Liberdade reacionária

Imagem: Pin Wang
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Por JOSÉ SZWAKO*

Negacionismo, antifeminismo e antiglobalismo na extrema direita brasileira

“Pela liberdade de nascer
Pela liberdade de andar na praça sem tomar mata-leão do guarda
Pela liberdade de o doutor dar remédio ao doente
Pela liberdade de tapar o ouvido aos histéricos – de microfone e jaleco
Contra a censura do bem
Contra os verdadeiros mentirosos
Pela liberdade de se defender – com chumbo grosso, se preciso
Pelo cultivo do que é belo
Pela liberdade de professarmos a nossa fé”.[i]

Foram essas as frentes de batalha ideológica do site Brasil sem medo – autointitulado “o único streaming de notícias sobre cultura e política declaradamente conservador”. Como se vê, a liberdade importa muito nesse streaming. O Brasil sem medo (BSM) tem em ninguém menos que Olavo de Carvalhos sua principal fonte de inspiração intelectual. A maior parte de seus 30 jornalistas e articulistas vem de trajetórias prévias em redes e mídias, em especial, no YouTube e Twitter. Em sua maioria,eles atuam como influencers em perfis e canais online herdeiros dos contra-públicos olavistas (Rocha 2018, Nóbrega da Silva 2018).

Em certo sentido, o BSM é uma versão aggiornada do Mídia sem máscara, este sim diretamente liderado por Olavo de Carvalho.[ii] Ambos se definem “conservador” e “contra o esquerdismo”. Comum também é seu espírito de reação à mídia convencional brasileira: enquanto o Mídia sem Máscara se dizia uma espécie de “media watch”, o Brasil sem medo tem colunas dedicadas a fazer uma “cobertura sempre imperdoável do jornalismo nacional”, como veremos, chamado de “extrema-imprensa” por vários articulistas do jornal.

As raízes intelectuais dessa aversão à mídia estão, em boa parte, na obra de Olavo de Carvalho. Para ele, a mídia brasileira é marcada por um “unanimismo”, contra o qual denuncia: “[quem] se aventure a mostrar à opinião pública certos fatos ou ideias ignorados geralmente pela mídia terá contra si não somente a mídia mesma, mas o consenso dominante dos intelectuais e artistas” (Carvalho 1999, p.371). Nesta veia, o Brasil sem medo afirma lutar hoje “contra a censura do bem”, quer dizer, contra a alegada censura a que estaria sujeito.

De um ponto de vista comunicacional, o Brasil sem medo se vincula a outros sites e empresas, igualmente nutridos por intelectuais e grupos de extrema direita, tais como Brasil Paralelo, Burke Instituto Conservador, Estudos Nacionais e Gazeta do Povo, além de uma porção de satélites menores. Essa constelação que reúne Olavo, BSM e outras estrelas ultraconservadoras forma uma sorte de ecossistema desinformacional em que são compartilhadas estratégias e armas de batalha (antimídia, antiglobalismo e negacionismo cientifico) que visam inscrever seus ideais, discursos e cânones reacionários em uma disputa cultural mais ampla (Szwako & Cardoso-da-Silva, 2022).

Neste texto, apresento uma análise da produção ideológica específica do Brasil sem medo,[iii] entendendo-a como expoente não do conservadorismo, mas do reacionarismo atual; este último é, pois, uma versão depurada e radicalizada do nosso conservadorismo (Lynch 2022). Como vimos ao início do texto, a noção de liberdade está no centro dessa ideologia reacionária. Demanda-se liberdade para uma miríade de objetivos: liberdade para não se vacinar e para não vacinar os filhos; liberdade, na pandemia, para prescrever soberbamente cloroquina; liberdade, enfim, para desinformar.

Analiso aqui essa ânsia de liberdade em suas conexões com a obra de Olavo de Carvalho, como em suas ligações com o antiglobalismo, negacionismo e antifeminismo. Afinal, do que estão falando os sites e ideólogos quando pedem liberdade? É a resposta reacionária a esta questão que tento trazer à luz.

“Extrema-imprensa”, conluio e negacionismo científico

Uma das principais raízes do sentimento de repúdio do Brasil sem medo às mídias convencionais reside na produção de Olavo de Carvalho, para quem, no Brasil, até mesmo um “cafetão é mais decente que jornalista”.[iv] No conjunto das matérias do Brasil sem medo que abordam mídia e ciência, as maiores instituições da imprensa brasileira recebem tratamento sarcástico. Enquanto a Associação Brasileira de Imprensa é taxada de “Aglomeração Biruta da Imprensa”,[v] a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo é chamada de “clubinho” dos “conglomerados que controlam a maior parte da mídia brasileira, a famosa extrema-imprensa”.[vi] Seriam, então, os jornalistas e as mídias convencionais os representantes nacionais dos “interesses dos metacapitalistas”[vii] – noção igualmente utilizada por Olavo de Carvalho (2013) em seu antiglobalismo.

É através dessa noção de “extrema-imprensa” que os jornalistas do Brasil sem medo operam a chamada retorção (Taguieff, 2001). A retórica da retorção é a estratégia pela qual se imputa a um adversário as realidades e críticas que são dirigidas, neste caso, ao Brasil sem medo.  Assim, seria a “extrema-imprensa” que adere “ao alarmismo e sensacionalismo”[viii]. Por exemplo: frente à quantidade obscena de mortos e internados na crise pandêmica, a responsabilização é endereçada, não ao ex-presidente, mas à cobertura dos jornais tradicionais.

“A extrema-imprensa descobriu que ele [Bolsonaro] não se solidariza com as vítimas. Só agora, só tarde, só uma e primeira vez. De certo ele soltava rojão antes quando sabia da morte de algum compatriota. Ou é a extrema-imprensa que noticia cada morte como um gol e não dá uma notinha sobre curados?”[ix]

Interessante notar como esse apelo antimídia é articulado aos ataques à comunidade científica, pois, no ideário do Brasil sem medo, existiria um conluio entre jornalismo e ciência. Por seu turno, a “extrema-imprensa” teria, na pandemia, fabricado um cenário “histérico”. “Boa parte do trabalho da mídia, porta-voz de políticos autoritários e bilionários sedentos por poder, foi no sentido de gerar um estado de histeria coletiva”[x].

Nesse conluio imaginado pelo Brasil sem medo, cientistas e jornalistas estariam empenhados em difundir mais que “sensacionalismo”: “vemos especialistas, médicos e cientistas tratarem a ciência como algo inquestionável, beirando a superstição, igualmente vemos jornalistas se valendo da imagem de responsabilidade social e guia da democracia para descambar em sensacionalismos dos mais torpes, cujo ápice aparece no Brasil através da busca da censura de vozes discordantes e disseminação de ódios, medos e preconceitos”.[xi]

Mais uma vez, a realidade é retorcida agora para questionar o monopólio da interpretação científica. Interessantemente, a negação dos consensos internacionais no frame de extrema-direita não se dá somente a partir de fora dos quadros científicos. Tal como em outros casos (Oreskes & Conway 2010), o Brasil sem medo não tem em mãos só jornalistas; ele conta também com endosso científico. “Cientistas brasileiros escrevem Carta Aberta ao Brasil sobre a pseudo-ciência [sic] da pandemia de coronavírus que quer proibir o uso de hidroxicloroquina” – lê-se na headline de uma das matérias de abril de 2020.[xii]

“Nessa pandemia”, abre a carta, “o termo ‘ciência’ tem sido utilizado ‘ad nauseam’. Repetem a exaustão: ‘Ciência, ciência, ciência’, eu sou ‘pró-ciência’, e ‘por ela, nela e para ela’ me guio e atuo. ‘Eu, portanto, estou certo, coberto de razão’”[xiii]. Na carta, a defesa de métodos e remédios sem resultados cientificamente comprovados, ou cujo uso se mostrou danoso, com hidroxicloroquina à frente, mira contra um pretenso autoritarismo que se alega “coberto de razão”: “Nunca um cientista ou um grupo deles pode se declarar autorizado a falar em ‘nome da ciência!’”.[xiv]

Essa carta pode ser compreendida como uma forma de negacionismo científico, pois se trata de um esforço deliberado de deslegitimar consensos científicos – que são, por definição, provisórios. No entanto, diferentemente do que se imagina, a estratégia negacionista não é exterior às ciências. Ao contrário, ela se vale de credenciais e retóricas acadêmicas para se fazer passar por “científica”. Neste sentido, são mobilizadas assinaturas de pesquisadores e pesquisadoras que, embora não sejam experts em saúde, são e se apresentam como acadêmicos.

Eles têm pouco ou nenhuma expertise em cloroquina, mas usam tal credencial para impor uma autoridade sem fundamento especializado. Além disso, sua performance é cientificista, quer dizer, ela é mais realista que o rei ao mobilizar índices e estéticas daquilo que seus signatários imaginam que seria “científico”; dizem eles: os “pesquisadores que assinam a carta somam mais de 69 mil citações”.[xv]

Não por acaso, essa carta está ligada ao movimento “Docentes Pela Liberdade”, cujo objetivo consiste em “recuperar a qualidade da educação no Brasil, romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica”.[xvi] Mais ainda: na liderança da carta está o nome de Marcos Eberlin, químico, professor universitário e autor do livro Fomos planejados: a maior descoberta científica de todos os tempos. Marcos Eberlin é uma das figuras centrais na difusão do chamado “design inteligente”, herdeiro direto do criacionismo estadunidense (Hentges & Araújo 2020).

À primeira vista, o ponto central da carta parece ser a hidroxicloroquina. Com efeito, seus autores ignoram as evidências já disponíveis entre abril e maio de 2020 (Valverde, 2020), fazendo recurso a uma máxima reflexiva cara às próprias ciências: o “embate científico” é “inevitável”. E, retorcendo a ciência, arremata que esta nutre “a cultura do embate, da divergência de opiniões”. Porém, indo mais fundo, vê-se que é a reivindicação de “liberdade” que está no horizonte desta defesa do cloroquina. Pedem liberdade afirmando uma “soberania” frente às “incertezas no diagnóstico, e por tratarmos não papéis nem exames, mas pessoas, faz-se imperativo ao médico decidir no olho a olho com seus pacientes, invocando não a ‘ciência’ de alguns, mas a bússola valorosa da medicina que salva vidas desde os primórdios da medicina: “a clínica é soberana!”.[xvii]

Essa ode à cloroquina não está desligada de uma veia antimídia: “famosos cientistas” teriam sido “selecionados pelo establishment e pela mídia para dar um ‘verniz científico’ para o isolamento social e a condenação da hidroxicloroquina”[xviii]. No entanto, contra esses “pseudocientistas”, a carta faz mais que defender o uso da cloroquina.

O que está em jogo é, antes, a liberdade de escolha. Por um lado, aferrando-se à experiência imediata, a uma sorte de eupirismo (esse empirismo do eu), defende-se que cada médico, “no olho a olho”, seja livre na sua prescrição “soberana”. Por outro, defende-se, literalmente em letras garrafais, a liberdade de escolha de cada paciente, para que “absolutamente todos os brasileiros que assim desejem, tenham o direito de ser tratados com a [hidroxicloroquina] HCQ”.[xix]

 Ora, não foi outra uma das principais frentes de batalha regressiva do Brasil sem medo em 2020: “pela liberdade de o doutor dar remédio ao doente”[xx]. Aos olhos desse editorialista, “pela primeira vez na história se viu uma cruzada internacional contra um remédio”.[xxi] E, novamente, voltamos àquele conluio imaginado, pois 2020 foi, para ele, o ano “em que a fina flor da ciência mundial, bilionários caridosos, políticos desapegados e empenhados jornalistas nos mandavam ficar em casa”.[xxii].

Antiglobalismo e antifeminismo

Não é somente a veia antimídia do Brasil sem medo que se inspira na obra de Olavo de Carvalho. No vocabulário do maior pensador da extrema-direita brasileira, o chamado “globalismo” seria a união de “metacapitalistas” com liberais e políticos progressistas, sob o manto das Nações Unidas, em defesa do socialismo e contra uma imaginária “civilização judaico-cristã” (Carvalho 2013). No conjunto das matérias do site, o repúdio às agências do Sistema das Nações Unidas assume um tom fortemente generificado. Quer dizer, o antiglobalismo do Brasil sem medo está repleto de figuras e temas ligados a família, reprodução e sexualidade.

Exemplo adequado disso pode ser lido em “Aborto: o dogma satânico da seita globalista”.[xxiii] Neste libelo contra a Organização Mundial da Saúde, os direitos sexuais e reprodutivos seriam apenas “um eufemismo para aborto e contracepção”. Políticas e documentos da OMS, na visão do autor, “promovem o aborto em todo o mundo e ainda fornecem os meios tecnológicos para a realização do mesmo”. Nestes termos, “[e]mpoderar as mulheres, para a ONU e a OMS, é dar-lhes o poder, por exemplo, de autorizarem o esquartejamento de seus bebês indefesos dentro de seus úteros”.[xxiv]

O antiglobalismo do Brasil sem medo dá assim vazão a fontes generificadas de pânico moral. “Na lógica da OMS”, escreve o jornalista, “a manicure não pode abrir seu salão de beleza, mas o ‘médico’ aborteiro pode manter sua clínica de aborto funcionando, para continuar a assassinar bebês e lucrar com este sangue”[xxv]. É mais: a OMS estaria incentivando um “genocídio” que “não pode parar durante a peste [da COVID 19], simplesmente porque o aborto é o dogma satânico da seita globalista”.[xxvi] Para esse ideólogo, feministas e Nações Unidas estariam articulados e querem ludibriar a todos, pois seriam “abortistas”; em plena crise pandêmica, ele se pergunta: “Confiaremos em abortistas para salvar as vidas dos brasileiros?”.[xxvii]

Contudo, não é apenas a descriminalização do aborto que entra em cena. Na retórica antiglobalista também emergem o fantasma da “pedofilia” e o suposto fim da “família”. Enquanto mídias como a Rede Globo são acusadas de “apoiar a pedofilia”,[xxviii] acusa-se, em paralelo, as esquerdas de pretenderem “legalizar pedofilia, estupro e assassinato”.[xxix] Na visão do autor dessa última matéria, além de ser pretensamente uma “bandeira” de Jair Bolsonaro e de Damares Alves, ela “não agrada uma série de agendas internacionais que por meio de milionários despeja milhões de dólares todos os anos em ONGs pelo Brasil” [xxx]. Tal como outros movimentos antigênero (Szwako 2014), opera-se aqui uma ponte imaginária entre feminismos e pedofilia, pois “ativistas pela descriminalização do aborto têm, invariavelmente, algo em comum com os defensores do lobby da pedofilia”.[xxxi]

Por outro lado, junto ao fantasma da “pedofilia”, as feministas são também acusadas de se aliar a ONU e a supostos “megabilionários” para “destruir” as famílias. Neste sentido, a crise pandêmica teria sido “usada para avançar uma das principais agendas do globalismo: a destruição da instituição familiar”.[xxxii] Estaria em curso uma “grande reforma social” para colocar em xeque “a família” através do “sexo livre, divórcio, controle familiar, aborto. Todas estas coisas passaram por processos semelhantes. Nada brotou espontaneamente da vontade dos povos”.[xxxiii] Na ideação reacionária, a natureza “espontânea” dos seres humanos e das sociedades seria avessa aos interesses e aos “engenheiros sociais” dessa “reforma globalista”.

Esse conjunto de pânicos morais, de pontes imaginárias e de supostos conluios carrega algo análogo àquela defesa criacionista da cloroquina: ambos dizem respeito à defesa de um ideal de liberdade vindo da extrema direita. “Estamos numa época em que a briga pela liberdade começa no ventre materno” [xxxiv] – diz o editorialista ao comentar a batalha do Brasil sem medo “pela liberdade de nascer” [xxxv]. Nessa luta, face o perigo do direito ao aborto, a figura do “ventre” é tornada uma “antessala da morte, um patíbulo de inocente, uma câmara nazista”.

Enfim, para o conspiracionismo reacionário, são as forças “globalistas”, suas agências internacionais junto a personagens feministas, midiáticas e de esquerda, as responsáveis por esse estado de coisas. Contra elas e “pela liberdade de nascer”, é “preciso lutar pela vida, o mais primitivo dos direitos – e, por isso mesmo, o mais importante”.[xxxvi]

Uma liberdade reacionária

Ao acompanhar um conjunto de matérias do Brasil sem medo em conexão com suas raízes olavistas de inspiração intelectual, vimos que os ataques à mídia convencional sintetizados na acusação à “extrema-imprensa” se articulam a ofensas de “histeria” e aos desafios dirigidos contra autoridades sanitárias e científicas. E, à diferença do que se poderia imaginar, o negacionismo reacionário não é estritamente anticientífico. Ele se vale das ciências, de suas lógicas, de seus argumentos e, mesmo, de parte de seus cientistas – não experts em pandemia, apesar de academicamente credenciados com lattes e tudo. Assim, dizendo nutrir a “dúvida” e o “debate”, aquela carta pró-cloroquina se via e se vendia como uma pretensa desmistificadora do “verniz científico”.

Além disso, notamos também que um bom montante de energia ultraconservadora foi investido contra o chamado “globalismo”. Ao redor dele e contra a “família”, viveria outro conluio agora somando feministas e “esquerdistas” – acusam. Assim, para a extrema-direita, a crise pandêmica teria servido como oportunidade para jornalistas, políticos, feministas, cientistas e esquerdistas difundirem a “histeria” e “desinformação”, “abolir a família” e “legalizar a pedofilia”. Mais que tudo, a crise de 2020 teria colocado em risco a “liberdade” desses sites e grupos que se alegam vitimados pelas medidas sanitárias.

Em comum, é o apelo à “liberdade” que está no horizonte desses discursos. Afirma-se a liberdade de escolha, tanto do paciente como do médico “soberano”, para medicar e medicar-se conforme sua própria experiência. Aí, é o reino supremo da vivência imediata (do eupirismo¸ dizíamos) que serve como “bússola” moral do ultraconservadorismo. Pouco importam os parâmetros internacionais mínimos alcançados, pois, nessa imaginação, eles são sempre já fruto do “globalismo” que supostamente atenta contra a liberdade.

No entanto, essa é apenas a camada mais acessível dessa retórica. A defesa reacionária da “liberdade” vai além. Ela faz mais que desconhecer parâmetros de construção de consensos científicos; ela quer e finge desconhecer padrões de construção de consensos sociais e políticos. Consensos científicos, nessa imaginação, são deturpações dos valores da “família” – estes, sim, “valores” imaginadamente naturais (“espontâneos”, dizia o reacionário) à sociedade e à humanidade. Consensos sociopolíticos, nessa imaginação, não seriam legítimos porque a legitimidade brotaria de uma coletividade pretensamente espontânea. Para o reacionarismo, tais consensos são espúrios e ilusórios pois “tudo e todos” seriam parte de uma “seita” ou conspiração “globalista”.

Dessa forma, quando os líderes, intelectuais, jornalistas ou médicos de extrema-direita se dizem atacados por mídias e cientistas ou quando dizem ter sua “soberania” constrangida, estão dizendo que não estão, ou não se veem, sujeitos a regras e às instituições. Ao dizer que pode reinar sobre as crianças e sobre o seu “lar” – porque “a família é sagrada” –, o pai reacionário não está fazendo uma reivindicação liberal do direito à autonomia, mas apenas exerce seu domínio patriarcal imaginando que legisla soberbo, sem ECA nem lei, ali onde ele reina.

Essa liberdade reacionária é, portanto, uma “liberdade” que se vê desprovida de limitações, mas não só. Ela veicula um sujeito que se entende e se pretende desprovido de sanções institucionais. Assim, ao opor-se a medidas sanitárias ou ao difundir desinformação dia após dia, em nome da cloroquina ou contra a vacinação, os grupos, sujeitos e discursos de extrema-direita empunham uma pretensa “liberdade de expressão”. Bem entendido: alega-se ser livre (“soberano”) com fins a – este é o ponto – não ser sancionado nem responsabilizado pelos efeitos deletérios de sua ação contra outrem e contra todos. É disso, afinal, que tratam esses sites e ideólogos quando pedem por liberdade: uma carta branca para si e para os seus, uma licença nada poética para agir indiscriminadamente contra os outros.

Tomadas a sério, essas retóricas e demandas da extrema direita brasileira não autorizam qualquer gota de otimismo mesmo depois de uma reeleição fracassada. No entanto, entender aquilo que é mais caro ao reacionarismo pode, talvez, nos ajudar a encontrar alternativas a ele.

*José Szwako é professor de ciência política no IESP-UERJ. Autor, com José Luiz Ratton, do livro Dicionário dos negacionismos no Brasil (CEPE Editora). [https://amzn.to/3OY5FWz]

Publicado originalmente publicado, numa versão mais longa, na revista Brésil(s). Sciences humaines et sociales, n°. 23 (2023) [DOI: https://doi.org/10.4000/bresils.15071].

Referências


Agamben, Giorgio. 2020. ¿En qué punto estamos? La epidemia como política. Artillería Inmanente.

Carvalho, Olavo de. 1999. O imbecil coletivo – atualidades inculturais brasileiras. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade.

Carvalho, Olavo de. 2013. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Ed. Record.

Hentges, Cristiano e Aldo Araujo. 2020. “Uma abordagem histórico-crítica do Design Inteligente e sua chegada ao Brasil”. Filosofia e História da Biologia 15 (1): 01-19. DOI: 10.11606 / issn.2178-6224v15i1p01-19.

Lynch, Christian. 2020. “A Utopia Reacionária do governo Bolsonaro (2018-2020)”. Revista Insight Inteligência 89: 21-40. Disponível em: https://inteligencia.insightnet.com.br/pdfs/89.pdf

Nascimento, Raphael. 2022. “Caso Agamben”. In: SZWAKO, José; RATTON, José L. (Orgs). Dicionário dos Negacionismos no Brasil. Recife: Cepe, p. 64-67.

Nóbrega da Silva, Leonardo. 2018. “O mercado editorial e a nova direita brasileira”. Teoria e Cultura 13 (2): 73-84. DOI: 10.34019/2318-101X.2018.v13.12430.

Oreskes, Naomi e Erik M. Conway. 2010. Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. New York: Bloomsburry Press.

Patschiki, Lucas. 2012. “Os litores da nossa burguesia: o Mídia Sem Máscara em atuação partidária (2002-2011)”. Dissertação de mestrado. Paraná: Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Rocha, Camila. 2018. “‘Menos Marx, mais Mises’: Uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018)”. Tese de doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo.

Szwako, José. 2014. “O ‘mau desempenho’ de Lugo: gênero, religião e contramovimento na última destituição presidencial paraguaia”. Opinião Pública 20 (1): 132-155. DOI: 10.1590/S0104-62762014000100007.

Szwako, José. 2023. “Négationnisme, antimondialisme et défense de la liberté dans le réactionnarisme brésilien contemporain”. Brésil(s). Sciences humaines et sociales 23 DOI: https://doi.org/10.4000/bresils.15071.

Szwako, J. & Cardoso-da-Silva, M. 2022. “Orwell à brasileira”. Dois Pontos 19 (2), p. 67-77.

Taguieff, Pierre-André. 2001. The Force of Prejudice. On racism and its doubles. London, Minneapolis: University of Minnesota Press.

Valverde, Ricardo. 2020. “Doses altas de cloroquina não são indicadas pelo estudo CloroCovid-19”. Portal Fiocruz, 20 de abril de 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/doses-altas-de-cloroquina-nao-sao-indicadas-pelo-estudo-clorocovid-19.

Notas


[i] Todas as menções ao conteúdo do Brasil sem medo podem ser encontradas no site do mesmo seguindo a forma “título” (mês, ano); cf. “2020, o ano em que não tivemos medo” (dezembro, 2020).

[ii] Para um histórico do Mídia sem máscara, ver Patschiki (2012).

[iii] Para os detalhes metodológicos da seleção e hierarquização das matérias selecionadas, ver Szwako 2023.

[iv] Cf. “Cafetão é mais decente que jornalista, diz Olavo de Carvalho” (setembro, 2020).

[v] Cf. “A minha Coréia é aqui” (abril, 2020).

[vi] Cf. “Maia quer censura nas redes sociais” (março, 2020).

[vii] Idem.

[viii] Cf. “Políticos e jornais apostam no caos” (março, 2020).

[ix] Cf. “O teste de gravidez de Bolsonaro” (abril, 2020).

[x] Cf. “2020, o ano em que não tivemos medo” (dezembro, 2020). Não podemos deixar de notar a convergência impensada entre discursos de extrema-direita e de extrema-esquerda, quando ambos acusam a mídia de forjar “um clima de pânico”, tal como argumentou recentemente G. Agamben; este autor que tem se questionado “por qué los medios de comunicación y las autoridades se esfuerzan por difundir un clima de pánico, provocando un estado de excepción” (Agamben, 2020, 11-12). Para uma análise deste caso, ver Nascimento (2022).

[xi] Cf. “Políticos e jornais apostam no caos” (março, 2020).

[xii] Tal carta foi publicada em duas versões. Para a headline, ver “A ‘ciência’ da pandemia” (maio, 2020); ver ainda “Cientistas publicam carta aberta ao Ministro da Saúde” (abril, 2020).

[xiii] Cf. “A ‘ciência’ da pandemia” (maio, 2020).

[xiv] Idem.

[xv] Idem.

[xvi] Veja-se: https://dpl.org.br/institucional/quemsomos/.

[xvii] Cf. “A ‘ciência’ da pandemia” (maio, 2020).

[xviii] Idem.

[xix] Idem.

[xx] Cf. “2020, o ano em que não tivemos medo” (dezembro, 2020).

[xxi] Idem.

[xxii] Idem.

[xxiii] Cf. “Aborto: o dogma satânico da seita globalista” (abril, 2020).

[xxiv] Idem.

[xxv] Cf. “Aborto: o dogma satânico da seita globalista” (abril, 2020).

[xxvi] Idem.

[xxvii] Idem.

[xxviii] Cf. O vírus que ataca as famílias (abril, 2020).

[xxix] Cf. “Como a esquerda quer legalizar pedofilia, estupro e assassinato” (agosto, 2020).

[xxx] Idem.

[xxxi] Idem.

[xxxii] Cf. O vírus que ataca as famílias (abril, 2020).

[xxxiii] Cf. O vírus que ataca as famílias (abril, 2020).

[xxxiv] Cf. “2020, o ano em que não tivemos medo” (dezembro, 2020).

[xxxv] Idem.

[xxxvi] Idem.


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