Geraldo Sarno (1938-2022)

Annika Elisabeth von Hausswolff, O Fotógrafo, 2015

Por AFRÂNIO CATANI*

Homenagem ao cineasta recém-falecido

Há poucos dias recebi mensagem do meu amigo Tunico Amâncio dizendo que Geraldo Sarno estava internado, há já umas duas semanas, num hospital do Rio de Janeiro, lutando contra as complicações decorrentes da epidemia de Covid-19. Infelizmente a batalha foi perdida em 22 de fevereiro de 2022, numa terça-feira triste, poucos dias antes de completar 84 anos.

Conheço quase tudo que Geraldo filmou, mas não quero falar disso agora. Vou apenas registrar três momentos de longas conversas com ele, sempre transpirando cinema, filmagens, roteiros, realizadores, textos, adaptações. As duas primeiras ocorreram em Cuba e no Panamá, em dezembro de 1989, e a terceira em sua querida Bahia, Salvador, não tão longe do Teatro Castro Alves, em 2006 ou 2007.

Convidado para participar do Festival Internacional de Cinema de Havana, que ocorre sempre no último mês do ano, apresentei na ocasião “una ponencia” escrita com José Inácio de Melo Souza, na realidade um resumo de livro que elaboramos juntos sobre as chanchadas brasileiras dos anos 1930,40 e 50. O convite teve a indicação da historiadora Silvia Oroz. Me colocaram no Hotel Nacional, num momento em que o mesmo se encontrava completamente detonado. Quando se tomava banho, a água escorria por todo o banheiro e invadia o quarto; o calor era implacável e necas de ventilador ou ar condicionado, pois nada funcionava. Geraldo estava meio trancadão, mas aos poucos sua cara de mau foi se adocicando. Conversávamos o tempo todo, bastante no café da manhã e quando nos cruzávamos durante o dia, em meio a uma programação intensa.

Ele estava lá, também, para se encontrar com produtores, em busca de financiamento complementar, pois tinha um roteiro prontinho adaptado do conto “A Reunião”, que está no magnífico Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar. Collor assumiu, quase acabou com a cultura no Brasil e o filme de Sarno acabou não saindo.

A segunda conversa deu-se também nesse dezembro de 1989 em Ciudad de Panamá, exatamente na madrugada de 17 para 18 de dezembro. Retive a data, pois 17 era um domingo, dia da votação em segundo turno das eleições presidenciais em que Lula foi derrotado por Collor. Nosso voo fazia escala no Panamá e um avião da Varig deveria estar nos esperando para nos conduzir ao Rio de Janeiro e a São Paulo. O clima estava tenso, com tiros sendo disparados na capital panamenha. Dia 20 de dezembro os Estados Unidos invadiram o istmo e derrubaram o presidente Manuel Antonio Noriega.

Bem, o Boeing da Varig não estava lá: aguardava em Manaus o sinal verde para decolar, pois o espaço aéreo estava bloqueado e os EUA cercavam o país. Ficamos umas cinco horas esperando, e Sarno e Ruy Guerra me convidaram para conversarmos e beber num dos bares do aeroporto. Falou-se de tudo, pois ambos nada devem aos melhores contadores de história: infâncias, fofocas, desempenho de atores e atrizes, viagens, orçamentos. Entramos no avião chumbados e alegres.

A terceira prosa, longa, descontraída e também etílica, ocorreu à saída de um longo seminário-festival que teve lugar em Salvador, quando participei de uma mesa que ocupou toda uma manhã, dedicada ao cinema da América Latina. À saída, Geraldo veio me encontrar e, com meu saudoso amigo Edivaldo Boaventura e Guido Araújo, fomos almoçar. Consegui arrastar o carrancudo diretor chileno Miguel Littín, que logo se tornou sorridente aos encantos baianos, em especial, à culinária local. O regabofe iniciou-se antes das 14 e me lembro de ter voltado ao hotel quando já estava escurecendo.

Depois, uma ou outra mensagem, encontros rápidos em São Paulo e no Rio. Fica a lembrança e a saudade do grande Fidelis Geraldo Sarno (Poções, 06.03.1938; Rio de Janeiro, 22.02.2022), de seus roteiros, artigos, livros e de seus filhotes, curtas, longas, documentários, séries etc.: Viramundo, Auto da Vitória, A Cantoria, Vitalino Lampião, O Engenho, Padre Cícero, Casa de Farinha, Os Imaginários, Jornal do Sertão, Viva Cariri!, Monteiro Lobato, Casa Grande & Senzala, O Pica-Pau Amarelo, Coronel Delmiro Gouveia, Iaô, Deus É Um Fogo, Plantar nas Estrelas, Eu Carrego Um Sertão Dentro de Mim, A Linguagem do Cinema, A Terra Queima, Tudo Isto Me Parece Um Sonho, O Último Romance de Balzac, Sertânia, Sertão de Dentro

*Afrânio Catani é professor titular aposentado da Faculdade de Educação da USP e, atualmente, professor sênior na mesma instituição. Professor visitante na Faculdade de Educação da UERJ, campus de Duque de Caxias.