Macau – 25 anos de soberania chinesa

Imagem: tian Jin
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Por ZHAO RUOXI*

Macau conseguiu preservar sua estabilidade e identidade singular, ao mesmo tempo em que experimentou um desenvolvimento socioeconômico e cultural significativo

Este ano marca o 25º aniversário do retorno de Macau à soberania chinesa, uma oportunidade única para refletir sobre o notável progresso alcançado pela região desde 20 de dezembro de 1999. Sob o modelo “Um País, Dois Sistemas”, Macau conseguiu preservar sua estabilidade e identidade singular, ao mesmo tempo em que experimentou um desenvolvimento socioeconômico e cultural significativo.

Esse modelo permitiu que a região mantivesse seu sistema capitalista, ordenamento jurídico e estilo de vida, ao mesmo tempo em que se integrava à ascensão de uma China moderna. Essa abordagem foi crucial para garantir continuidade e estabilidade, preservando o papel histórico de Macau como um centro internacional de comércio e cultura.

A Lei Básica, que garante um alto grau de autonomia, foi fundamental para a implantação bem-sucedida desse sistema, permitindo que Macau prosperasse como uma Região Administrativa Especial nos últimos 25 anos. A estabilidade política resultante permitiu que o governo se concentrasse no desenvolvimento de longo prazo, fortalecendo a governança e a resiliência econômica.

Macau consolidou-se como um destino global de turismo e lazer, amplamente conhecido por sua indústria de jogos de azar. A região, que arrecada mais que Las Vegas, mantém sua posição como o maior centro de apostas do mundo. Em 2024, até o início de dezembro, Macau já havia recebido 32,5 milhões de visitantes, com a expectativa de ultrapassar 33 milhões até o fim do ano – números impressionantes para um território de apenas 32,9 quilômetros quadrados.

No entanto, a diversificação econômica tem se tornado uma prioridade estratégica. Iniciativas voltadas para o turismo cultural, convenções, exposições e setores correlatos mostram o empenho em diversificar além dos jogos. Projetos como a Zona de Cooperação Profunda Guangdong-Macau em Hengqin buscam integrar Macau aos sistemas industriais e de inovação do Delta do Rio das Pérolas, criando uma base econômica mais diversificada e sustentável.

No campo social, Macau tem implantado políticas que beneficiam amplamente seus residentes, fomentando uma sociedade harmoniosa. Subsídios para habitação, saúde e educação elevaram o padrão de vida e reduziram desigualdades. Segundo dados do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, Macau detém, até 2024, um dos maiores PIBs per capita do mundo, o que reflete a prosperidade compartilhada por seus cidadãos.

A educação desempenha um papel central nesse sucesso. O investimento em ensino superior aumentou a competitividade internacional da região, com instituições como a Universidade de Macau se destacando como centros de excelência em pesquisa, atraindo talentos da Ásia e de outros lugares. O governo também investe na promoção do patrimônio multicultural de Macau, evidente em sua arquitetura, festivais e tradições culinárias, que combinam elementos das culturas chinesa e portuguesa. Em 2005, a UNESCO reconheceu o Centro Histórico de Macau como Patrimônio Mundial, reforçando a relevância cultural global da cidade.

Como parte integrante da Área da Grande Baía, Macau tem aproveitado marcos de infraestrutura, como a Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, para fortalecer a cooperação regional e a conectividade. Projetos como a Zona de Cooperação Profunda Guangdong-Macau em Hengqin fomentaram a diversificação econômica, atraindo mais de 4.000 empresas de Macau para setores como serviços financeiros, turismo cultural e indústrias inovadoras.

O turismo e o setor de eventos também estão em plena expansão, com mais de 1,6 milhão de participantes esperados em eventos MICE (Reuniões, Incentivos, Conferências e Exposições) em 2024, consolidando o papel de Macau na economia da Grande Baía, avaliada em US$ 1,8 trilhão. Além disso, Macau tem promovido a troca de talentos e a inovação, intensificando a cooperação educacional e de pesquisa, com destaque para o campus da Universidade de Macau em Hengqin.

A adoção de tecnologias verdes e digitais reflete o compromisso da região com o desenvolvimento sustentável e a integração às metas de cidades inteligentes da Grande Baía.

Apesar de seus avanços, Macau enfrenta desafios. A pandemia de COVID-19 expôs vulnerabilidades na dependência excessiva do turismo, destacando a necessidade urgente de diversificação econômica. Ao mesmo tempo, a expansão urbana por meio de projetos de aterramento tem gerado preocupações ambientais.

No futuro, o equilíbrio entre crescimento econômico e sustentabilidade será essencial para manter o papel de Macau como parceiro resiliente e inovador na Grande Baía. Projetos de expansão urbana precisam abordar cuidadosamente os impactos ecológicos, enquanto a ênfase contínua em iniciativas verdes e tecnologias inteligentes pode posicionar Macau como um modelo de desenvolvimento urbano sustentável.

A história de Macau também oferece lições valiosas para a comunidade internacional. Sua capacidade de equilibrar autonomia local com integração nacional demonstra o potencial de modelos de governança mais sofisticados em sociedades diversas. O modelo “Um País, Dois Sistemas” tem sido um pilar desse sucesso, provando que estabilidade política e preservação cultural podem coexistir com modernização econômica.

Ao celebrar 25 anos desde seu retorno à China, Macau destaca que cooperação, inovação e inclusão podem gerar prosperidade em um mundo cada vez mais interconectado.

*Zhao Ruoxi é doutoranda na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.


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