Martín Chambi, fotógrafo nativo

Marcelo Guimarães Lima, Noite Púrpura, pintura digital, 2023
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

As obras de Martín Chambi captam e representam momentos de coexistência entre o passado e um presente em transição

Martín Chambi. Juan de la Cruz Sihuana, Cuzco, 1925

Aos 14 anos, Martín Chambi (1891-1973) trabalhou nas minas de ouro que os britânicos exploravam em seu Peru natal. Aprendeu os rudimentos da fotografia com os mesmos patrões estrangeiros. Tornou-se fotógrafo profissional trabalhando por encomendas, especialmente retratos, bem como por conta própria, fotografando a terra e seu povo. As obras encomendadas serviram para financiar sua paixão por documentar seu tempo, sua terra e sua cultura.

Nas obras de Martín Chambi, a fotografia é, ao mesmo tempo, o meio e o índice, a ferramenta e o registro dos desenvolvimentos modernos que afetaram a nação peruana e seus povos nas primeiras décadas do século 20. As obras de Martín Chambi captam e representam momentos de coexistência entre o passado e um presente em transição, ou seja, um tempo dividido internamente entre o que foi e o que virá. Dividido entre o ser e o devir, o presente não é mais idêntico a si mesmo: é um tempo de relativa não-identidade. E, no entanto, entre o fato e a representação, a vida continua como uma duração homogênea. O paradoxo do tempo vivido, como o próprio tempo fotográfico, é que, em muitos aspectos, é um tempo que não passa. O lugar da fotografia situa-se entre o já desaparecido e o sempre aí.

Martín Chambi. Camponesa de Q’eromarca com criança, Cusco, 1934

Um dos elementos notáveis da fotografia de Martín Chambi, podemos afirmar, é de fato o poder de amalgamar em um mesmo olhar, uma mesma visão e perspectiva, o moderno e o “ancestral”, a tecnologia e a “alma” – isto é, a fotografia, a “imagem-máquina”, e o espírito ou a “aura” de um povo, de um lugar e uma cultura. Uma cultura, isto é, uma forma específica de vida, uma forma única de humanidade visibilizada pelo fotógrafo. A “aura”, isto é, uma emanação de luz que emoldura um padrão formal único, uma configuração momentânea e original, ao mesmo tempo fugaz, instantânea e atemporal.

Martín Chambi. Machu-Pichu, 1925

O fotógrafo Martín Chambi é ele próprio portador da modernidade, de uma nova visão para e da sua cultura. O fotógrafo é como um intruso ou invasor em sua própria terra. E, no entanto, a mirada, a visão ou o olhar em suas obras é recíproco, uma espécie de diálogo entre o artista e seus modelos, um comércio de lugares entre o observador e o observado. Neste caso, o fotógrafo é simultaneamente um observador externo e interno. A estética do gênero e do pitoresco na fotografia de Martín Chambi torna-se um meio de inversão – o olhar “estrangeiro” pode servir como ferramenta de autorreflexão. Os indivíduos nas fotos de Martín Chambi parecem olhar para o fotógrafo com um olhar que se assemelha, poderíamos dizer, ao olhar ou visão “mecânica” da câmera: ao mesmo tempo intenso, focado e “distraído”, indiferente ou suspenso.

O fotógrafo indígena não se limita a “desconstruir” a fotografia, o romantismo e os gêneros: ele os usa para seus próprios fins. A sua perspectiva é, em aspectos essenciais, a da lógica implacável do instrumento ou meio fotográfico como tal. A fotografia pode, de fato, registrar o tempo e a cultura com bastante objetividade, porque é em si mesma um empreendimento coletivo, um meio coletivo que implica em cada tomada uma multiplicidade de pontos de vista, incluindo o do fotógrafo, seus sujeitos e espectadores. O olhar múltiplo da fotografia pode expressar as infinitas formas e modulações da experiência humana – todas únicas e ao mesmo tempo equivalentes, isto é, eminentemente traduzíveis na imagem. O próprio tempo traduz suas múltiplas dimensões nas formas da fotografia.

Martín Chambi. Autorretrato com motocicleta, Cuzco, 1934

A obra de Martín Chambi é uma grande coleção de cartões postais que documentam o povo e a paisagem do Peru. Neste vasto acervo, o fotógrafo transita sem esforço da exibição pública, do trabalho comercial para visões privadas. No cartão-postal como forma, a imagem é um ponto mediador entre o olhar do outro e a visão como traço, memória, recordação subjetiva. A imagem fotográfica revela a visão humana como uma relação de troca entre dois ausentes. Entrega-se a um terceiro ausente: o cartão-postal dirige-se ao futuro.

Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

Tradução/revisão/ adaptação do original publicado no livro Heterocronia and Vanishing Viewpoints, art chronicles and essays. Disponível em acesso livre aqui.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Bruno Fabricio Alcebino da Silva Ladislau Dowbor Vinício Carrilho Martinez Mariarosaria Fabris Tarso Genro Sergio Amadeu da Silveira João Carlos Loebens Daniel Costa Vladimir Safatle Igor Felippe Santos Vanderlei Tenório Claudio Katz Thomas Piketty Tadeu Valadares João Carlos Salles Francisco Fernandes Ladeira Matheus Silveira de Souza Jean Pierre Chauvin Plínio de Arruda Sampaio Jr. Armando Boito Dennis Oliveira Luiz Carlos Bresser-Pereira Salem Nasser Bruno Machado José Raimundo Trindade João Feres Júnior Michael Löwy Ricardo Abramovay Manuel Domingos Neto Otaviano Helene Ricardo Fabbrini Celso Favaretto Francisco de Oliveira Barros Júnior Julian Rodrigues Flávio Aguiar Paulo Capel Narvai Lincoln Secco Rafael R. Ioris Chico Whitaker Jean Marc Von Der Weid Elias Jabbour Luís Fernando Vitagliano Gilberto Lopes José Dirceu Paulo Sérgio Pinheiro Eugênio Bucci Marilena Chauí Remy José Fontana Eugênio Trivinho Marjorie C. Marona José Costa Júnior Heraldo Campos Caio Bugiato Chico Alencar Annateresa Fabris Alexandre de Freitas Barbosa Luis Felipe Miguel Francisco Pereira de Farias Samuel Kilsztajn Henri Acselrad Benicio Viero Schmidt Maria Rita Kehl Marcus Ianoni Gilberto Maringoni Luiz Marques João Sette Whitaker Ferreira Osvaldo Coggiola Alysson Leandro Mascaro Dênis de Moraes Alexandre Aragão de Albuquerque Luiz Renato Martins Antonino Infranca Walnice Nogueira Galvão Leonardo Boff Eliziário Andrade Ricardo Musse Yuri Martins-Fontes Bento Prado Jr. José Micaelson Lacerda Morais Luiz Bernardo Pericás Milton Pinheiro João Paulo Ayub Fonseca Ricardo Antunes José Luís Fiori Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Marilia Pacheco Fiorillo Fernão Pessoa Ramos Slavoj Žižek Jorge Luiz Souto Maior Michel Goulart da Silva Luiz Eduardo Soares Henry Burnett Ari Marcelo Solon Eleutério F. S. Prado Luiz Roberto Alves Boaventura de Sousa Santos Marcos Silva Andrés del Río Juarez Guimarães Paulo Nogueira Batista Jr Antônio Sales Rios Neto Jorge Branco Manchetômetro Fernando Nogueira da Costa Daniel Brazil Rubens Pinto Lyra Priscila Figueiredo Lucas Fiaschetti Estevez Afrânio Catani Ronald Rocha Ronald León Núñez Renato Dagnino Everaldo de Oliveira Andrade João Adolfo Hansen André Márcio Neves Soares Leonardo Sacramento Érico Andrade Valerio Arcary Sandra Bitencourt Carla Teixeira Eleonora Albano Bernardo Ricupero Kátia Gerab Baggio Marcos Aurélio da Silva Denilson Cordeiro Anselm Jappe Gerson Almeida Luiz Werneck Vianna Leda Maria Paulani Paulo Martins Ronaldo Tadeu de Souza Carlos Tautz Rodrigo de Faria Fábio Konder Comparato João Lanari Bo André Singer Berenice Bento Tales Ab'Sáber Atilio A. Boron Alexandre de Lima Castro Tranjan Eduardo Borges Liszt Vieira Airton Paschoa Andrew Korybko Valerio Arcary Gabriel Cohn Antonio Martins Michael Roberts Mário Maestri Marcelo Módolo Celso Frederico José Machado Moita Neto Luciano Nascimento Paulo Fernandes Silveira Marcelo Guimarães Lima José Geraldo Couto Lorenzo Vitral Leonardo Avritzer Daniel Afonso da Silva Flávio R. Kothe

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada