José Carlos Bruni (1940-2025)

Imagem: kierah gaudin
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Por ELTON CORBANEZI*

Mais que um intelectual, Bruni foi um artesão do pensamento: sua lentidão deliberada era um gesto político contra a desumanidade do capital e uma prova de que ainda é possível ruminar ideias em tempos áridos

1.

Falecido em 12 de novembro de 2025, José Carlos Bruni foi um intelectual e professor de qualidade rara. Quem pôde assistir às suas aulas sabe o significado dessa afirmação. Suas aulas eram experiências marcadas por uma reflexão autêntica e profunda, podendo provocar em seus ouvintes uma forma de êxtase.

José Carlos Bruni acompanhou minha formação acadêmica, tendo participado das bancas examinadoras de monografia, mestrado e doutorado e atuando como um co-orientador informal desde a minha graduação em Ciências Sociais. Em determinado momento, tive a oportunidade de lhe dizer expressamente que suas aulas me provocavam um tipo de arrebatamento, tamanha intensidade do pensamento.

Ousaria dizer que não se tratava de uma experiência exclusivamente pessoal. Na edição da revista Tempo Social (USP)da qual José Carlos Bruni foi um dos fundadores e editor responsável desde o primeiro número em 1989 até 1995[i] – dedicada a seu sexagenário em 2000, Marilena Chauí exalta justamente o talento docente de Bruni e a importância e o sentido que ele conferia à docência.[ii]

Suas aulas, e também as conversas, eram sempre momentos de elaboração profunda do pensamento, o qual se desenvolvia em um tempo próprio, diverso da aceleração moderna e contemporânea. Era preciso aguardar o desenvolvimento do pensamento que se elaborava de forma penetrante em uma fala pausada e reflexiva, que requeria, por parte do ouvinte e do interlocutor, a paciência própria da formulação do saber.

Ruminar como uma vaca – para retomar a expressão de Friedrich Nietzsche – era uma atitude intelectual crítica contra a aceleração moderna que violenta também o tempo intelectual e a própria dimensão acadêmica da universidade.

José Carlos Bruni não foi apenas um “amigo do lento”, para usar outra expressão de Nietzsche que figura em seu texto sobre o filósofo alemão.[iii] José Carlos Bruni foi também um espírito livre, cujo caráter antidogmático se reflete em sua própria trajetória intelectual. Tradutor de Wittgenstein e de Marx, José Carlos Bruni realizou seu mestrado sobre o conceito de ideologia no jovem Marx na Alemanha, onde seria orientado por Theodor Adorno, que veio a morrer em 1969, não concretizando, assim, a relação de orientação.

2.

Com viés marxista à época, José Carlos Bruni dedicou seu doutorado a um estudo original sobre a noção de poder em Auguste Comte. Tratava-se, como ele dizia, de conhecer sem mediação o antípoda do pensamento marxiano. Talvez tendo como fio condutor o problema do poder e da violência que lhe é constitutiva, José Carlos Bruni se aproximou cada vez mais de autores como Friedrich Nietzsche e Michel Foucault.

Sua inquietação sobre o poder era também uma aversão às suas mais infames e violentas formas de manifestação na sociedade capitalista moderna e contemporânea. Em sua tese sobre Auguste Comte, José Carlos Bruni sustenta que, “por mais ideológico que saibamos que seja, seu discurso [o de Comte] nos leva diretamente a algo mais importante que a ideologia: a violência real da sociedade burguesa […]. É por isso que Comte é ‘atual’ – e o será sempre, enquanto a violência for um princípio constitutivo da nossa sociedade”.[iv]

Tanto em sua tese de doutorado, na reflexão que realiza sobre (e a partir de) o monstro Frankenstein,[v] quanto em seu texto sobre Michel Foucault[vi], José Carlos Bruni parece denunciar ainda a violência que se esconde e se expressa nas diferentes formas de silenciamento provenientes das manifestações de poder. Essa leitura aparece também no breve posfácio que ele escreveu para o livro de minha autoria publicado em 2021, o qual me permito e tenho a honra de referenciar: “Sua investigação refinada e minuciosa não esconde seu vigor crítico ao denunciar o tipo de violência do capitalismo moderno que abriga no seu silêncio gritos dilacerados da mais profunda desumanidade”.[vii]

Como se observa, a reflexão de José Carlos Bruni parece continuar a indignar-se ante o problema da relação entre poder e violência na sociedade capitalista moderna, em que o silêncio figura como uma de suas manifestações desumanas.

Não ouso escrever uma homenagem de forma genérica em nome da relevância de José Carlos Bruni para a sociologia e a filosofia no Brasil. O quadro altamente qualificado que ele formou, com diversos professores atuando nas mais importantes universidades do país, poderia fazê-lo de forma sistemática, a exemplo da referida edição da Tempo Social, publicada em homenagem ao seu sexagésimo aniversário em 2000.

Escrevo a partir de uma experiência pessoal específica marcada pelo encontro que continua a ressoar em meu cotidiano profissional e humano. Trata-se de um efeito próprio do encontro intenso com os mestres que nos formam e influenciam. Para além de homenagem, escrever é também elaborar a perda, não obstante a percepção nítida de que a ressonância e o legado são perenes.

José Carlos Bruni deixou uma marca profunda e indelével em muitos que puderam se beneficiar de sua generosidade e do seu talento intelectual, o qual se voltava também contra todas as formas de violência e opressão.

*Elton Corbanezi é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Autor de Saúde mental, depressão e capitalismo (Unesp) [https://amzn.to/3EfESTk]

Notas


[i] No editorial de apresentação da revista Tempo Social em 1989, Bruni expõe as diretrizes e os compromissos intelectuais norteadores da revista. Cf. https://www.scielo.br/j/ts/a/PgQdhjjrhLyWwvv4S5N5HVr/?lang=pt#.

[ii] CHAUÍ, Marilena. Bruni: o sentido da docência formadora. Tempo Social, São Paulo, v. 12, n.2, 2000, p. 49-54.

[iii] BRUNI, José Carlos. “c”. Ciência e Cultura, Revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, São Paulo, v. 54, n. 2, 2002, p. 33-35

[iv] BRUNI, José Carlos. Poder e ordem social na obra de Auguste Comte. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1989, p. 42-43.

[v] Na conclusão da tese, Bruni justifica a motivação do seu estudo mobilizando a personagem Victor Frankenstein: “Acima de tudo, a criatura de Victor Frankenstein não possui nome próprio: é designado pelos termos monstro ou demônio. Sua aparência física foge à norma (…). E finalmente, – isto é essencial – é-lhe recusada sistematicamente a fala: sua simples presença provoca pânico nas pessoas que jamais lhe dão oportunidade para se comunicar. Encarna da maneira mais visível possível a exclusão absoluta (…). Quanto mais procura um meio de minorar seu sofrimento, tanto mais é obrigado a praticar atos que o repugnam (…). Assim, este personagem sem nome nos dá muito a pensar. Não estaria o monstro a nos dizer que a violência com que a diferença é calada é a maior monstruosidade de que o discurso da ordem, da razão, da autoridade, da competência e da ciência positiva é capaz? (…) Não encarnaria essa figura criada pela ciência a monstruosidade interna da ciência que só é possível ver nessa forma de exterioridade brutal? Foi tentando colocar-me no lugar do monstro criado por Victor Frankenstein que as páginas deste trabalho foram escritas” (Idem, p. 197-198).

[vi] BRUNI, José Carlos. Foucault: o silêncio dos sujeitos. Tempo Social, São Paulo, v.1, n.1, 1989, p. 199-207.

[vii] BRUNI, José Carlos. Posfácio, p. 225. In: CORBANEZI, Elton. Saúde mental, depressão e capitalismo. São Paulo: Editora Unesp, 2021.

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