O Aleph, o Vision Pro e a incerteza

Imagem: Bryan Geraldo
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Assim como no conto de Jorge Luís Borges, a nova tecnologia não pode transpor a incerteza nem trazer o futuro

“O Aleph”, publicado em 1949, é um célebre conto do escritor argentino Jorge Luís Borges. Guiado por um louco narcisista, no porão de sua casa, o protagonista descobre um objeto místico chamado Aleph. Ele contém todos os pontos do universo em um único lugar. A incerteza surge quando o protagonista tenta compreender a vastidão e a complexidade dessa descoberta.

Ele já sabia por conta da morte de sua amada: quando o incessante e vasto universo se afasta de uma pessoa, essa mudança será apenas a primeira de uma série infinita. Durante a vida, muitos buscam a invenção de razões para se tornar admirável. Esse trabalho infrutífero amplia sua obra só para si, mas não para os demais indiferentes.

Ao achar a sabedoria pessoal ter possibilidade de tudo abarcar, empreendem, por exemplo, uma epopeia topográfica onde registram a fauna, a flora, a hidrografia, a orografia (descrição das montanhas), a história militar e monástica de todas as nações! Tratam de o céu e a terra, considerando o mundo inferior como o espelho e o mapa do superior. Esse produto considerável ainda é limitado. Porém, é menos tedioso se comparado à proposta de versificar toda a redondeza do planeta.

Sabia também, depois de completos os quarenta anos, qualquer mudança se torna um símbolo detestável de sermos passageiros do tempo. Para terminar a vasta obra pessoal é indispensável o Aleph. “É um dos pontos do espaço capaz de conter todos os pontos”.

O Aleph é o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe – o corpo esférico do globo em toda a sua extensão –, vistos de todos os ângulos. Se todos os lugares da terra se encontravam no Aleph, o porão onde ele estava não era escuro, pois ele continha todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz…

Quando o protagonista vê o Aleph começa então seu desespero de escritor. “Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado compartilhado pelos interlocutores. Mas como transmitir aos outros o infinito Aleph, quando sua memória mal o abarca?”

Caso os deuses lhe negassem o achado de uma imagem capaz de, ao mesmo tempo, se dirigir ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul, seu relato ficaria contaminado de literatura. Seria ficção ou falsidade…

Mesmo porque o problema central era insolúvel: a enumeração de um conjunto infinito, ao fim e ao cabo, seria parcial. Ele viu através do Aleph milhões de atos, tanto prazerosos quanto atrozes. Nesse instante gigantesco, nenhum lhe assombrou tanto como o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência.

O que viram seus olhos foi simultâneo. O que transcreveria seria sucessivo, pois a linguagem assim o é. Como registraria o inconcebível universo?

Felizmente, depois de algumas noites de insônia, sobre o potencial escritor agiu outra vez o esquecimento… “Quando vi todas as coisas, eu as esqueci em seguida?! Nossa mente é porosa para o esquecimento. Eu mesmo estou falseando e perdendo, sob a trágica erosão dos anos, os traços de minha mulher amada”.

O Aleph é um símbolo complexo e multifacetado, com diferentes interpretações. Representaria a unidade divina e a conexão entre Deus e o universo ao conter todos os pontos do universo em um único ponto, permitindo a quem o contemplar obter uma visão completa de tudo. Nessa história, o Aleph simboliza a busca pela totalidade do conhecimento e a (im)possibilidade de compreender a infinitude do universo.

Além disso, o Aleph também pode ser interpretado como um símbolo de transcendência ou iluminação. Refere-se à (in)capacidade de perceber a realidade em sua plenitude e transcender as limitações da existência humana.

Jorge Luís Borges explorou o tema da ambiguidade e da multiplicidade de significados em sua obra. Deixou ao leitor as diferentes interpretações do Aleph e suas representações simbólicas.

O Vision Pro, lançado recentemente, por sua vez, é só o início da nova Era da Computação Espacial. Combina o conteúdo digital com o seu espaço físico. Com os óculos virtuais, o humano navega simplesmente usando seus olhos, mãos e voz. Assim, você poderá fazer as coisas de maneiras antes impossíveis. Jamais alguém viu tudo assim. É O Aleph!

Liberará você de sua área de trabalho. Seus aplicativos o seguirão em todos os lugares. Infelizmente, jamais você se desligará de suas preocupações laborais…

Com o Vision Pro você terá uma tela infinita. Transformará a forma como você usa os aplicativos preferidos. Organizará aplicativos em qualquer lugar, os dimensionará para o tamanho perfeito, tornando o espaço de trabalho dos seus sonhos uma realidade.

Ficará alienado da realidade? Não, tudo isso acontecerá enquanto você permanece presente no mundo ao seu redor. Onde você esteja, terá uma maneira imersiva de experimentar o entretenimento desejado. O Vision Pro permitirá transformar qualquer sala em sua própria tela pessoal.

Expandirá seus filmes, shows e jogos até o tamanho perfeito até você se sentir parte da ação com o áudio espacial. Terá mais pixels, se comparado a uma TV 4K, para cada olho. Poderá desfrutar de qualquer conteúdo em qualquer lugar, inclusive em voo.

Você, de modo online, poderá capturar fotos espaciais “mágicas” e vídeos espaciais em câmera 3D, inclusive com o áudio espacial imersivo. Reviverá todos os momentos. Suas memórias ganharão vida de imediato, comprovando e jamais esquecendo!

Sua biblioteca de fotos e vídeos será vista em escala notável. Os panoramas te envolverão, fazendo você se sentir como se estivesse novamente onde os tirou. A conexão será como todos estivessem no mesmo espaço, tornando as reuniões mais significativas. O Vision Pro facilitará a colaboração e a conexão onde você estiver.

Controlará o Vision Pro com seus olhos, mãos e voz. As interações parecem intuitivas e mágicas. Bastará olhar para um elemento, tocar com os dedos para selecionar e usar o teclado virtual ou o ditado para digitar.

Desse modo, os aplicativos ganharão vida e preencherão o espaço ao seu redor, além dos limites de uma tela. Eles podem ser movidos para qualquer lugar, dimensionados para o tamanho perfeito, reagir à iluminação do seu ambiente e até projetar sombras. Você transformará o espaço ao seu redor. Os aplicativos se estenderão além das dimensões do seu ambiente.

O Aleph ou o Vision Pro tornam, seja para o mal, seja para o bem, suas experiências inesquecíveis. Epa! No espaço, você poderá ir e vir, mas no tempo só irá ao passado e voltará ao presente, não ultrapassará a barreira diante do tempo futuro.

Ainda não construíram “a máquina do tempo” capaz de te trazer de volta do futuro. Permanecerá a incerteza, devido à falta de dados sobre o futuro em aberto. Infelizmente, por definição, todos os dados são do passado…

Dada a incerteza do futuro, resultante de múltiplas decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras, economistas tentam avaliar os riscos dele com base em dados históricos, estatísticas e modelos de previsão. Quando o presente se apresenta abaixo do equilíbrio (fundamentado em uma média histórica), apontam o crescimento; acima do equilíbrio, sinalizam a queda; no centro gravitacional, “sem dúvida” (sic), vai “andar de lado”. Não é ciência econômica, é “chutômetro”.

Na realidade, é impossível prever com precisão as resultantes sistêmicas ou atribuir probabilidades a uma determinada configuração dinâmica. O futuro está em aberto.

Um sistema complexo como “o todo” é emergente de interações ao longo do tempo entre seus diversos componentes com pesos de influência desiguais. As decisões cruciais de um agente-chave, como o Estado, são capazes de alterar o contexto de maneira irreversível por serem tomadas por um componente de maior peso ou influência.

Diante da imensidão infinita do universo futuro, nós humanos devemos ser humildes. A formulação de um argumento lógico, ainda sendo a partir de premissas simples e esquemáticas, transmite mais conhecimento real em lugar de uma discussão superficial acerca de “tudo existente sob o sol”.

A ciência econômica, atualizada como ciência da complexidade, se quiser se apresentar como uma ciência realista e um guia para decisões práticas, deve simplesmente progredir para a adoção de certos princípios de aplicação universal. Propiciará assim obter resultados positivos acerca de pequena dimensão do universo não cognoscível.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).


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