Israel – Estado teocrático

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Por SLAVOJ ŽIŽEK*

O ataque do Hamas deve ser lido no contexto do grande conflito que dividiu Israel nos últimos meses

O ataque do Hamas a Israel deve ser condenado incondicionalmente, sem quaisquer “mas” ou “se”. Basta recordar o massacre de jovens civis que saíram de uma festa rave com 260 mortos a tiros – isto não é “guerra”, isto é um massacre puro e simples que dá um sinal de que o objetivo do Hamas, a destruição de Israel como Estado, inclui o assassinato de civis israelenses. O que, no entanto, deve ser feito com urgência, é localizar este ataque no seu contexto histórico – tal contextualização de forma alguma o justifica, apenas esclarece por que e como ocorreu.

O título de um diálogo recente sobre antissemitismo e BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções] no Der Spiegel foi: “Wer Antisemit ist, bestimmt der Jude und nicht der potenzielle Antisemit” [“Quem é antissemita é determinado pelo judeu e não pelo potencial antissemita”]. OK, parece lógico, a própria vítima decidir se é realmente uma vítima. Mas o mesmo não se aplica aos palestinos, que deveriam ser capazes de determinar quem está roubando as suas terras e os privando dos seus direitos elementares?

Para se ter uma ideia do desespero dos palestinos comuns da Cisjordânia, basta lembrar os vagos ataques individuais suicidas nas ruas (principalmente) de Jerusalém há cerca de uma década: um palestino comum aborda um judeu, saca uma faca e o esfaqueia (geralmente), sabendo muito bem que ele/ela será morto instantaneamente por outras pessoas ao seu redor. Não houve qualquer mensagem nestes atos “terroristas”, nenhum grito de “Palestina Livre!”; não houve nenhuma grande organização por trás deles (nem mesmo as autoridades israelenses o afirmaram), nenhum grande projeto político, apenas puro desespero.

Eu estava, naquela época, em Jerusalém e meus amigos judeus me alertaram sobre esse perigo, aconselhando-me que, se eu visse isso chegando, deveria gritar bem alto: “Eu não sou judeu!” – e lembro-me claramente que fiquei profundamente envergonhado de me comportar assim, sabendo muito bem que não tinha certeza do que realmente faria em tal situação… Então, quando lemos agora na imprensa manchetes como “Isso é o pesadelo para Israel e seu povo” ou “11 de setembro de Israel: Terror inimaginável atinge o coração da nação!” – sim, com certeza, mas os palestinos da Cisjordânia vivem num pesadelo há décadas.

As coisas pioraram com o novo governo de Benjamin Netanyahu – em um painel de TV em 25 de agosto de 2023, Itamar Ben Gvir, Ministro da Segurança Nacional, disse: “Meu direito, o direito da minha esposa, o direito dos meus filhos de circular livremente nas estradas da Judéia e Samaria [Cisjordânia] é mais importante do que o dos árabes”. Depois, voltando-se para o palestrante Mohammad Magadli, o único árabe no painel, Ben Gvir disse: “Desculpe, Mohammad, mas esta é a realidade”.1

Em suma, a violência anti-Palestina já não é sequer formalmente condenada pelo Estado. O destino de Ben-Gvir é o indicador mais claro desta mudança. Antes de entrar na política, Ben-Gvir era conhecido por ter na sua sala um retrato do terrorista israel-americano Baruch Goldstein, que em 1994 massacrou vinte e nove fiéis muçulmanos palestinos e feriu outros 125 em Hebron, no que ficou conhecido como o massacre da Caverna dos Patriarcas. Ele entrou na política juntando-se ao movimento juvenil do partido Kach e Kahane Chai, que foi designado como organização terrorista e proibido pelo próprio governo israelense.

Quando atingiu a maioridade para o recrutamento nas Forças de Defesa de Israel, aos 18 anos, Ben-Gvir foi impedido de servir devido à sua formação política de extrema direita. E tal pessoa, condenada por Israel como racista e terrorista, é agora o ministro que deveria salvaguardar o Estado de Direito… O Estado de Israel, que gosta de se apresentar como a única democracia do Oriente Médio, agora de fato se transformou em um Estado teocrático (com o equivalente à lei Sharia).

Shlomo Ben-Ami escreveu em Hubris Meets Nemesis in Israel: “Ao excluir qualquer processo político na Palestina e afirmar corajosamente, nas diretrizes vinculativas do seu governo, que ‘o povo judeu tem um direito exclusivo e inalienável a todas as partes da Terra de Israel’, o governo fanático de Netanyahu tornou o derramamento de sangue inevitável”.2

Exagero? Aqui está o primeiro dos “princípios básicos oficiais do 37º governo de Israel”: “O povo judeu tem um direito exclusivo e inalienável a todas as partes da Terra de Israel. O governo promoverá e desenvolverá a colonização de todas as partes da Terra de Israel – na Galiléia, no Negev, no Golã, na Judéia e na Samaria”.3 Como é que alguém, depois do aparecimento de tal “princípio”, pode censurar os palestinos por se recusarem a negociar com Israel? Este “princípio” não exclui quaisquer negociações sérias, não deixa aos palestinos apenas a resistência violenta?

Se eu fosse mais propenso a teorias da conspiração, certamente expressaria a minha dúvida sobre o fato muito divulgado de que o serviço secreto israelense realmente não sabia nada sobre o ataque. Acho a surpresa de “como isso pôde passar despercebido” uma farsa. Não estava Gaza totalmente sob o seu controle, com numerosos informantes, todos os mais recentes conjuntos de sensores terrestres e aéreos etc.? Não é permitido levantar a questão: quem lucrou mais com o ataque do Hamas? Dito de uma forma stalinista, o ataque do Hamas serve objetivamente ao interesse dos radicais israelenses que agora governam o Estado (para não mencionar também o interesse da Rússia: a guerra já desviou a atenção da guerra ucraniana).

No entanto, mesmo que Benjamin Netanyahu soubesse que o Hamas estava preparando algo, ele não poderia ter previsto o número de israelenses mortos, pelo que o ataque do Hamas também pode significar o fim de Benjamin Netanyahu, que perdeu o título de “Sr. Segurança”… Quem sabe o que realmente aconteceu? A situação é obscura. Qual foi o verdadeiro papel do Irã, da Rússia e também da China? A guerra de Gaza é o primeiro momento da Terceira Guerra Mundial? Uma coisa é certa: esta guerra é uma catástrofe com consequências históricas.

No entanto, em vez de nos perdermos em teorias da conspiração, bastaria salientar que ambos os lados (Hamas e o governo de Benjamin Netanyahu) são contra qualquer opção de paz e defendem a luta até a morte. O ataque do Hamas deve ser lido no contexto do grande conflito que dividiu Israel nos últimos meses. Comentando as medidas propostas pelo governo de Benjamin Netanyahu, Yuval Harari disse de forma brutal: “Isto é definitivamente um golpe. Israel está a caminho de se tornar uma ditadura”.4 Israel estava dividido entre os fundamentalistas nacionalistas que tentavam abolir as restantes características do poder estatal legal, e os membros da sociedade civil conscientes desta ameaça, mas ainda com medo de propor um pacto com os palestinos não antissemitas.

A situação aproximava-se da guerra civil entre os próprios judeus israelenses, com sinais de decadência da ordem jurídica. Com o ataque do Hamas, a crise terminou (pelo menos temporariamente) e o espírito de unidade nacional prevalece: a oposição propôs imediatamente a formação de um governo de emergência de unidade nacional, ou, como disse o líder da oposição Yair Lapid: “Eu ganhei. Não me preocupo com a questão de quem é o culpado e por que fomos surpreendidos. Enfrentaremos o nosso inimigo em unidade”.5

Existem outros gestos semelhantes: reservistas que antes se abstinham do serviço militar em oposição à reforma legal e à redução da doutrina da separação de poderes, agora realistaram-se etc. Num clássico movimento político, a divisão interna é superada quando ambos os lados estão unidos contra um inimigo externo. Como sair deste maldito ciclo vicioso?

Ninguém menos que Ehud Olmert apresentou uma voz um pouco diferente: sim, Israel deveria combater o Hamas, mas também deveria usar esta situação para oferecer uma mão aos palestinos prontos para negociar, uma vez que o que se esconde no pano de fundo da guerra é a questão palestina não resolvida.6 E definitivamente não existem palestinos antissemitas. No domingo, 10 de setembro de 2023, um grupo de mais de cem acadêmicos e intelectuais palestinos assinou uma carta aberta para condenar os “comentários moral e politicamente repreensíveis” feitos recentemente pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sobre o Holocausto e as origens dos judeus ashkenazi: “Enraizados em uma teoria racial difundida na cultura e na ciência europeias da época, o genocídio nazista do povo judeu nasceu do antissemitismo, do fascismo e do racismo. Rejeitamos veementemente qualquer tentativa de diminuir, deturpar ou justificar o antissemitismo, os crimes nazistas contra a humanidade ou o revisionismo histórico em relação ao Holocausto”.7

Então, o que poderia a Europa fazer aqui além de simplesmente se irritar por não dar apoio suficiente a um ou outro lado na guerra em curso? Nem todos os israelenses são nacionalistas fanáticos, nem todos os palestinos são antissemitas (da mesma forma que nem todos os russos são pró-Putin). Talvez a primeira coisa a fazer seja reconhecer claramente o enorme desespero e confusão que podem dar origem a atos ocasionais de maldade. E o próximo passo é ver a estranha semelhança entre os palestinos, a quem é negado o único lugar que conheceram como sua pátria, e os próprios judeus – esta homologia vale até para o termo “terrorismo”: nos anos da luta judaica contra os militares britânicos na Palestina, o próprio termo “terrorista” tinha uma conotação positiva.

No final da década de 1940, os jornais americanos publicaram um anúncio com a manchete “Carta aos Terroristas da Palestina”, contendo estas frases: “Meus Bravos Amigos. Vocês podem não acreditar no que escrevo, pois há muito esterco no ar neste momento. Os palestinos da América estão com vocês.” Este texto foi escrito por ninguém menos que Ben Hecht, o célebre roteirista de Hollywood.

Por baixo de todas as polêmicas sobre “quem é mais terrorista”, encontra-se como uma pesada nuvem escura a massa de árabes palestinos que durante décadas foram mantidos num limbo. Quem são eles, em que terra vivem? Território ocupado, Cisjordânia, Judeia e Samaria… ou o Estado da Palestina que é atualmente reconhecido por 139 dos 193 Estados membros das Nações Unidas. É membro do Comitê Olímpico Internacional, bem como da UNESCO, da UNCTAD e do Tribunal Penal Internacional. Após uma tentativa fracassada em 2011 de garantir o pleno estatuto de Estado membro das Nações Unidas, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou em 2012 para reconhecer a Palestina como um Estado observador não membro. Israel (que controla o seu território) trata-os como colonos temporários, como um obstáculo ao restabelecimento do estado “normal” com os judeus como os únicos verdadeiros nativos.

Até mesmo muitos israelenses ateus argumentam que, embora Deus não exista, deu-lhes a terra de Israel para seu uso exclusivo. Eles são estritamente tratados como um problema, o Estado de Israel nunca lhes ofereceu qualquer esperança, delineando positivamente o seu papel no estado em que vivem. O mais obsceno foi a ideia, que circulou há cerca de uma década, de que cada palestino da Cisjordânia receberia meio milhão de dólares se deixasse o país.

O Hamas e a linha dura israelense são, portanto, as duas faces da mesma moeda: a verdadeira escolha não é entre eles, mas entre os fundamentalistas da linha dura e aqueles que estão abertos à coexistência de ambos os lados. Aqui, mais uma vez, devemos nos opor à dupla chantagem: se alguém é pró-Palestina, é eo ipso antissemita, e se alguém é contra o antissemitismo, deve ser eo ipso pró-Israel.

A solução não é um compromisso, uma “medida certa” entre os dois extremos – deve-se antes ir até ao fim em ambas as direções, na defesa dos direitos palestinos, bem como na luta contra o antissemitismo. Por mais utópico que isto possa parecer, as duas lutas são dois momentos da mesma luta (especialmente hoje, quando os sionistas antissemitas florescem – pessoas que são secretamente antissemitas, mas apoiam a expansão de Israel, desde Breivik até aos fundamentalistas religiosos dos EUA).

Portanto, sim, apoio incondicionalmente o direito de Israel de se defender contra tais ataques terroristas, mas ao mesmo tempo simpatizo incondicionalmente com o destino desesperado e cada vez mais sem esperança dos palestinos nos territórios ocupados. Aqueles que pensam que há uma “contradição” nesta minha postura são aqueles que efetivamente representam uma ameaça à nossa dignidade e liberdade.

*Slavoj Žižek, professor de filosofia na European Graduate School, é diretor internacional do Birkbeck Institute for the Humanities da Universidade de Londres. Autor, entre outros livros, de Em defesa das causas perdidas (Boitempo). [https://amzn.to/46TCc6V]

Publicado originalmente no blog da Boitempo.

Notas


1 ‘Sorry Mohammad’: What’s behind Ben Gvir’s apartheid honesty? (972mag.com).

2 Hubris Meets Nemesis in Israel by Shlomo Ben-Ami – Project Syndicate (project-syndicate.org).

3 Judicial reform, boosting Jewish identity: The new coalition’s policy guidelines | The Times of Israel.

4 Yuval Noah Harari: This Is Definitely a Coup. Israel Is on Its Way to Becoming a Dictatorship – Haaretz.com.

5 Israeli opposition leader Lapid offers to form emergency government (msn.com).

6 https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/devemos-combater-hamas-mas-procurar-autoridades-palestinas-interessadas-no-dialogo-diz-ex-primeiro-ministro-de-israel/.

7 Palestinian academics sign open letter condemning Abbas’s antisemitic comments | The Times of Israel.


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