, deixou-a lá… paralisado! Trocara de paletó à saída, achando que combinava mais, e esquecera de retirar as balas. Olhou pra menina, desenxavido, passou-lhe a mão na cabeça, sorriu, sem ser correspondido.

– Assim, mamãe?

A mulher, reprimindo o sorriso de orgulho, fez que sim com a cabeça, e a menina retornou ao esconderijo.

– Não está muito escuro? balbuciou o padrinho.

Ela fez que não ouviu, ele sussurrou mais alto. Tão escuro achava, para o crochê… Ela estava acostumada, ou não ligava, ou que não era crochê, era tricô, ou que ela precisava terminar aquela pecinha, tudo isso parecia indicar o negaceio de cabeça suave.

– E sua mulher, melhorou?

Tirou os óculos pra vê-lo melhor. Ele agradeceu, calado, e não foi apenas à delicadeza da pergunta, foi sobretudo a seus olhos livres, luminosos, daquela doçura que ele tanto lutava por explicar, que agradecia, comovido.

Recolocou-os, ameaçou recolocá-los, pensando reiniciar a tarefa, deteve-se. Tinha razão, talvez estivesse escuro, e soltou o cabelo, que lhe caiu ombro abaixo, como um manto.

Fitaram-se, e antes que enlaçassem as mãos, ou ela levantasse pra coar o café, surgiu do quarto, tropeçando, esfregando os olhos, um menino de uns três aninhos, choroso.

– Descalço, meu anjo! Por que não botou os chinelinhos?

Queria colo. Ela pegou-o e beijou-o, muito.

– Não cumprimenta o padrinho? encarando-o, fingindo-se séria.

O menino, inda estremunhando, fez que não, decidido. Depois, começou a bater as pernas, queria descer, brincar, e antes da reprimenda da mãe o padrinho interveio mansamente em favor da natureza.

Ela pôs a mesa e preparou o café.

O padrinho recusou o pãozinho com margarina, nem a bolacha de maisena, nada, um cafezinho apenas, com muito gosto. Não queria sujar os dentes.

– Esmeralda…

Gostava de pronunciá-lo, quase à toa, mais ainda depois de lhe terem lembrado que era nome de pedra preciosa… Esmeralda.

Esmeralda terminara de dar café às duas crianças, e mandava-as ao quarto, ao outro cômodo da casa, brincarem, mas sem acordarem o irmãozinho menor.

– Chamei, eu? Ah, sim, estou falando com o chefe… lá do escritório… talvez um lugar na fábrica… o serviço é duro, trabalham em pé, as coitadas, mas como você insiste…

Ela ajoelhou-se a seus pés, pegou-lhe na mão, beijou-a, depois depositou nela a face, em novo beijo, demorado e sem lábios. O padrinho esteve a pique de violentá-la. A humildade exasperava-lhe o desejo, os ciúmes. Ciúmes do chefe a que ia obedecer, ciúmes do patrão que ia explorá-la, ciúmes do cobrador que ia tocar-lhe os dedos, ciúmes das amigas que ia arrumar, ciúmes de tudo, de todos, do marido, que deixara no interior, dos filhos, que a sugavam…

– Não… por favor… o que é isso, meu Deus? ergueu-se e ergueu-a. É tão pouco o que faço…

Entraram as crianças, a menina carregando o irmãozinho de colo, misteriosamente quieto, defendendo-o do outro, que queria carregá-lo também. O padrinho aproveitou pra deixar, precipitado, um rolinho de notas no cesto de costura.

– Ele acordou sozinho, ia perguntando Esmeralda, tentando fazer cara feia, ou foram vocês que…

– Ele disse que quer mamar, mamãe, respondeu a menina.

Esmeralda torceu a custo o riso, tomou-o dos braços da menina, ainda dormindo quase, beijou-o e sentou-se, rodeada dos filhos, que queriam ver mamando o caçulinha. Mimou-o um pouco, corada. O padrinho baixou os olhos, voltou a sentar-se, de lado. Mas, pouco a pouco, foi virando-se, virando-se, até contemplar a cena, sem rodeios, frontalmente. A mãe, levemente inclinada sobre os filhos, absorta e absorvida, os acolhia e envolvia, num abraço mudo e sem braços, num aconchego largo e ao mesmo tempo restrito, centrípeto, empedrado, como uma espécie de monumento público, mas íntimo, um tesouro perdido numa sala de museu, uma fonte familiar e milagrosa, em praça pequena, alheia, milenar, indiferente aos passos dos homens.

O padrinho levantou-se de golpe, não sei, transeunte e intruso, mas não se amolasse, por favor, eram já horas, ele voltaria novamente, novamente domingo, domingo de tarde, se retirando, pé ante pé, de costas, abanando a mão e a cabeça, mas, por Deus, não se amolasse mesmo, e tomando fôlego, lento, lentamente, depois de ter fechado cuidadosamente a porta.

*Airton Paschoa é escritor. Autor, entre outros livros, de Post streptum: espólio (e-galáxia). [https://amzn.to/4oHE6kK]


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