Greg e Ciro

Marcelo Guimarães Lima, Double Phoenix - Allegory of time pencil, color pencil and digital, 2021
image_pdf

Por ANDRÉ BOF*

Breve crônica sobre uma fricção entre liberais

Conforme tenho percorrido espaços e ambientes sociais diferentes daqueles dos últimos dois anos mais graves de pandemia, sinto-me fracionado. Como se vivesse em realidades fraturadas. Ao terminar de assistir ao pretenso debate polarizado entre o humorista Gregório e o personagem Ciro, essa impressão é reforçada. Existe uma dissonância entre o animus das redes sociais, essa potência de combate e debate permanentemente convulsiva, cujos substratos mudam a cada semana ou dia e o desenrolar das ruas e da vida real.

No fim e ao cabo, Ciro e Gregório são muito parecidos, em termos políticos e ideológicos. Não por menos, o humorista se apoia na árvore segura de um “ex-eleitor” que comunica sua insatisfação atual com o candidato pelo abandono da “luta antifascista”. Em termos de espectro, ambos transitam por camadas do liberalismo e são defensores da democracia liberal.

Ciro, por infortúnio e traço de personalidade, já sambou com a esquerda, o centro e a direita liberais.

Gregório, ainda jovem, apenas se aventura nos meandros do centro, desempenhando com maestria o papel de conselheiro consciencioso de esquerda. Seus chamados tragicômicos e impotentes ao final de todo greg news, por campanhas de internet e gincanas “politizadas” são a cara da esquerda liberal: uma estrutura de performance, simulação de luta, dissimulação da aversão ao questionamento da ordem da qual se privilegiam.

Consideram-se, dentro e fora desse debate inócuo, construtores e entusiastas de sonhos e utopias, que, coerentemente com sua completa falta de imaginação e perspectiva revolucionária, são todos amordaçados e dissimulam a contradição real de nossa sociedade: a divisão social em classes. Papo do passado, atrasado, anacrônico, claro, para quem faz a vida explorando suas consequências e esquivando de suas causas.

Enquanto dois defensores da exploração assalariada do trabalho, ainda que com paliativos e pomadas de assistencialismo, simulam uma briga de facas, fornecem alimento para a fome de performance das redes sociais, a realidade da massa na atual distopia do capital é gravíssima e se deteriora.

Lembrou-me minhas caminhadas ao trabalho. Através daquela ilha pavimentada de consumo, autoexaltação e ostentação, passo pelas faces recauchutadas e os écharpes cachemire da rua Oscar Freire. Alheios e impassíveis aos acontecimentos do real a poucos metros de sua dimensão de IDH nórdico, protegida pelas armas do Estado, caminham as dondocas e os velhacos endinheirados como se andassem em New York ou Paris.

Acovardados fora de seu ambiente, ali são mimados e tratados a pão de ló, servidos por uma massa de intermediários pardos e negros, por suas babás de vestes beges carregando carrinhos de bebê da Zara, enquanto observam as vitrines lustradas pouco antes por cafuzos. O mosaico social brasileiro se curva para servir a ilustre burguesia paulistana, para quem a inflação e o desemprego, a fila do osso e a miséria são tão fictícias quanto aquilo que vêm em suas séries de reis e rainhas.

Eventualmente, a barbárie lhes toca os pés, materializada na figura de um mendigo guiando um carro de supermercado no qual prende uns 5 ou 7 cães caramelos e onde se contorcem uns 5 ou 6 filhotinhos mais, protegendo-se como podem do frio. Essa cena, de toda forma, pode até chegar a comover um pouco mais esses corações empedrados pela riqueza (graças aos cães, é claro) do que uma idosa comendo sobras, esquentando-se em frente a uma fogueira improvisada, na qual aquece, dentro de uma lata velha de pêssego em conserva, uma água escura e turva para cozinhar.

A gente que acha boa ideia conceder ração humana, não se comove fácil. O ofício que a localizou onde está é baseado na desumanização. É essa estirpe que vive no pináculo de uma ordem social cujas consequências inevitáveis são estas cenas, todas reais, diga-se de passagem.

A acumulação capitalista e seu caráter antagônico, miséria como consequência e base da opulência, são frutos do liberalismo, não importa quais ficções de melhora gradual se proponha como solução.

Ver este debate entre “sonhadores”, tendo de um lado o caudilho e seu “projeto de desenvolvimento nacional” órfão de burguesia independente para isso e, de outro, o humorista do Leblon e seu quixotesco (e ridículo) combate ao fascismo (sic) nas urnas, soa como uma caminhada nas ruas da região da Oscar Freire.

Essa, indigesta e de mau gosto, que só faço por obrigação. No primeiro caso, por ser proletário e assalariado, no segundo, por saber que sou. Diante da maior inflação em 27 anos, da deterioração da vida, endividamento, fome, desemprego generalizado, a utopia da mudança nunca esteve tão longe das expectativas do trabalhador.

Todas as figuras da, por ora, política “relevante” tolhem a possibilidade do peão se encontrar na história. De se ver como peão. De se ver como inimigo de classe dos patrões e de entender que toda mudança na história foi obra de uma classe em luta, consciente e vitoriosa contra sua classe opressora. Uma classe de posse de um programa e uma organização. Uma classe que entende que essa é sua época de lutar e de erguer um novo mundo.

Caso hoje no Brasil, ao invés de querer ser um patrão, todo brasileiro odiasse todos os seus patrões e seu sistema de sugar e roubar riqueza gerada pelo povo trabalhador, teríamos uma realidade absolutamente oposta. Aí sim as portas da utopia, com suas cores imaginativas e sua chama transformadora, estariam no horizonte, não como palavras vazias, mas como atos práticos.

Entretanto, como hoje defender o que interessa ao trabalhador, como, por exemplo, que, com 12% de inflação e 15% de desemprego, os salários fossem reajustados automaticamente conforme a inflação e a jornada se reduzisse e todas horas de trabalho fossem distribuídas, é uma heresia, vivemos a época da ideologia de todos os tipos de liberais. Nosso teto “utópico” é que “o pobre tenha três refeições por dia”, enquanto os bancos seguirão batendo recordes de lucro nas costas da dívida e trabalho do peão.

Consciência de classe e organização de classe. Sem estes dois personagens, o palco da luta de classes transita do gênero da utopia para o da farsa e da tragédia. E não faltam atores de qualidade duvidosa para atuar.

*André Bof é graduado em ciências sociais pela USP.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES